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Variedades

‘Blonde’ mostra Marilyn Monroe como produto de Hollywood

27 de setembro de 2022 Variedades
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Ana de Armas como Marilyn Monroe: atuação digna de Oscar (Foto: Netflix/Reprodução)
Ana de Armas como Marilyn Monroe: atuação digna de Oscar (Foto: Netflix/Reprodução)
Por Leonardo Sanchez, da Folhapress

SÃO PAULO – É em meio a delírios de grandeza que somos apresentados a uma pequena Norma Jeane, nos minutos iniciais de “Blonde”. Mas eles ainda não pertencem à garotinha que se tornaria Marilyn Monroe, e sim à sua mãe, que jura que o pai da atriz é um figurão de Hollywood, que os altos executivos da indústria mudariam suas vidas.

Ao menos, é o que diz a um policial enquanto mergulha seu carro numa cortina densa de fumaça, rumo às labaredas que tomavam as colinas em torno do letreiro de Hollywood naquele incêndio histórico que consumiu o Griffith Park, em 1933. Não foi a única vez, o filme sugere, que ela pôs a vida da filha em risco, de propósito.

Diante de um diagnóstico de esquizofrenia pouco depois, a mãe de Marilyn proporcionou uma série de traumas que marcariam profundamente a estrela. Em “Blonde”, que o diretor Andrew Dominik frisa ser um retrato ficcionalizado, não uma biografia fidedigna, ela e o pai ausente são figuras centrais para a construção não de uma, mas de duas mulheres adultas.

Norma Jeane e Marilyn Monroe, na pele da atriz Ana de Armas, são personagens opostas e complementares. A primeira é culta, indefesa e sonhadora, enquanto a segunda é um produto, fruto da imaginação dos homens poderosos que moldaram sua carreira – e, portanto, hipersexualizada e pertencente ao lugar-comum da “loira burra”.

“Houve um movimento para tentar reinventar a Marilyn como uma figura de empoderamento feminino, mas isso não é crível. Ela era uma pessoa incrivelmente poderosa, pela imagem que projetava, mas isso teve um impacto negativo internamente”, diz Dominik, em conversa por vídeo. “O tipo de pessoa que ela de fato foi não é popular hoje, não é politicamente correto”.

Ele buscou resgatar a ingenuidade de Norma Jeane e dar ao público uma narrativa a partir de seu olhar fragilizado. “Ela teve uma mãe que a queria morta, eu acho que se isso acontece, uma parte de você vai, por toda a vida, tentar realizar esse desejo. Nesse filme ela é a órfã de um conto de fadas adulto, então obviamente a tratamos com simpatia”.

Foram mais de dez anos para enfim levar a adaptação do livro homônimo de Joyce Carol Oates às telas, e nos quais Dominik tentou convencer algum estúdio a liberar o dinheiro de que precisava. O MeToo e a reconfiguração da indústria em torno das narrativas femininas, ele diz, foram imprescindíveis para que isso acontecesse.

Em cena, Marilyn sofre à exaustão. São quase três horas de aflição, da infância à morte prematura, que renderam a primeira classificação indicativa NC-17 para um filme original da Netflix – a mais alta da tabela americana, destinada a histórias com conteúdo sexual, consumo de drogas e violência explícitos.

Há certo marketing aí, embora “Blonde” não tenha, de fato, timidez na hora de mostrar os estupros e abortos que ela sofreu. Marilyn aparece com frequência com os seios à mostra e, numa cena de sexo oral, a câmera enquadra a parte superior de seu rosto, dos lábios à testa. Não há órgãos sexuais à mostra, porque o interesse é na expressão de desconforto da moça, não no ato.

O filme também reserva certa beleza para os lampejos de felicidade em sua curta vida. Quando se apaixona pelos filhos de Charles Chaplin e Edward G. Robinson, o ménage entre eles é delicado e sincero.

Totalmente entregue ao primeiro deles, Marilyn olha hipnotizada o corpo dos dois, nus diante de um espelho. Ele desliza as mãos fortes pelo corpo dela, deixa o torso escapar por trás da figura feminina e sussurra em seu ouvido palavras sobre fama e beleza. Os rostos se viram e se encontram num beijo voraz. Aqui, de novo, “Blonde” está interessado na ligação entre os personagens, não no voyeurismo.

É um filme “não sexy sobre o maior sex symbol do século 20”, resume Dominik, que acredita que se as pessoas o procurarem pelo escândalo, ficarão frustradas. Seria impossível fazer um filme sobre Marilyn Monroe sem falar de sexo, mas o interesse está nas cicatrizes que isso deixa nela, em quão desconectada ela estava com esse lado.

Foram horas e horas de pesquisa para a cubana Ana de Armas entrar na pela da diva. Até porque, ela concorda, era como se fizesse dois papéis em um único filme. “A Marilyn era uma prisão para a Norma, apesar de precisar dela”, afirma a atriz. “Ela tinha uma relação de amor e ódio com essa personagem, sobre a qual não tinha controle”.

Esse dualismo fica claro numa das cenas de “Blonde” que viralizaram no Twitter. Nela, Armas olha para um espelho. Lágrimas lavam suas bochechas rechonchudas e o olhar é vago, frustrado. De repente, como no clique de um botão, um sorriso vai se esboçando, o batom o contorna com força e os olhos amendoados acendem num olhar de autoconfiança. Marilyn chegou.

Para além da carga dramática do papel, a semelhança da cubana com a diva vem assombrando o público por onde o filme passa. Foi assim no Festival de Veneza, que destinou 14 minutos de aplausos efusivos à produção.

A escalação de Armas, apesar da ascendência que, em tempos de gritaria cibernética, gerou reclamações preconceituosas, parece natural. Ela é uma nova sensação de Hollywood e interpretar uma outra, provavelmente a maior que já passou pelo império de celuloide, a aproximou da personagem.

“Todos os atores precisam lidar com isso em níveis diferentes, é como a indústria funciona, apesar de eu não achar correto. Precisamos achar uma forma de lidar com essa exposição. Eu definitivamente me relacionei com a Marilyn nesse aspecto, embora numa escala incomparável. Mas sim, eu sei o quanto esse nível de pressão, de fama e de atenção pode fazer estrago”, disse.

Esses dramas pessoais de Marilyn Monroe sequestram a cor de “Blonde” inadvertidamente, com o sufocante preto e branco buscando brechas para se apoderar dos tímidos momentos coloridos. As lentes, igualmente, distorcem, turvam e embaralham as imagens, enquanto o formato da tela estica e encolhe a todo momento.

Confusa e desnorteada. É assim que a personagem se sente em meio à fama e, também, como o espectador é levado a se sentir pela direção afetada e imagética de Dominik, que tentou mimetizar as alucinações que o estado mental e os barbitúricos projetavam na mente de Marilyn.

Ele queria uma linguagem surrealista, onírica, freudiana até. “Nós estávamos traficando imagens, bagunçando a memória coletiva que se tem de Marilyn Monroe. Foi preciso alterar o significado das imagens para refletir seu drama interior”, diz ele, sobre cenas como a icônica “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, originalmente de “Os Homens Preferem as Loiras”.

Regravado à perfeição, o número musical começa brilhoso, festivo, até a câmera pousar no rosto de Armas, inundado por medo, como se ela fosse incapaz de se reconhecer na tela. A luz ao redor fica vermelha e o som vai se deformando, como se o musical escapista virasse filme de terror.

“Blonde” alterna entre vida pública e privada com seu olhar trágico, que atravessa o verniz estelar de uma das figuras mais glamorosas do século 20. Nele, o sexo não excita, os figurinos não deslumbram e os números musicais não divertem.

Em determinado ponto de “Blonde”, a própria Marilyn Monroe resume bem o que foram aquelas duas horas e 46 minutos de filme e aqueles 36 anos e dois meses de vida. “Que sonho horrível”, ela grita. “Que sonho louco!”

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Assuntos Ana de Armas, Marilyn Monroe
Cleber Oliveira 27 de setembro de 2022
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