
EDITORIAL
MANAUS – Com o país sob o julgo de Jair Bolsonaro, as comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil foram transformadas em uma verdadeira gandaia eleitoral. De norte a sul do país, nada de comemoração, tudo foi transformado em ato de campanha em busca de votos para o dia 2 de outubro.
Essa gandaia eleitoral já era esperada. Bolsonaro e seus apoiadores tomaram de assalto o 7 de Setembro e não deixaram margem para pessoas que não votam no presidente da República – que concorre à reeleição – participar das comemorações.
No palanque montado na Esplanada dos Ministérios, Bolsonaro reinou absoluto, com um discurso puramente eleitoral e eleitoreiro, sem qualquer relação com as comemorações do bicentenário da Independência.
A gandaia, inclusive, extrapolou o discurso político e enveredou pela grosseria. O chefe da Nação brasileira, em alto e bom som, deu um grito patético de “imbrochável, imbrochável, imbrochável”, uma caricatura grosseira do malfadado grito de 7 de Setembro de 1822.
O grito foi entoado pelos fanáticos bolsonaristas diante de uma fala grosseira do presidente sobre mulheres, quando ele tentou comparar a primeira-dama Michelle Bolsonaro com outras primeiras-damas. Bolsonaro, ao microfone, cantou junto, a vanglória. Nenhum homem viril precisa gritar aos quatro ventos que tem virilidade. Mas isso é outro assunto.
Voltemos ao Dia da Gandaia. Bolsonaro usou a estrutura da festa que deveria ser da Nação brasileira para fazer campanha eleitoral. Desrespeitou a legislação que rege as eleições, que tenta dar paridade aos candidatos em disputa. Se o presidente da República não falasse nada sobre eleição e concentrasse o discurso no Dia da Independência, já estaria levando vantagem sobre os demais candidatos. Mas ele usou o discurso para atacar adversários. Uma aberração.
Bolsonaro chegou a insinuar, ou foi claro mesmo, que instauraria nova ditadura. Fez isso no dia da Independência do Brasil. Ele disse o que faria com o país se pudesse fazer o que bem entende: “Alguns acham que posso fazer tudo. Se tudo tivesse que depender de mim, não seria este o regime que estaríamos vivendo. E apesar de tudo eu represento a democracia no Brasil”. Qual seria o regime? Seria o regime militar? Bolsonaro representa que democracia?
No Rio de Janeiro, outro palanque foi montado para o candidato presidente. De novo o 7 de Setembro se transformou em palanque eleitoral. Lá, Bolsonaro atacou autoridades democraticamente constituídas, xingou adversários. Um vexame total.
Não é novidade para ninguém que o presidente da República não consegue manter o respeito por ninguém. E foi nessa pegada que, no 7 de Setembro, ele desferiu insultos contra o candidato Lula (PT), que ameaça sua reeleição. A manifestação do capitão reformado revela o quanto ele está desesperado diante das pesquisas de intenção de voto.
Para tentar conquistar o voto do eleitorado, Bolsonaro mente descaradamente sobre determinados temas: comunismo, religião, Deus, família. O presidente ainda acredita que as pessoas comuns têm medo do comunismo. Qualquer pessoa simples sabe que essa balela, que em 1964 levou grande parte do povo brasileiro a apoiar a ditadura militar, é uma fantasia de quem não tem argumento.
Bolsonaro e seus seguidores fanáticos repetem o discurso de “Deus, pátria, família”, um lema de origem fascista, que também embalou as manifestações que antecederam o golpe em 1964, com uma multidão de fanáticos pedindo a instauração da ditadura militar. Neste sentido, a história se repete.
Mas há uma luz no fim do túnel a mostrar que está mais difícil a história se repetir no sentido da volta da repressão. Diferente de 1964, quando o poder foi tomado à força, agora será decidido pela maioria do eleitorado, pelo voto livre e direto.
O número de pessoas nas ruas não representa a maioria da sociedade. Manifestações com dois ou dez milhões de pessoas são insignificantes diante de 156 milhões de eleitores aptos a votar e decidir os rumos da Nação.

