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Saúde

Cães em abrigos são mais infectados por parasitas das leishmanioses

23 de maio de 2022 Saúde
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caes abrigo
Entre os animais que moram em abrigos, o percentual foi de 33,6% de infectados (Foto: Fiocruz Minas/Divulgação)
Da Redação

MANAUS – Cães que vivem em abrigos com elevado número de animais são mais infectados por parasitas das leishmanioses do que aqueles que residem em casas.

A constatação é de uma pesquisa, realizada pela Fiocruz Minas (Fundação Oswaldo Cruz), que avaliou a prevalência da infecção em cães abrigados e comparou com os resultados de censos anteriores, cujos testes haviam sido feitos em cães residentes em casas. Entre os animais que moram em abrigos, o percentual foi de 33,6% de infectados, enquanto, nos que vivem em casas, essa taxa foi de 10%, em média. Os principais resultados foram descritos em um artigo publicado recentemente na revista Acta Tropica.

A falta de regulamentação para os abrigos facilita a disseminação do parasito entre os cães e também entre os seres humanos, uma vez que a transmissão se dá por um vetor, conhecido como mosquito palha, bastante comum nesses locais.

Para avaliar a prevalência dos parasitas em cães abrigados, os pesquisadores fizeram exames sorológicos em 627 animais, que vivem em 17 abrigos de diferentes municípios de Minas Gerais, todos situados em localidades onde há registro de casos de leishmanioses com frequência. Segundo determina o Ministério da Saúde, o diagnóstico foi realizado por dois tipos de testes: DPP e ELISA, que detectaram soropositividade em 211 amostras.

“Nosso estudo mostrou que os abrigos para cães podem estar funcionando como abrigos para os parasitos também. Hoje, não existe nenhuma regulamentação para esses espaços, em que se defina, por exemplo, infraestrutura adequada ou cuidados necessários a serem adotados. Essa falta de orientações facilita a disseminação do parasito entre os cães e também entre os seres humanos, uma vez que a transmissão se dá por um vetor, conhecido como mosquito palha, bastante comum nesses locais”, afirmou o pesquisador Gustavo Paz, do Grupo de Estudos em Leishmanioses.

Dos 211 cães com diagnóstico positivo, 93 apresentavam sinais clínicos de leishmaniose visceral. Nos outros 118, os exames clínicos foram inconclusivos e, por isso, os pesquisadores coletaram amostras de tecidos dos animais, para a realização de uma análise por PCR-RFLP, visando verificar a espécie do parasito presente.  Os resultados mostraram que a Leishmania infantum, uma das principais espécies que circulam no Brasil e provoca a leishmaniose visceral, predominou em 66,1% dos animais. Outra descoberta importante foi a detecção de Leishmania amazonensis em oito cães.

“A L. amazonenses foi encontrada na pele desses animais, o que favorece a infecção por meio do mosquito vetor. Isso indica que os cães de abrigos possam estar atuando como reservatório também dessa espécie, que causa a leishmaniose tegumentar clássica e ainda a difusa, que se caracteriza por uma rápida dispersão da ferida na pele, tanto nos animais como em seres humanos”, explica o pesquisador.

A pesquisa faz parte da tese de doutorado da médica veterinária Letícia Estevam, aluna do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Fiocruz Minas, com orientação dos pesquisadores Gustavo Paz e José Dilermando Andrade Filho. Para Paz, as descobertas deste estudo podem contribuir para a elaboração de políticas de saúde pública, já que, no Brasil, existe uma carência sobre os cuidados específicos para esta população de animais que vivem em abrigos, assim como para os seus responsáveis, que podem ser acumuladores, ONGs ou pessoa física protetora de animais de várias classes sociais.

“Este cenário epidemiológico se configura em um importante problema para a saúde pública e única do nosso país. Nossa pesquisa pode subsidiar a elaboração de diretrizes multidisciplinares para o acolhimento de cães em abrigos, voltada para os responsáveis por esses locais. Sabemos que as pessoas responsáveis por tais espaços amam os animais e querem o melhor para eles. O poder público precisa, então, atuar na elaboração e implementação de uma política pública direcionada para a prevenção e controle de vários agravos sanitários encontrados nesses ambientes, entre eles as leishmanioses”, disse.

O estudo foi realizado em parceria com a Ceva Saúde Animal e contou com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais. Todos os procedimentos envolvendo os animais foram realizados de acordo com as diretrizes do Conselho Nacional de Controle de Experimentação ao Animal e aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa.

A doença

As leishmanioses se dividem em dois tipos: tegumentar, que ataca a pele e as mucosas; e visceral, que ataca órgãos internos, como fígado e baço. A doença é causada por protozoários parasitas que ficam hospedados principalmente em roedores e cães e são transmitidos ao homem pelas fêmeas de flebotomíneos, popularmente conhecidos como mosquito palha, cangalhinha e birigui. A leishmaniose visceral é uma doença parasitária sistêmica, caracterizada por febre de longa duração, aumento do fígado e baço (hepatoesplenomegalia), perda de peso, fraqueza, redução da força muscular, anemia e outras manifestações.

Já no caso da leishmaniose tegumentar, o principal sintoma é o aparecimento das feridas na pele. Geralmente, a lesão aparece pequena, de forma arredondada, profunda, avermelhada e cresce progressivamente com o passar dos dias. Entretanto, quando o parasita abriga a mucosa do indivíduo contaminado, as feridas aparecem no nariz, na boca ou, em casos mais graves, na garganta e no sistema da laringe do organismo.

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Assuntos cães, Fiocruz, leishmaniose
Redação 23 de maio de 2022
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