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Dia a Dia

Cidade vizinha à explosão de suposto míssil russo é esvaziada

13 de agosto de 2019 Dia a Dia
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Míssil tem a propulsão de energia de um pequeno reator nuclear (Foto: Divulgação)
Por Igor Gielow, da Folhapress

SÃO PAULO, SP – A novela de segredos envolvendo a explosão de um suposto novo míssil nuclear russo ganhou novo episódio nesta terça, 13, com o anúncio de que os moradores de uma cidade próxima ao ponto do acidente serão retirados de suas casas temporariamente.

Segundo a agência Interfax, o governo russo pediu que os cerca de 2.000 habitantes de Nionoksa, perto do Ártico russo, saiam de casa enquanto é feita um trabalho de varredura dos efeitos da explosão da quinta, 8, numa plataforma oceânica próxima dali.

O acidente matou cinco pessoas e feriu outras três. Inicialmente, o Ministério da Defesa russo disse que se tratava da explosão de combustível líquido de um motor de foguete, mas quando a Rosatom (agência nuclear do país) admitiu que os mortos eram seus funcionários, o alarme mundial tocou.

O referencial de transparência local ainda é o acidente nuclear de Tchernóbil, cidade ucraniana na então União Soviética, em 1986. A imprensa, russa e ocidental, passou a questionar a demora do Kremlin e divulgar informações.

Os temores ganharam densidade quando a própria Rosatom informou ao site Fontanka que a explosão envolvera uma bateria nuclear compacta e a agência meteorológica russa confirmou que houve um pico de radiação, de 4 a 16 vezes maior do que o normal, durante 90 minutos após a explosão.

Técnicos afirmam, contudo, que não houve risco para a população da cidadezinha, que tem acesso restrito dadas as instalações militares no local. Medições feitas na sequência descartaram contaminação radioativa. O centro urbano mais próximo é Severodvinsk, que tem 190 mil habitantes a 40 km dali.

Se tudo indica que não estamos diante de uma nova Tchernóbil, o caso lançou luz não apenas na demora do Kremlin em admitir problemas na sensível área nuclear, como o acidente com um submarino havia demonstrado há poucas semanas, mas também sobre um de seus mais audaciosos programas militares.

Ninguém em Moscou irá confirmar oficialmente, mas analistas militares russos e ocidentais estão convencidos de que o acidente ocorreu numa plataforma de teste do míssil de cruzeiro Burevestnik, uma das novas “armas invencíveis” anunciadas com pompa pelo presidente Vladimir Putin em março do ano passado.

O míssil tem uma característica única, que é a propulsão com energia de um pequeno reator nuclear. Ao longo da Guerra Fria entre soviéticos e americanos, ambos os lados buscaram algo do gênero, para desistir pela impraticabilidade. A Rússia diz ter testado o sistema com sucesso em janeiro.

Especialistas ocidentais são mais céticos. A Federação Americana de Cientistas especula que a arma enfrenta uma série de fracassos em lançamentos, o que teria uma consequência ambiental óbvia -por isso ela estaria sendo testada a partir de uma plataforma no mar, o que reduz eventual impacto radioativo.

Seja como for, o presidente Donald Trump apressou-se a ir ao Twitter para dizer que não só sabia que a explosão envolvia o míssil como se gabou que os americanos teriam algo melhor em mãos.
É possível, mas há também consenso de que o investimento de Washington nos últimos ano se deu mais em armas defensivas, enquanto Moscou apostou em mísseis que possam ultrapassá-las.

O Burevestnik (nome russo para a ave marinha petrel) teria, na propaganda do Kremlin, capacidade ilimitada de voo devido ao reator nuclear. Combinaria isso com as características comuns de mísseis de cruzeiro: voar a velocidades subsônicas, baixa altitude, acompanhando o terreno e desviando do radar inimigo.

Nesta terça, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que o programa de mísseis está correndo normalmente, sem falar sobre o acidente diretamente.

De fato, o míssil hipersônico lançado do ar Kinjal já está operacional no Distrito Militar Sul da Rússia, e os testes com o intercontinental Sarmat, o planador hipersônico Avangard e o drone nuclear submarino Poseidon parecem em ordem, segundo observadores.

Todo esse desenvolvimento se dá no contexto perigoso da nova corrida armamentista mundial. Em 2018, Trump lançou sua revisão de política nuclear, facilitando na prática o uso de ogivas atômicas de menor potência -a versão russa de 2009 ia em caminho semelhante, mas não tão explícito.

Neste ano, os EUA deixaram um dos principais acordos que encerraram a Guerra Fria, o que limitava a instalação de mísseis de alcance intermediário na Europa. Se era obsoleto na prática, na retórica isso permitiu uma adoção do vale-tudo que ambos os lados já anunciaram.

No ano que vem, deve ser negociada a renovação ou não o grande acordo de limitação de ogivas nucleares de lado a lado, o New Start. Pelos discursos até aqui adotados, parece difícil que ele seja renovado nas mesmas bases: manter Rússia (1.600 bombas ativas) e EUA (1.750) com estoques controlados, além de números específicos de bombardeiros e veículos lançadores.

Pode-se acusar Putin de militarismo, mas numa coisa ele está certo: desde que os EUA promoveram seus sistemas antimísseis no fim dos anos 2000, ele avisou que iria investir em novas armas mais potentes e que o mundo ficaria um lugar mais perigoso com uma renovada disputa entre as potências nucleares.

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Assuntos míssil russo, Rússia
Redação 13 de agosto de 2019
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