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Variedades

Cineasta Manoel de Oliveira morre aos 106 anos

2 de abril de 2015 Variedades
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O diretor de cinema português Manoel de Oliveira faleceu nesta quinta-feira, 2, aos 106 anos (Divulgação)

 

SÃO PAULO – O diretor de cinema português Manoel de Oliveira faleceu nesta quinta-feira, 2, aos 106 anos. A informação foi confirmada pela produtora com a qual realizou seus últimos trabalhos. Oliveira é considerado o diretor há mais tempo na carreira. Ele fez cerca de 60 filmes. O último foi O Velho do Restelo.

Manoel de Oliveira nasceu no Porto em 11 de dezembro de 1908. Atores como Catherine Deneuve, John Malkovich e Marcello Mastroianni trabalharam com o diretor. Considerado um cineasta cult na Europa e no Brasil, ele recebeu um Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1985 e uma Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2008. Nos últimos anos, Manoel superou problemas de saúde, entre eles insuficiência cardíaca.

Histórias sobre a longevidade de Manoel de Oliveira tornaram-se lendárias e reforçaram o mito do autor português. Em São Paulo, como convidado da Mostra de Cinema e beirando os 100 anos, Oliveira explicou seu rompimento com o produtor Paulo Branco dizendo que tinha de pensar no futuro (e Branco não estava dando conta de administrar seus muitos projetos). Ele convidou um ator de teatro português para um filme, o cara lamentou, disse que estava com a agenda lotada, mas Oliveira o tranquilizou, acrescentado que era para seu filme de 2014.

“Meu avô pensa que é imortal, e se deprime quando se dá de que não conseguirá fazer as dezenas de filmes que ainda tem planejados”, disse há um par de anos, aqui mesmo em São Paulo, e na Mostra, seu neto Ricardo Trepa.

Manoel Cândido Pinto de Oliveira (seu nome completo) nasceu no Porto, em 1908, no seio de uma família da alta burguesia nortenha, com origens na pequena fidalguia. O pai foi industrial e o primeiro fabricante de lâmpadas de Portugal. Muito jovem, frequentou os jesuítas, mas era o primeiro a admitir que foi mau aluno. Preferia o atletismo, e foi campeão nacional de salto com vara. Foi também piloto de automobilismo. A prática esportiva, somada à boa constituição, talvez explique a saúde de ferro que lhe permitiu viver mais de um século. Mas ele foi também um boêmio e um belo homem, quando jovem.

Não resistia a um rabo de saia e ganhou fama de sedutor, o que permaneceu – até o fim da vida, nunca deixou de ser galante com as mulheres. Elas o amavam, as suas estrelas – Leonor Silveira, Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni.

Aos 20 anos, frequentou a escola de atores de Rino Lupo, cineasta italiano que se havia radicado no Porto e foi um dos pioneiros do cinema português. Por meio dele, conheceu a obra do vanguardista alemão Walter Ruttman. Berlim, Sinfonia de Uma Cidade impressionou-o tanto que ele teve a ideia de fazer, em 1931, Douro, Faina Fluvial. A crítica portuguesa detestou, a estrangeira gostou – e muito. Oliveira foi fazer sua formação técnica nos estúdios da Kodak, na Alemanha. De volta, participou como ator, do segundo filme sonoro português – A Canção de Lisboa, mas confessou, mais tarde, não ter nenhuma atração por aquele tipo de cinema popular.

O cinema se tornaria uma atividade bissexta. Em 1942, estreou na ficção com Aniki-Bobó, um terno retrato da infância no cru ambiente neorrealista da Ribeira do Porto. O fracasso de público levou-o a se dedicar aos negócios da família e só em 1956 – 14 anos mais tarde – ele assina outro filme, O Pintor e a Cidade. Novo fracasso – de público. Em 1963, O Ato da Primavera marca uma revolução no seu percurso – Oliveira inicia em Portugal a prática do quer os críticos definem como a antropologia visual no cinema. O Ato é um documentário encenado. Seguiu-se A Caça, uma ficção, inversamente, realizada como documentário. O filme teve problemas com a censura salazarista. Uma cena foi suprimida e, por conta do que pareceu a provocação de um diálogo, Oliveira foi preso na PIDE, a polícia secreta da ditadura portuguesa.

Só a partir de O Passado e o Presente de 1971, a carreira cinematográfica torna-se regular e, assim mesmo, ainda se passarão alguns anos (e alguns grandes filmes, como Amor de Perdição, Francisca, Nice – A Propos de Jean Vigo, Le Soulier de Satan e Os Canibais), antes que Oliveira, a partir de Non ou a Vã Glória de Mandar, de 1991, realize um filme por ano, todos os anos. É a fase da consagração internacional. A crítica francesa cai de amores de Oliveira e Cahiers du Cinéma o elege um de seus favoritos. Leon Cakoff, na Mostra de São Paulo, traz os filmes e o próprio diretor, que se torna uma figura conhecida (e querida) dos cinéfilos paulistanos.

Cinema de autor

Ao rejeitar o cinema dito popular, Oliveira fez sua opção pelo cinema de autor. Sua base é literária (O Dia do Desespero, sobre Camilo Castelo Branco; Vale Abraão, uma parceria com a escritora Agustina Bessa-Luís sugerida pela Madame Bovary de Gustave Flaubert; Palavra e Utopia, inspirado no Padre Vieira), mas se há uma coisa que caracteriza seu cinema é a invenção. Vou para Casa oferece a Michel Piccoli a chance de ter uma das maiores atuações do cinema, na pele de um velho ator shakespeariano. Cinema Falado tem a mais simples e a mais genial ideia que jamais ocorreu a um autor – num cruzeiro marítimo, o capitão convida meia dúzia de passageiras à sua mesa e o grupo se entende falando cada um(a) em sua língua: inglês, francês, português, grego etc.

Em 2008, o ‘cher Manoel’ recebeu das mãos de Gilles Jacob uma Palma de Ouro especial por sua carreira. Honrarias nunca lhe faltaram, e ele foi condecorado pelo presidente de Portugal e também recebeu o recebeu o doutoramento honoris causa pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

 

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Valmir Lima 2 de abril de 2015
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