
Nos últimos dias, o país todo tem se comovido com o drama envolvendo a capivara Filó, o influenciador digital Agenor Tupinambá e o Ibama. O influencer foi acusado de maus tratos e de lucrar na internet com a exploração da imagem do animal silvestre. Incansavelmente, o assunto está sendo debatido há dias nas redes sociais, nos bares e restaurantes, nos encontros de famílias, nas Casas Legislativas e, até, mesmo nas igrejas.
De fato, o assunto chama a atenção. Nunca antes no Amazonas houve um caso de questões ambientais com tamanha repercussão no meio popular. Talvez por estarem envolvidos personagens bastantes conhecidos no meio digital, como é o caso da Filó e do Agenor. Portanto, faz todo o sentido a preocupação das pessoas.
Esse caso, que repercute há semanas, está envolvendo muitos esforços, dedicação e recursos públicos. Como ainda apoio da população brasileira, que contribuiu financeiramente, por meio de “vaquinha eletrônica”, para conseguir o valor da multa que o influencer foi obrigado a pagar. Até ativistas nacionais, conhecidos mundialmente, envolveram-se no caso para ajudar a resolver o problema.
O assunto é polêmico e difícil de se resolver, pois não é somente uma lei que precisa ser cumprida. Há sentimentos e preocupações envolvidas na história. De um lado, existe uma relação bonita de se ver entre um ser humano e um animal silvestre, que já se tornou de estimação devido ao tempo e ao sentimento desenvolvido durante a convivência. Do outro, tem a legislação brasileira, criada para proteger e garantir o direito natural dos animais, papel desenvolvido pela função do Ibama.
Entendo que faz parte da cultura do povo amazonense criar animais silvestres como se fossem bichinhos de estimação, assim como cães e gatos. Talvez, nesse caso, tenha um certo exagero do Ibama, que poderia apenas ter notificado e fiscalizado, sem grandes publicidades e multa milionária. Mas compreendo também que o órgão precisa se manter firme no cumprimento da Lei, caso contrário, ferirá o direito dos animais, podendo abrir precedentes para facilitação do tráfico de animais. Além de prejudicar o ecossistema, com graves riscos de extinção da espécie e de graves doenças para o ser humano. E não se pode negar o esforço que o Ibama tem feito para proteger nossos animais silvestres.
O fato é que, enquanto há toda uma mobilização e dedicação em torno desse caso, dados do Unicef publicados este ano mostram que no Amazonas cerca de 88% das crianças e adolescentes vivem na pobreza e suas múltiplas dimensões: moradia em áreas de risco e insalubre; escolas com condições precárias; sem alimentação adequada e suficiente; falta de saneamento básico, mais especificamente água, e, até mesmo, exploração do trabalho infantil. E nos últimos cinco anos, aumentou o percentual de crianças e adolescentes vivendo em famílias abaixo da linha da pobreza. A pesquisa foi realizada com dados de 2019 a 2022.
Esse debate também tirou de cena a grande preocupação com a segurança das crianças em nossas escolas, latente no dia a dia das famílias. E no mundo digital, há uma enorme preocupação envolvendo os pequenos, assunto que merece atenção e debate com a sociedade.
Como vemos, existem preocupações muito mais sérias e importantes que precisam ser tratadas, mas acabam ficando de lado. É urgente priorizar políticas públicas voltadas para defender o direito das crianças e dos adolescentes. Em Manaus, falta Secretaria da Infância e Adolescência, como já tivemos no passado.
Parece que muita gente quer ter notoriedade com o rapaz que cria uma capivara. É uma discussão que não muda nada, não melhora em nada. Mas os problemas que envolvem as crianças e os adolescentes, se debatidos com seriedade e buscando soluções definitivas, trarão muitos impactos positivos na vida dessas famílias e da população do Amazonas.
Ao que tudo indica, a Filó já foi devolvida ao Agenor. Talvez seja mesmo a melhor coisa a ser feita, uma vez que ela já estava acostumada a essa forma de viver, e retornar ao seu hábitat natural poderá causar danos ao animal. O lado bom de todo esse processo é que a população está se envolvendo, engajando-se em torno do seu interesse.
Que possamos também colocar em pauta outros assuntos e que os problemas que hoje ainda atingem as crianças e os adolescentes do nosso Estado também tenham a mesma notoriedade e preocupação para que sejam definitivamente solucionados.
José Ricardo Wendling é formado em Economia e em Direito. Pós-graduado em Gerência Financeira Empresarial e em Metodologia de Ensino Superior. Atuou como consultor econômico e professor universitário. Foi vereador de Manaus (2005 a 2010), deputado estadual (2011 a 2018) e deputado federal (2019 a 2022). Atualmente está concluindo mestrado em Estado, Governo e Políticas Públicas, pela escola Latina-Americana de Ciências Sociais.
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