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© 2022 Amazonas Atual
Variedades

Com Fernanda Montenegro, ‘Piedade’ discute resistência social e meio ambiente

19 de junho de 2020 Variedades
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Fernanda Montenegro
Fernanda Montenegro estrela nova produção no cinema (Foto: Fábio Rocha/Gshow)

Por Clara Balbi, da Folhapress

BRASÍLIA – A princípio, ‘Piedade’, que faz pré-estreia no Espaço Itaú Play a partir deste fim de semana, não parece um filme de Cláudio Assis. Seus planos iniciais se passam num quarto de hotel asséptico, dominado por tons azulados.

É só um tempo depois que a câmera adentra um universo mais parecido com o dos longas que deram fama ao diretor pernambucano, ‘Amarelo Manga’ e ‘Baixio das Bestas’, um submundo de violência e morais ambíguas. Contra os azuis estéreis da primeira cena, são luzes vermelhas que iluminam os casais fazendo sexo em cabines enquanto Sandro, solitário dono de um cinema pornô, discute com o filho – o papel rendeu a Cauã Reymond o troféu de ator coadjuvante no Festival do Brasília passado, onde a reportagem assistiu ao filme e entrevistou diretor e elenco.

É um confronto que se alonga por todo o filme. De um lado, está o capitalismo limpinho e predatório de Aurélio, personagem descrito por seu intérprete, Matheus Nachtergaele, como “o cara que ganhou as últimas eleições”, um homem que guarda todos os afetos no armário.

Executivo de uma petrolífera, ele busca convencer os últimos habitantes de um lugarejo a aceitar a indenização oferecida pela empresa pelos danos que causou ao meio ambiente – o mar que garantia o sustento da comunidade ficou infestado de tubarões depois da construção de um estaleiro. Nesse meio tempo, se envolve com o Sandro de Reymond, protagonizando uma muita aguardada cena de sexo.

No campo oposto, estão as vítimas desse tubarão engravatado, dona Carminha e Omar Sharif, mãe e filho vividos por Fernanda Montenegro e Irandhir Santos que não arredam o pé do bar que mantêm na praia da Saudade. Eles terão seus destinos afetados quando Aurélio desenterrar a informação – atenção para o spoiler – de que Sandro é, na realidade, um filho há muito roubado da matriarca.

Se a verve política retratada no embate entre capital e tradição é conhecida de Assis, o recurso do filho perdido e depois redescoberto, típico do melodrama, pode parecer um tanto deslocado na sua filmografia. Mas “ali é tudo verdade”, contou o cineasta durante o Festival de Brasília.

A começar pela trama do roubo do bebê. Num debate no evento, Assis revelou que ela é autobiográfica -ele teve um dos irmãos sequestrados ainda bebê. Foi encontrá-lo décadas depois, quando os dois eram adultos.
A história da comunidade de Piedade também é verídica, a despeito do nome fictício do lugarejo, e faz referência aos impactos ecológicos da implantação do porto de Suape na orla do Grande Recife no final dos anos 1980, que aumentou a incidência de ataques de tubarão na região.

Uma das locações do filme, inclusive, é num bar cujo proprietário corre o risco de ser desalojado, na ilha de Tatuoca, diz o diretor. “Basta pegar um avião e ir lá para encontrar aqueles personagens”.

Na conversa, Assis afirmou que o AVC que ele sofreu no ano retrasado e que acabou por atrasar a estreia do filme tinha sido quase premonitório, já que o Festival de Brasília em que o longa foi lançado acontecia ao mesmo tempo em que o óleo manchava as praias do nordeste.

Nesse sentido, o fato de ele chegar ao público em meio à pandemia não é uma coincidência menor, já que muitos especialistas afirmam que o surto do novo coronavírus é um reflexo da degradação ambiental. A preocupação com o cinema brasileiro demonstrada por Assis na época também não ficou menos atual. Então, a Agência Nacional do Cinema, a Ancine, já enfrentava uma crise que, durante a quarentena, parece ter se complexificado ainda mais.

E até o Festival de Brasília, que Assis descreveu como um sinônimo de resistência e cujo Candango o diretor venceu três vezes, anunciou que a verba da edição deste ano foi contingenciada por causa da pandemia. Questionado sobre esses percalços, o cineasta responde que ele mesmo tem perguntado o que fazer aos colegas da indústria.

“O governo é escroto, acaba com as verbas, com as secretarias de cultura, a Petrobras não dá mais dinheiro. Não acredito que estou vendo isso de novo”, ele afirma, em referência ao governo Collor, marcado por um grande desmonte do cinema brasileiro. “É decepcionante. Mas lutamos, nascemos para lutar”.

A jornalista Clara Balbi viajou a convite do Festival de Brasília.

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Assuntos Claudio Assis, Fernanda Montenegro
Redação 19 de junho de 2020
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