
Do ATUAL
MANAUS – A CNI (Confederação Nacional da Indústria) estima em US$ 1,145 bilhão a perda do Amazonas com o tarifaço de 50% imposto pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros. Esse índice será cobrado a partir do dia 6 de agosto.
Conforme a CNI, os produtos fabricados no estado mais afetados são motocicletas, óleos leves e preparações, máquinas e aparelhos de escritório, rodas dentadas, óleos de petróleo, e madeira.
A própria entidade, porém, admite que a importância dos EUA para o Amazonas em termos de comércio é mínima e que errou no cálculo do valor. As perdas previstas são de apenas US$ 1,145 milhão. As vendas do Estado para o país norte-americano representam apenas 10,3%. As importações, no entanto, alcançam 96,6% em insumos para a indústria.
É na importação que o Polo Industrial de Manaus pode ser atingido com aumento do dólar.
“Não temos volume expressivo de exportações para os Estados Unidos, portanto, não há por que afetar tanto o PIB (Produto Interno Bruto) do Amazonas. O jogo em curso não é puramente econômico, é geopolítico e geoeconômico”, afirma Augusto Cesar Barreto, doutor em Engenharia de Transportes e especialista em logística.
Segundo o estudo da CNI, em 2024 o Amazonas atingiu US$ 99,8 milhões em vendas aos Estados Unidos, o que corresponde a 10,3 % das exportações estaduais totais.
“Percebemos forte dependência de importações, não de vendas externas. O estado comprou dos Estados Unidos quase 15 vezes mais do que exportou: US$ 1,467 bilhão, 96,6 % em insumos industriais. Logo, um cenário centrado em tarifa dos Estados Unidos sobre bens brasileiros não atinge o Amazonas pelo canal tradicional, isto é, pela queda nas vendas, mas sim, se ocorrer, pelo custo das importações. Essa nuance não fica clara no texto do estudo da CNI”, diz Augusto Barreto.

Ainda segundo o levantamento, entre os principais produtos importados dos Estados Unidos para o Amazonas estão: copolímeros de etileno (17,2%), polietileno de densidade (0,94 (14,8%), outros óleos de petróleo ou de minerais betuminosos (11,9%), polietileno de densidade (10,8%) e estireno (7,5%).
O copolímero de etileno é usado em revestimentos automotivos e eletrônicos, em embalagens flexíveis, isolamento de fios e cabos. O estireno é usado principalmente na produção de plásticos e borrachas.
“Os principais itens importados têm oferta abundante em países sem tarifa recíproca. A hipótese implícita de ‘ausência de substitutos’ maximiza a queda de produção e inflação de custos, mas a experiência recente da Zona Franca de Manaus mostra cadeias ágeis em ‘switching’ de fornecedores (trocas de abastecedores)”, complementa Barreto.
De acordo com o especialista, quase 28 % das vendas aos Estados Unidos estão concentradas em motocicletas, mas os destinos principais desse produto são a América do Sul e mercados internos.
“Mesmo que a tarifa de 50 % vigorasse, a firma líder da ZFM (Honda) poderia redirecionar volumes, reduzindo o impacto estimado. A indústria local opera sob incentivos fiscais (IPI, PIS/Cofins, ICMS) que amortecem a alta de tarifas sobre insumos importados e permitem rapidamente trocar fornecedores para Ásia ou Mercosul. Para concluir, temos um conjunto robusto de argumentos para contestar o diagnóstico de que o Amazonas sofreria uma expressiva contração percentual.”, explica Augusto Barreto e acrescenta: “Há discrepância entre valor exportado e queda projetada e incoerências internas nos números do levantamento”.
A Sedecti (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação) também contesta os dados da CNI. Segundo a Sedecti, apenas 1,5% do faturamento do Amazonas corresponde a exportações, e menos de 10% desse montante tem os EUA como destino, o que representa 0,15% do faturamento total do Polo Industrial de Manaus.
A maior parte da produção do Amazonas destina-se ao mercado interno brasileiro, o que reduz significativamente o impacto da medida anunciada.

