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Variedades

‘Como Matar a Besta’ expõe herança psicológica da ditadura

27 de abril de 2022 Variedades
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Cena de 'Como Matar a Besta': drama sobre sociedade insegura (Foto: Paramount/Trailer/Reprodução)
Cena de ‘Como Matar a Besta’: drama sobre sociedade insegura (Foto: Paramount/Trailer/Reprodução)
Por Inácio Araujo, da Folhapress

SÃO PAULO – À primeira vista, “Como Matar a Besta”, longa de estreia da diretora argentina Agustina San Martín, é um talentoso exercício de criação de atmosfera. Numa região de fronteira com o Brasil do tipo fim de mundo, irrompe a jovem Emilia, em busca de seu irmão Matteo, que não tem respondido aos seus telefonemas.

Emilia se hospeda com uma tia que não parece ter nenhuma simpatia pelas pessoas da família, inclusive sua hóspede. Estamos numa região onde o celular não pega e mal se consegue ouvir rádio. O lugarejo tem algumas casas espalhadas entre árvores e uma igreja. Pouca coisa mais.

Mas o essencial é mesmo isso e é com esses elementos que Emilia terá de lidar. O lugar parece assombrado por um animal, ou antes por um espírito maligno que toma várias formas de animal. Ao menos é nisso que os seus habitantes acreditam e garantem acontecer.

Durante sua busca Emilia fará uma amiga e reencontrará a irmã (que não mora por lá: vem ter com ela). Mas, à medida que o tempo passa, que aos dias calorosos sucedem-se noites brumosas, buscas e desconfianças, outra besta parece se insinuar: são antigos fantasmas argentinos.

O que temos ali? Pessoas que desconfiam umas das outras, gente que some sem dizer adeus (como Matteo), familiares que mal se suportam. Pessoas, enfim, que parecem ter algo a esquecer ou a esconder. Ou ambos.

O cinema argentino mudou. Parece ter menos recursos, trabalha com poucos atores, situações mais intimistas. Mas isso é secundário: há nem tantos anos assim, a Argentina exalava uma espécie de alívio, misturada com alegria. Não quer dizer que não existissem problemas. “O Pântano”, de Lucrecia Martel, para não ir longe, ostentava o mau cheio de problemas mal resolvidos.

Isso era diferente do Brasil, como se sabe. O general Videla, chefe da ditadura, morreu na prisão – mas, admita-se, teve a decência de nunca reconhecer que eram crimes os seus crimes. Não é uma beleza, mas é melhor do que tratar o passado com piadinhas denegatórias. Ele acreditou até o fim que matar seus compatriotas, mesmo que os julgasse equivocados, era uma coisa natural e correta.

Esse é o problema, ao que parece, suscitado pelo filme de San Martín: a besta nunca se reconhece como besta. Ou talvez seja um pouco pior – talvez a besta a ser morta não passe de um boi pouco ameaçador. A ameaça está na cabeça dos habitantes do lugar.

Se o filme de San Martín tiver de fato esse caráter alegórico, significa que a Argentina ainda não se libertou de seus pesadelos. A sombra dos militares ainda vive na cabeça dos nossos vizinhos.

No caso, o tempo lento imposto pela diretora, o caráter sumário das relações interpessoais, o sentimento de hostilidade presente com frequência nos personagens – tudo isso nos transfere da atmosfera de mistério inicial a outra, de horror. Suave, mas nem por isso menos assustador.

Talvez a Argentina esteja num momento de retração, de reflexão sobre o próprio passado, sobre os problemas que a afligem (como ao Brasil): subdesenvolvimento crônico, inflação, descontrole da economia et cetera.

Ao menos é isso que esse filme transmite em seu amargor, embora deixe a sensação de algo ainda incompleto, de um pensamento que se desenvolve.

De todo modo, tais terrores não deixam de ser próximos do Brasil. São análogos. Não será por acaso que o filme se passa numa fronteira que é, ali, mera formalidade: como matar a besta, esteja ela em nós ou fora de nós, ainda é um problema.

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Assuntos argentina, ditadura militar
Cleber Oliveira 27 de abril de 2022
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