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Valmir Lima

Como uma mentira vira verdade na mídia

17 de abril de 2014 Valmir Lima
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De forma solitária, o Amazonas ATUAL publicou no último dia 13 matéria sobre o preço do pescado praticado nas tendas do peixe da Secretaria de Estado de Produção Rural (Sepror). Mostrou-se, na ocasião, que o tambaqui era comercializado pelo mesmo preço praticado nas feiras e mais caro do que nos supermercados (que vendem o quilo do tambaqui de até 3 quilos entre R$ 6,50 e R$ 7,00). Uma foto comprovava que no supermercado Nova Era, da zona leste, o preço era 6,99 o quilo, enquanto na Tenda do Peixe montado na Feira do Coroado, também na zona leste, o mesmo tambaqui era vendido a R$ 7,50 o quilo.

A Sepror, no entanto, “vendeu” uma mentira aos meios de comunicação de que o pescado comercializado nas tentas era 20% mais barato que nas feiras da cidade e que o baixo preço serviria para controlar o preço e evitar abusos na Semana Santa. Os meios de comunicação “compraram” a pauta e ninguém teve o trabalho de ir às feiras, mesmo às mais tradicionais, como a Manaus Moderna, Panair, São José e do Produtor (no bairro Jorge Teixeira) para comparar.

Ao fim e ao cabo, prevaleceu a mentira e sobre a verdade. Com exceção da matrinchã (de até dois quilos), vendida a R$ 9 o quilo (no Nova Era, o preço era R$ 12, mas o peixe com mais de dois quilos), os demais pescados não tinham preço competitivo. O tambaqui sem espinha, por exemplo, era vendido a R$ 13,50 o quilo. Na Feira do Produtor, os feirantes vendem o pescado e cobram apenas R$ 5 por unidade para retirar a espinha. Nas tendas da Sepror, o consumidor pagava, no mínimo, R$ 5 para cada quilo para retirar a espinha.

O pirarucu também era vendido ao preço das feiras: o lombo fresco a R$ 20,00 era praticado nas tendas e na Feira do São José. Havia uma aparente diferença entre o pirarucu chamado de Bacalhau da Amazônia e o mesmo pescado seco vendido nas feiras. O primeiro, vendido a R$ 25,00 o lombo e nas feiras, entre R$ 30,00 e R$ 35,00 o quilo. A diferença é aparente, porque o bacalhau da Sepror não é seco como as mantas de pirarucu vendidas nas feiras, o que resulta em quantidade menor do pescado por quilo quando comprado na tenda, porque mais pesado.

A diferença de preço pode parecer insignificante, mas não é. E não é, porque o contribuinte, consumidor que paga pelo pescado nas tendas, já pagou pela estrutura montada para os produtores venderem seu peixe, literalmente. Toda a estrutura é bancada pela Sepror, com dinheiro do caixa do governo. A Sepror tinha a obrigação de oferecer preços mais baixos, mas fez o contrário, e grande parte dos consumidores nem percebeu.

As tendas foram um sucesso de venda, graças à propaganda gratuita feita por sites, jornais, televisões e rádios, todos “vendendo” as informações da Sepror sem checar, como reza os manuais de jornalismo.

Com isso, prosperou aquela velha máxima de que uma mentira repetida várias vezes acaba virando verdade. Mesmo que alguém demonstre que não é.


Valmir Lima é jornalista, graduado pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), com pesquisa sobre rádios comunitárias no Amazonas. Atuou como professor em cursos de Jornalismo na Ufam e em instituições de ensino superior em Manaus. Trabalhou como repórter nos jornais A Crítica e Diário do Amazonas e como editor de opinião e política no Diário do Amazonas. Fundador do site AMAZONAS ATUAL.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos pescado, preço
administrador 17 de abril de 2014
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