
EDITORIAL
MANAUS – O presidente Jair Bolsonaro (PL) largou o comando do Brasil dois meses antes de terminar o mandato e assiste ao “circo pegar fogo”, com seus apoiadores paralisando o tráfego nas estradas e prejudicando a economia e toda a população brasileira por tabela.
O comportamento do presidente da República destoa daquele adotado na pandemia de Covid-19, em 2020 e em 2021, quando criticava as medidas de isolamento adotadas por governos estaduais e prefeitos, com a justificativa de que iria “quebrar a economia”.
Eram situações completamente diferentes. Na pandemia as medidas de isolamento se impuseram diante da falta de tratamento eficaz para a doença e da limitação de leitos hospitalares. A Europa e os Estados Unidos adoraram medidas restritivas de circulação de pessoas e mesmo assim muitos morreram à espera de leitos.
Agora, qual a motivação dos fanáticos apoiadores de Bolsonaro? Contestam o resultado das urnas, sem qualquer indício de irregularidade na eleição. Simplesmente não aceitam a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. E tentam parar o país.
Esses fanáticos espalham a mentira de que, se o povo tomar as ruas, as Forças Armadas brasileiras serão obrigadas a tomar o poder e não permitir a posse de Lula. E recomendam que Bolsonaro não se manifeste para que ninguém use o argumento de que ele incitou o povo a ir às ruas.
De fato, Bolsonaro nunca esteve preocupado com a governabilidade do Brasil. A administração dele foi marcada pelo desleixo. No primeiro ano, Bolsonaro tomava decisões que não resistiam às críticas da oposição e da imprensa, então, ele recuava. Coisa de amador.
No segundo ano, o primeiro da pandemia de Covid, Bolsonaro mostrou que não tinha a mínima condição de assumir o comando da crise instalada pela doença. No mundo inteiro, os chefes de Estado assumiram o comando, enquanto Bolsonaro preferiu brigar com governadores e prefeitos; espalhar notícias falsas sobre a doença, incentivar a população a rejeitar o uso de máscaras e incitar os brasileiros a desobedecerem as medidas de restrição.
Em 2021, quando o mundo mergulhava na segunda onda da doença, surgiram as primeiras vacinas de prevenção à Covid, mas Bolsonaro passou a desdenhar de sua eficácia e a pregar a “liberdade” de escolha entre tomar ou não o imunizante. Depois, inventou argumentos para não fechar contratos de compra de vacinas. Enquanto isso, os governadores trabalhavam para conseguir imunizante, e também eram criticados pelo presidente.
Foram três anos de desgoverno. A inflação disparou em 2020 quando o resto do mundo ainda não sentia qualquer sinal de aumento de preços, já que a economia estava estagnada com a pandemia. Os preços dos alimentos dispararam enquanto os salários foram congelados ou reduzidos com a justificativa de manter os empregos na crise sanitária.
Mas Bolsonaro, em momento algum se descuidou de sua meta, que era a reeleição. Aliás, foi a pretensão de se reeleger que o moveu desde os primeiros dias de governo. Para isso, tratou de tirar do caminho todos os que pudessem atrapalhar a manutenção dele no poder.
O primeiro a cair foi Gustavo Bebianno, presidente do PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu em 2018. Motivo: denúncias de irregularidades na distribuição de recursos da campanha eleitoral. Bebianno morreu em 2020 vítima de infarto sem que as denúncias fossem confirmadas.
Depois, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, que entrou no governo como a melhor aquisição do presidente, por seu desempenho na Operação Lava Jato, e por ser o responsável pela prisão de Lula. No governo, o ex-juiz passa a ser visto como um nome para a disputar as eleições presidenciais de 2022, o que o tornou alvo de Bolsonaro e de auxiliares mais próximos.
Em plena pandemia, em abril de 2020, Moro anuncia sua demissão e deixa o governo acusando o presidente de interferência na Polícia Federal e se torna inimigo número 1 do bolsonarismo.
Mas Bolsonaro ainda precisava derrotar outro ex-aliado que se tornou inimigo por querer disputar a Presidência: o então governador de São Paulo, João Doria, que se tornou alvo fácil do presidente durante toda a pandemia de Covid-19.
Chegamos a 2022, ano de eleição, e Bolsonaro largou o posto de presidente para se transformar no motoqueiro líder das “motociatas” Brasil afora. A obsessão pela reeleição suplantou qualquer compromisso com a governança.
Sobraram apenas as articulações para criar programas e benefícios que lhe rendesse votos.
Nada, no entanto, foi suficiente. Pela primeira vez em sua história política, Bolsonaro perdeu uma eleição. E perdeu para aquele que em 2018 foi colocado na cadeia por um aliado do atual presidente.
Desde às 19h30 de domingo (hora de Manaus), quando o TSE anunciou que Lula estava matematicamente eleito, Bolsonaro desapareceu. Não foi capaz de reconhecer a derrota; não dá sinais de que facilitará a transição para o próximo governo.
Em nome de Bolsonaro, caminhoneiros fanáticos fecham rodovias por todo o Brasil, e o presidente não parece se importar. A Polícia Rodoviária Federal assistia aos protestos como se fosse algo natural. Precisou um ministro do Supremo Tribunal Federal ameaçar prender o diretor-geral da PRF para a corporação começar a agir.
Os brasileiros começam a ter problemas: companhias aéreas cancelaram voos; há ameaça de falta de combustíveis e de abastecimento de alimentos. E nada disso sensibiliza o presidente da República.
O Brasil precisa urgentemente de um presidente.

