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Variedades

Clarice Herzog faz 80 anos e é homenageada por luta contra a ditadura

25 de junho de 2021 Variedades
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Clarice Herzog era casada com Vladmir Herzog quando ele foi encontrado morto em 1985 (Foto: Reprodução/ Instagram)
Por Anna Virginia Balloussier, da Folhapress

SÃO PAULO – “A música é sua, é para você, foi feita para você”, Clarice Herzog ouviu de um amigo assim que saiu “O Bêbado e a Equilibrista”, que narra quando, na “nossa pátria mãe gentil”, choraram “Marias e Clarices no solo do Brasil”. Era para ela mesmo. Famosa na voz de Elis Regina, a composição de João Bosco e Aldir Blanc virou um marco da luta por direitos humanos no país. E não dá para contar essa história sem falar de um pranto que levou Clarice a peitar a ditadura militar após seu marido ser assassinado pelos militares.

“Sr. Vladimir [sic] Herzog. Aos 38 anos de idade. Deixa viúva a sra. Clarice Herzog e dois filhos: Ivo, de 9 anos, e André, de 7 anos. Seu corpo está sendo velado no hospital Albert Einstein, no Morumbi, de onde o féretro sairá hoje, às 10 horas, para o Cemitério Israelita do Butantã.”

Foi assim, com uma nota seca na seção de obituários, no dia 27 de outubro de 1975, que o nome de Clarice apareceu pela primeira vez no jornal Folha de S.Paulo. As menções seguintes vinham associadas a uma mulher que se recusava a aceitar a versão oficial para a morte do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado. O regime militar divulgou uma cena forjada para sustentar que ele, membro do Partido Comunista Brasileiro que foi depor no Doi-Codi, havia se enforcado com um cinto do macacão de presidiário. A esposa nunca comprou essa versão.

Vlado, que faria 84 anos neste domingo (27), e Clarice, que vira octogenária no dia 1º de julho, norteiam a campanha Duas Vidas, Uma Só Luta, lançada para celebrar os 12 anos do instituto que leva o nome dele.
Clarice chorou, e não foi pouco. “Eu lembro que o Vlado estava indo lá no negócio [no caixão], o menor, o André, falou: ‘Mãe, você tem certeza que o meu pai está aí?’. Aí eu falei: ‘Tenho. Infelizmente está'”, ela lembrou em depoimento ao Museu da Pessoa.

Continuou: “E eu estava chorando, chorando. E ele [dom Paulo Evaristo Arns]: ‘Acalma, acalma’. Aí tinha o Dom Hélder [Câmara], […] lembro dele pequeninho dizendo: ‘Paulo, deixa, ela tem que pôr essa raiva para fora'”. Aquele ato, segundo Clarice, “foi uma beleza”. A cerimônia ecumênica que homenageou Vlado é até hoje um dos símbolos da resistência à ditadura. Liderada por um católico (dom Paulo), um evangélico (reverendo Jaime Nelson Wright) e um judeu (rabino Henry Sobel), juntou milhares de pessoas na praça da Sé.

Sobel, à época, recusou-se a enterrar Herzog, que era judeu, junto aos muros do cemitério -ala reservada a suicidas, segundo tradição judaica. Recado dado: o rabino não acreditava na balela militar sobre o jornalista ter se matado. Vlado e Clarice se conheceram na USP. Ela, estudante de sociologia, vendia livros. Ele, um veterano do curso de filosofia, puxou papo. Casaram-se em 1964, semanas antes do golpe, e passaram quatro anos em Londres antes de voltar para o Brasil em 1968, antes do AI-5, o ato institucional mais duro do período.

“A imagem dela é a de uma pessoa com um livro na mão”, conta o filho Ivo. “Ela tem um sítio lá em Bragança Paulista [SP], sentava lá no solzinho pra ficar devorando livros.” Foi nesta casa no campo que Clarice pensou em se refugiar quando o casal soube que o nome de Herzog havia sido citado para os fardados em interrogatórios. Não deu tempo.

Em 1985, o jornal Folha de S.Paulo entrevistou Ivo e André para uma reportagem intitulada “Após 10 anos, filhos lembram morte de Vlado”. O texto começa narrando que eles ficaram “muito chateados” quando, na noite do assassinato, foram com a mãe na TV Cultura (onde o jornalista trabalhava) para buscar o pai, mas ele não estava lá.

“Ivo prestou atenção ‘nuns homens estranhos’, que andavam pela televisão, e pressentiu algo ruim. André, com 7 anos, em minutos se esqueceu da frustração.” A família tinha combinado de ir pescar no sítio.
Uma década depois, os dois recordaram dos “sonhos com um mundo melhor e no gosto pela política” do pai. Desde 1977, Clarice está com Gunnar Carioba, publicitário como ela. Socióloga de formação, ela trabalha na área desde o fim dos anos 1960.

“Quando meu pai morreu ela pôs na cabeça que a perda não poderia impactar nas oportunidades que eu e meu irmão teríamos no futuro. Queria trabalhar e ganhar dinheiro, se transformou numa workaholic, uma profissional de muito destaque no segmento em que atuava [pesquisas qualitativas]”, diz Ivo. “Parou de trabalhar tem três, quatro anos.”

Ivo conta que sua mãe “já tinha consciência política importante” antes de 1964, porque um tio querido materno foi assassinado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. “Ela já era plugada.” E assim continuou. Um documentário sobre Clarice, que será exibido nas redes sociais do Instituto Vladimir Herzog na noite do seu aniversário de 80 anos, terá depoimento de personalidades como os ex-presidentes Lula (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

FHC foi seu professor de sociologia na USP e chegou a visitar a família Herzog em Londres. Clarice tem simpatia por tucanos e, em 2018, declarou voto no ex-governador paulista Geraldo Alckmin. Segundo Ivo, já ajudou campanhas de candidatos do PT também. Em 2018, contudo, quando declarou à Folha de S.Paulo sua preferência por Alckmin, disse o seguinte sobre sua posição política e o partido de Lula.

Como se classifica politicamente? Sou de esquerda. Vota no PT? Não, sou contra o PT. Depois de tantos escândalos, não dá mais. No segundo turno, contudo, a publicitária preferiu o petista Fernando Haddad a anular o voto ou escolher Jair Bolsonaro.

Na mesma entrevista, Clarice reagiu a uma fala do então presidenciável Bolsonaro sobre seu marido. Questionado sobre o caso Herzog, ele afirmou que “não estava lá” para confirmar que ele foi morto pelo regime e que “suicídio acontece, pessoal pratica”. ”Espero que perca seus eleitores durante a campanha. É um horror esse homem”, desejou a viúva.

Clarice nunca desistiu de pedir justiça por Vlado, mas “está se poupando de relembrar” as memórias doloridas, diz Ivo. Daí não recontar sua história. “Já encheu o copinho.” Ao Museu da Pessoa, anos atrás, recordou o gosto do marido por soltar a voz. “Ele cantava, sabe, cantava óperas em tons diferentes, então gente viajava, eu dirigia, ele não dirigia, e ele sempre ia cantando no caminho, cantando.” Foi calado em 1975.

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Assuntos Clarice Herzog, ditadura militar no Brasil, Wladimir Herzog
Redação 25 de junho de 2021
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