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© 2022 Amazonas Atual
Fatima Guedes

Coisificação da política

6 de outubro de 2024 Fatima Guedes
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A politicagem arrasta uma herança sedimentada na lógica do mamar. Assemelha-se a uma ama de leite, a um manancial escancarado a lactentes cujos vícios ampliam a cadeia de herdeiros de mamatas.

Coisificação da Política
E haja coisas atufalhando a história (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Era final de tarde… O céu cobria-se de um cinzento enfumaçado denunciando a inquisição agronazista sobre as Terras Baixas do Amazonas.

Naquela ocasião, trios elétricos, explosivos e bandeiradas confirmavam abusos indiscriminados e descarados por disputa de poderes e domínio de recursos públicos.

O agressivo cenário totalmente ignorado pelo rebanho comandado pela politicagem impedia a concentração de alunos em sala de aula, numa escola pública de periferia. Entre desinformação e sarcasmos, a curuminzada* se rebelara e verbostejava palavrões afrontosos contra aquela prática denominada eleições municipais.

Eram vocábulos do tipo: “Que bagunça!”; “Que esculhambação!”; “Quanta sacanagem!”; “Isso é coisa de ladrão, de vadio!”. Assim, os futuros cidadãos denominavam o ato dito político; além de outras qualificações proibidas nestes rascunhos. Pode dar coisa!…

 – Que coisa!!!… Exclamara a diretora, censurando a “desordem e a falta de respeito” dos alunos.

Impressionante! A “coisa” também constava no discurso dos alunos referindo-se à prática abusiva da propaganda eleitoral: “Coisa de ladrão, de vadio!”.

De repente, a “coisa” da diretora e dos alunos prendeu nossa atenção: eram os populares coisando o discurso da “política”. Coisa?!… Qual a origem do termo e que conteúdos carrega em sua forma?!…

Naquele contexto, a coisa foi entendida como algo indefinido, desprezível, incômoda que atrapalha, confunde, agride… Seria isso?!…

Recorremos à competência linguística: “coisa” vem do latim – “o que existe ou pode existir; objeto inanimado”. Logo, inanimado é algo morto; aquilo que não tem sentido; sem alma, sem vida. No popular, segundo o Aurélio, coisa é “indisposição indeterminada; troço”.

Então, coisa é isso… E haja coisas atufalhando a história, contaminando entidades, programas de governo, política, a cidadania, a coisa pública…

O quê?!… A coisa transgredindo a coisa… Pode?!… Coisas do arco-da-velha! É muita coisa pra nossa cabeça!

O painel que nosso sistema republicano oligárquico vem produzindo como expressão política, desde sua implantação, nos permite esse entendimento, essa interpretação.

É a coisificação da política dita pública. É o que está aí: a balbúrdia, a corrupção, a violação dos princípios democráticos, a manipulação inescrupulosa sobre a massa intencionalmente analfabetizada.

Por conta dessa “coisa”, Rui Barbosa tornara-se um crítico contundente, vindo a renunciar ao cargo de senador, aos 21 de março de 1921, por sentir-se cansado, exausto, desanimado e vencido na luta em defesa da democratização do País.

E, com precisão e simplicidade vocabular, o intelectual, advogado, jornalista, diplomata, orador e escritor brasileiro, construiu a antítese – Política x Politicalha: leitura ímpar em tempos de coisificação!

 A rebeldia de Barbosa provoca discernimento coerente à compreensão e definição dos extremos que determinam nossa opção enquanto sujeitos políticos: “Política é o exercício normal das forças de um povo consciente e senhor de si mesmo. Politicalha é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciados; é a malária dos povos de moralidade estragada”.

Que coisa!!!…

Falares de Casa

*Curuminzada – De origem tupi; coletivo de meninos.


Fátima Guedesé educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS). Autora das obras literárias, Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage e Organizadora do Dicionário - Falares Cabocos.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos política, politicagem
Valmir Lima 6 de outubro de 2024
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