A psicologia identificou há alguns anos mais um transtorno de comportamento que se soma aos vários outros existentes: a nomofobia. A palavra surgiu da expressão inglesa no-mobile, que quer dizer sem comunicação móvel, em outras palavras sem celular. Desta forma a nomofobia é caracterizada pela sensação de angústia que o indivíduo sente por não conseguir se comunicar através de aparelhos como: tablets e smartphones.
Dois fatores contribuíram para isso: o barateamento dos smatphones (celulares que acessam a internet) e a expansão de conectividade que temos vivido nos últimos dez anos. Antes as pessoas entravam na internet, hoje elas permanecem conectadas 24 horas através de seus celulares. No Brasil, segundo a ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações), já são 280 milhões de aparelhos.
É claro que esta dependência tem implicações nas relações: de trabalho, pessoais e, principalmente, na educação. Nas escolas de educação básica essa é uma questão que chama atenção de professores e gestores escolares. Em casa a preocupação dos pais também é crescente ante a dependência do celular que se observa nos filhos.
Esta semana a universidade de Cambridge divulgou um estudo feito com 845 alunos ingleses de ensino médio. A pesquisa avaliou o impacto do tempo de utilização do celular no rendimento escolar desses alunos, fazendo uma relação entre número de horas de utilização e desempenho nas avaliações.
Apesar de outros estudos com esse tema já existirem, este traz a quantificação exata do tempo limite de utilização a partir do qual se começa a ter perdas consideráveis no rendimento escolar: quatro horas diárias. A partir daí quanto maior o tempo de utilização: cinco, seis, sete horas por dia, pior se tornam os resultados na escola principalmente por conta da dificuldade de concentração.
Vale ressaltar que o prejuízo pode ser ainda maior se o tempo de utilização for no horário das aulas, ou seja, se o aluno fizer uso do celular em sala de aula. Apesar de existirem leis estaduais que proíbem a utilização do celular durante as aulas o que se percebe é que isto é pouco respeitado.
Apesar de a pesquisa britânica ter analisado o impacto sobre os alunos de ensino médio, engana-se quem acha que nas universidades o comportamento é diferente, as queixas de professores do ensino superior sobre este assunto vêm até mesmo dos cursos de pós-graduação, evidenciando assim que este é um problema ainda maior do que se pode supor.
Um caminho possível
Há quem defenda a liberação do uso dos celulares em sala de aula, contudo, em uma outra pesquisa realizada pela Fundação Nacional de Ciência da Universidade do Estado de Michigan (EUA) 500 alunos que adotaram esta prática foram avaliados, os pesquisadores concluíram que mesmo os melhores alunos saem prejudicados se o aparelho for usado em aula sem uma finalidade acadêmica específica e bem planejada.
Aí pode estar a chave para uma solução conciliadora: a liberação do uso dos smartphones com finalidade acadêmica que passe por um criterioso planejamento. Neste sentido, muitas são as possibilidades: usar o GPS no ensino de geografia e física, usar corretores online no ensino de língua portuguesa, utilizar a câmera fotográfica para trabalhos de arte. Sem contar nos inúmeros aplicativos que hoje existem principalmente na preparação para o ENEM.
Antes de tudo, é necessário que a escola se aproprie dos recursos que esses aparelhos oferecem para que dentro de um planejamento consigam dar uma finalidade pedagógica para sua utilização em sala de aula.
Apenas proibir é perca de tempo, pois além de consumir muita energia e um tempo precioso, acaba afastando a escola da realidade dos alunos. Deve-se adotar o entendimento de que é na escola que se deve aprender o uso racional e produtivo desta tecnologia, que concordemos ou não já se inseriu ao nosso cotidiano.
George Castro é supervisor do Pacto Nacional pelo Fortalecimen to do Ensino Médio;
diretor executivo da Macedo de Castro consultoria educacional; ex‐professor da Universidade
Federal do Pará e ex‐diretor do ensino médio e educação profissional do estado do Pará.
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