
Por Lúcio Pinheiro, da Redação
MANAUS – As atividades de militância e mobilização de rua, que chegaram a concentrar 35,5% das despesas da campanha mais cara entre as que tiveram seus números divulgados até aqui (de Rebecca Garcia/PP), foram abandonadas nesse segundo turno da eleição suplementar ao Governo do Amazonas.
Às vésperas da decisão do pleito, que será domingo, 27, se não fosse a propaganda eleitoral gratuita na TV e no rádio diariamente dificilmente alguém perceberia que Eduardo Braga (PMDB) e Amazonino Mendes (PDT) estão em campanha pelo comando de R$ 15 bilhões, valor do orçamento do governo do Estado.
O coordenador da campanha do senador do PMDB, Miguel Capobiango, disse que a campanha do candidato está fora das ruas não por opção, mas por falta de orçamento. “Essa questão está relacionada ao quanto você consegue investir na campanha. Se você tem um volume de arrecadação suficiente, você investe em pessoal. Se não tem – isso aconteceu com todos os candidatos –, aí você tem dificuldade de investimento”, disse Miguel.
Segundo o coordenador, a coligação tem compensado a falta de recurso com a militância de voluntários. “Temos contado muito com voluntários. Tem um volume muito grande nos ajudando, que tem se disposto a fazer um trabalho de militância, na vizinhança das suas casas. São militantes partidários ou amigos dos candidatos e do grupo político que os acompanha”, disse.
Apesar de Braga ser o autor da ação que resultou na cassação do ex-governador José Melo (Pros), que culminou na eleição, segundo Miguel, tanto o senador quanto os demais candidatos não se prepararam para disputar um pleito tão rápido, principalmente do ponto de vista financeiro. “É uma campanha diferenciada. E obviamente ninguém estava preparado financeiramente para fazer frente a um investimento necessário para uma campanha governamental”, disse o coordenador.
Por meio de nota, a equipe de campanha de Amazonino afirmou que este ano a campanha política está “mais limpa, mais econômica e menos invasiva, refletindo um novo momento do marketing político”.
Segundo a equipe do candidato do PDT, de fato, há escassez de recursos. E o que tem é canalizado para atividades que exigem maior investimento. “Há uma mudança de padrão, que privilegia o respeito cada vez maior pela não invasão das mídias produzidas para a campanha no dia a dia das pessoas. Outro fator importante é a utilização das redes sociais, através de grupos formados organicamente. E o candidato Amazonino Mendes tem usado este recurso, falando diariamente na internet, inclusive para todos os municípios do interior”, informou a assessoria de imprensa de Amazonino.
Fonte secou
O analista político Afrânio Soares diz que a principal causa para uma eleição tão fria é, de fato, a falta de recursos. “A legislação não permite mais o financiamento de pessoa jurídica, então, o recurso foi escarço para todos os candidatos”, afirma o analista.
Além da falta de dinheiro para “animar” a militância de rua, os candidatos não tiveram tempo suficiente para se preparar para disputar as eleições, avalia o analista. “Os grupos até que se movimentavam, mas para 2018, em um ritmo de ano pré-eleitoral. Mas, quando se decidiu pela eleição suplementar, foi de uma hora para outra. Não deu tempo de reunir todos os apoiadores, todas as pessoas que poderiam doar”, avalia Afrânio.
O analista descarta que a falta de movimentação nas ruas de Manaus, por exemplo, possa ter relação com o desânimo de algum candidato. “Pode ter uma dose de desânimo, mas não foi fundamental. Mesmo se a eleição tivesse decidida, é muito raro quem está ganhando não dá continuidade à campanha de rua. O principal motivo me parece ser a falta de recursos mesmo”, comenta.
Território
Para Afrânio, apesar do esforço dos candidatos em contratar exércitos para fazer campanha nas ruas, essa atividade serve mais para marcar território do que necessariamente para ganhar voto. “Um ou outro indeciso talvez decida seu voto com isso. É mais para marcar posição, para passar uma ideia de campanha encorpada, participativa”, avalia o analista.
Eduardo Braga e Amazonino Mendes ainda não divulgaram suas receitas e despesas nessas eleições. Até agora, somente os candidatos que não passaram para o segundo turno tiveram suas contas divulgadas. Entre os sete que divulgaram, a ex-superintendente da Zona Franca, Rebecca Garcia, foi a que mais arrecadou (R$ 4,2 milhões) e gastou (R$ 4,1 milhões).
A candidata do PP investiu muito na contratação de militância de rua. Foi a maior despesa da campanha dela. Dos R$ 4,1 milhões gastos, R$ 1,4 milhão foi com atividades de militância e mobilização de rua. O valor representou 35,5% de tudo que Rebecca gastou no primeiro turno.
A ausência de militância nas ruas não deve ser a única coisa a faltar nessa eleição. Pesquisas de intenção de votos divulgadas até aqui mostram que será pequeno o número de votos válidos nas urnas no próximo domingo, 27.
Em algumas consultas, o número de eleitores que vão votar em branco ou que irão anular seu voto chega a 24%. Sem contar no número de eleitores que se quer se sentirão motivados a sair de casa para votar.
