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Variedades

‘Ayako’ é mangá para adultos com história complexa sobre o pós-guerra no Japão

17 de março de 2018 Variedades
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manga-japones-ayako
Assim como já ocorreu com os quadrinhos ocidentais, Ayako chega para provar que mangá, também, é coisa de adulto.(Foto:Divulgação)

Do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO- Chega ao Brasil com status de clássico o mangá Ayako, de Osamu Tezuka (1928-1989), quadrinista japonês conhecido por dar forma, traços e estilo ao mangá. Publicado originalmente na revista Big Comic, entre 1972 e 1973, o livro conta uma história do pós-guerra no Japão, repleta de conspirações, traições, corrupção do governo, movimentação da máfia e execuções com motivação política.

Autor de mangás clássicos destinados ao público infantojuvenil (shounen e shoujo, na denominação japonesa), como Astro Boy e A Princesa e o Cavaleiro, e famoso mundo afora pelos animes (desenhos animados, cuja pronúncia é animê), Tezuka também dedicou boa parte da carreira a quadrinhos adultos. Temas tão diversos como Buda, Adolf Hitler e o pós-guerra no seu país natal receberam atenção do quadrinista.

Essa é a primeira vez que Ayako é publicado no Brasil. A edição especial tem 720 páginas e é a primeira do Ocidente na ordem original, com os dois finais imaginados por Tezuka e em volume único.

No livro, a família Tenge vive na região de Tohoku, ao norte do Japão, quando Ichiro retorna da guerra, em 1949. Ele passa a ser visto com desonra na família e no seu vilarejo, por ter sido prisioneiro de guerra. Envolvido em esquemas políticos escusos, ele recebe a missão de assassinar um líder político da esquerda local, tarefa que vai acabar influenciando diretamente o futuro de toda a família.

A personagem do título é, a essa altura, apenas uma garotinha no meio de uma família que o leitor descobre, a cada página, está muito perturbada. Abusos, violência e crimes acabam condenando a menina a uma reclusão que, por sua vez, também definirá o futuro do clã.

O mangá se desdobra até os anos 1970, explorando nuances políticas, ramificações criminosas e temas tão diversos e sensíveis como choque de gerações, corrupção policial, violência contra a mulher e até incesto.

Especialista reconhecido no mundo dos quadrinhos, o jornalista britânico Paul Gravett recentemente definiu Ayako como o mangá asiático número 1 para “expandir seus horizontes”.

Entre outros apelidos, Tezuka era chamado de Deus-Mangá.

O editor da Veneta, Rogério de Campos, explica que nos anos 1960 houve uma onda de obscurantismo e tentativas de censura que ameaçavam tomar o quadrinho japonês. “Esse material é especialmente interessante porque significou um movimento de resistência. O Tezuka rompe com a imagem de ‘Walt Disney japonês’ para mostrar que os quadrinhos podiam tratar de coisas adultas.”

“Ele foi muito visionário, considerava o mangá como um ideograma facilmente entendível para qualquer língua”, diz a professora Sonia Bibe Luyten, pesquisadora pioneira do mangá no Brasil e autora de Mangá: O Poder dos Quadrinhos Japoneses, já na terceira edição.

“Ele modificou totalmente a figura e a linguagem dos quadrinhos. Colocou mais ação, sem ser violento. Essa ação ele conseguiu com traços.” Entre esses traços, conta-se também a inclusão dos “olhos grandes”, característica geral dos mangás japoneses creditada a Tezuka.

Segundo Luyten, o traço se deve à influência dos desenhos de Walt Disney e também à Takarazuka Revue, companhia de teatro japonesa, da cidade de mesmo nome. Tezuka frequentava as peças e ensaios com sua mãe, e a maquiagem das atrizes combinada com a luz dos refletores dava a sensação de olhos grandes.

Amizade

Tezuka também foi amigo pessoal de Mauricio de Sousa – tanto que a Mauricio de Sousa Produções (MSP) vai participar de uma nova coleção de mangás (a Tezuka Mix), a ser lançada no dia 30 de abril no Japão. A MSP vai ilustrar uma série chamada A Noite da Princesa, que junta as narrativas do filme A Princesa e o Plebeu e do mangá A Princesa e o Cavaleiro.

Essa é a segunda colaboração entre os dois universos. Em 2012, uma revista da MSP juntou os personagens da Turma da Mônica com o Astro Boy e a Princesa de Tezuka numa missão para proteger a floresta amazônica. A ideia, que nasceu de uma promessa entre eles de trabalharem juntos, é o único crossover autorizado no mundo com os personagens do japonês.

A Turma da Mônica Jovem, fenômeno mais recente da MSP (uma edição chegou a vender 500 mil exemplares), tem inspirações claras no mangá. “A criação da TMJ foi um golaço, porque recuperou público para o mercado dos quadrinhos”, diz Sidney Gusman, diretor de planejamento editorial da MSP. Ele prepara agora a próxima Graphic MSP, sobre o personagem Jeremias.

Mercado

Segundo a Total Publicações, maior distribuidora de revistas do Brasil, o segmento “geek”, no qual o mangá está incluído, se mantém estável enquanto outras áreas estão em queda. Em 2017, foram mil títulos de 12 editoras diferentes e 9 milhões de exemplares distribuídos apenas em bancas.

O boom do mangá no Brasil começou no início dos anos 2000, com títulos como Dragonball, Cavaleiros do Zodíaco (Conrad) e Sakura Card Captors e Samurai X (JBC). Desde essa época, o mercado só se consolidou, segundo o gerente de conteúdo da Editora JBC, Cassius Medauar. “Mas, óbvio, ele sofre o mesmo que todos os mercados leitores do Brasil: não há aumentos muito grandes”, diz. Para ele, nos últimos cinco anos, com a entrada maior do mangá em livrarias, ocorreu uma diversificação nos temas e subgêneros, porque as editoras conseguem investir com riscos e tiragens menores.

“O mercado também está maduro, já são quase 20 anos de mangás no Brasil. O público pede mais variedade, e há também a evolução tecnológica: pessoas passam a ter acesso ao que existe no mundo dos mangás e a querer ler esses novos títulos”, afirma.

Assim como já ocorreu com os quadrinhos ocidentais, Ayako chega para provar que mangá, também, é coisa de adulto.

 

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Assuntos Japão, Mangá
Redação 17 de março de 2018
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