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Variedades

Caixa repassa a carreira de Rita Lee pós-Mutantes

23 de dezembro de 2015 Variedades
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ritaleecaixaalta
Quarenta anos se passaram desde que Fruto Proibido foi lançado. Um álbum rosa com a imagem de Rita na capa, cheia das certezas de tudo o que queria e do que já não queria mais em seus 28 anos de idade (Foto: Divulgação)

SÃO PAULO – Num tempo não muito distante, o prazer de se fazer música era maior do que a ambição de se fazer dinheiro com música. Os guitarristas criavam solos em sonho, os bateristas ensaiavam batucando em cadeiras e os baixistas também faziam canções. Os ensaios eram explosões criativas que começavam às 11h e terminavam às 18h, todos os dias, até que cada nota estivesse no lugar. E as gravações, sem máquinas de afinar voz, só valiam se o fã pudesse ver cada músico tocando na sala de casa assim que colocasse o LP para girar. Quando as terras se abriram deixando a era progressiva dos Mutantes para trás e o tempo da música pop pela frente, Rita Lee viveu os dias em que mais conseguiu ser ela mesma.

Quarenta anos se passaram desde que Fruto Proibido foi lançado. Um álbum rosa com a imagem de Rita na capa, cheia das certezas de tudo o que queria e do que já não queria mais em seus 28 anos de idade. A verdade avassaladora de nove músicas, construídas com as letras libertárias de Rita e as bases da banda Tutti Frutti com as quais o guitarrista Luiz Carlini traduzia para o português a energia que o mundo conhecera com Stones, Hendrix e Deep Purple, o tornaria imediatamente um clássico. Assim que o LP foi lançado, as canções pareciam sair se atropelando: “Dançar Pra Não Dançar”, “Agora Só Falta Você”, “Esse Tal de Roque Enrow”, “O Toque”, “Cartão Postal”, “Ovelha Negra”. Apenas uma delas e a existência de qualquer álbum estaria justificada. Eleito por listas de melhores discos, “Fruto Proibido” vendeu 700 mil cópias e se tornou um ponto na linha do tempo.

O álbum está em uma caixa de luxo que traz 21 discos de Rita, começando com “Build Up”, de 1970, seu primeiro solo, produzido pelo mutante Arnaldo Baptista, e fechando com “Rita Lee Ao Vivo” de 2004, da fase das produções com o marido guitarrista Roberto de Carvalho. O sobrevoo é interessante por narrar a transição de Rita desde a sua saída dos tropicalistas Mutantes até a chegada do conceito pop de harmonia bossa-novista de Roberto de Carvalho que a desacorrenta dos padrões clássicos do rock and roll e amplia seu universo, fazendo um movimento maior em direção às paradas de rádio. A cisão cria, pela primeira vez na música brasileira, três bases de fãs independentes para uma mesma artista: amantes dos Mutantes (anos 60), seguidores do Tutti Frutti (anos 70) e apaixonados por Rita e Roberto de Carvalho (anos 80 em diante).

Aos 67 anos, Rita não fala com jornalistas. A reportagem a procurou por dias, enviou perguntas, insistiu com assessores, mas não obteve resposta. Aos mais próximos, ela diz estar cansada de revirar memórias, brinca ou não quando fala algo parecido com “aquela Rita dos palcos não existe mais” e faz entender o quanto tem prazer em não ter mais que viver cumprindo a desgastante agenda dos artistas. Rita Lee teria toda a paz do mundo se não fosse um detalhe: ao escrever capítulos da música brasileira, sua história deixou de ser apenas sua. A diferença é que, sem ela, quem conta são os outros.

E os outros não são poucos. Luiz Sérgio Carlini é um dos guitarristas mais respeitados. Amigo de infância e de Pompeia dos irmãos mutantes Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, já tinha a alma de Keith Richard e os dedos de Johnny Wynter quando Rita surgiu carente de nova banda. Desde que assistiu “por 80 vezes” ao documentário “Woodstock”, de 1970, e conheceu os baús dos roqueiros Ló e Eddy Teddy, na Casa Verde, soube exatamente o que queria fazer. As letras de Rita garantiriam profundidade aos seus riffs e seus riffs fariam Rita passear sobre uma locomotiva. “Rita sai dos Mutantes, que vão cair no Yes, e vem para o nosso universo, mais Stones. Vivíamos a ditadura, sua poética estava bombando. O que fazíamos era música, não business”, lembra.

Mais do que dividir com Rita a criação de “Agora Só Falta Você”, um solo de poucas notas seria a lição que Fruto ensinaria. Pois lá estavam todos em mais uma tarde de gravação, plugados nos 16 canais do Estúdio Eldorado, em São Paulo, quando o garoto chegou transpirando. “Eu tive uma ideia.” A música “Ovelha Negra” estava pronta, terminava perdendo volume no final até sumir, e ninguém pensava em mexer em time vencedor. Ninguém, a não ser Carlini. “Eu sonhei com aquele solo”. Ele sonhou com o solo, mas seus amigos, não. “Deixa isso, Carlini”. Ele insistiu por dois dias até que, no terceiro, o produtor, Andy Mills, resolveu lhe dar ouvidos. “Mostre.” Carlini desceu na sala de gravação, ligou a guitarra e colocou nota por nota, com doçura. Quando terminou, já era um gigante. Seu solo entraria como um dos mais marcantes do rock brasileiro. “Aprendi que solo deve ser uma nova música dentro da canção.”

O amigo de Carlini era Lee Marcucci, baixista com ele na anterior Lisergia. “O nome é inspirado nos ácidos que a gente tomava”, lembra Carlini. “A TV ainda era em preto e branco, mas eu já a via em cores”, diz, rindo. Eram tempos sem tecnologia nem equipamentos razoáveis, de se “abrir caminho na Amazônia usando um cortador de unhas”. “E, ainda assim, ninguém se preocupava. A gente só fazia o que gostava”, diz Marcucci. O dia em que todos se reuniram na casa de Rita pela primeira vez, indicados pela amiga da roqueira, Lucia Turnbull, é um capítulo do filme. “Chegamos e lá estavam Rita e sua empresária, Mônica Lisboa. Ficamos na garagem e mostramos a elas coisas que tocávamos no Lisergia.” Estavam contratados.

“Fruto Proibido” foi o terceiro disco gravado entre Rita e Tutti Frutti. O anterior havia sido “Atrás do Porto Tem Uma Cidade” (1974) e, o primeiro, de 1973, não foi lançado oficialmente porque o presidente da gravadora Philips, André Midani, não gostou do material. “As Cilibrinas do Éden”, com Rita e a amiga Turnbull à frente, sairia de forma pirata e seria mais tarde o pivô da saída de Rita da gravadora Philips, em direção à Som Livre. “Deixei Rita escapar pelo simples motivo de que ela não quis mais trabalhar comigo. Os motivos são diversos, mas certamente o elemento deflagrador foi minha recusa em colocar no mercado o LP que, na minha opinião, iria trazer um prejuízo grande para seu novo caminho de artista solo. Ela ficou furiosa comigo.”

A bateria livre de “Fruto”, de viradas vigorosas, é de Franklin Paulillo. “Íamos para a casa de Rita fazer arranjos com violões enquanto eu ficava batucando em uma cadeira de palha.” Sua história com o Tutti Frutti durou um disco. Alegando comportamento incompatível, prejudicado por doses de álcool, a banda o demitiu. “Fiquei muito chateado, mas eu era mesmo um cara difícil.” Sem beber há 16 anos, ele não se esquece de um sonho que teve em 1988. “O Tutti Frutti tocava de novo, em um grande palco, com todo mundo.” Ao contar para Carlini cheio de esperanças, sentiu primeiro o silêncio do parceiro e ouviu depois o golpe de misericórdia: “É sonho Franklin, apenas sonho”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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Assuntos musica, Rita Lee, rock
Valmir Lima 23 de dezembro de 2015
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