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Dia a Dia

Amazônia teve milhões de indígenas antes dos europeus, indica novo estudo

26 de dezembro de 2021 Dia a Dia
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Geneticista Tábita Hünemeier, é coautora do estudo e uma das principais estudiosas da área no país. (Foto: Arquivo pessoal)
Geneticista Tábita Hünemeier, é coautora do estudo (Foto: Arquivo pessoal)
Da Folhapress

SÃO CARLOS – Análises do DNA de indígenas do Brasil e de outros países da América do Sul trazem novos indícios de que a Amazônia era habitada por milhões de pessoas antes da chegada dos europeus, com povos que passaram por grandes ascensões e quedas muito anteriores ao ano de 1500.

Essas conclusões, resultado do estudo do material genético de quase 400 indivíduos de 58 etnias diferentes, estão em artigo na revista científica Molecular Biology and Evolution. Assinam a pesquisa especialistas do Instituto de Biociências da USP, junto com um colega da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona.

“Chegamos a números bem altos para a população inicial da Amazônia, entre 1 milhão e 5 milhões de pessoas só para os grupos tupis”, contou à reportagem a geneticista Tábita Hünemeier, coautora do estudo e uma das principais estudiosas da área no país.

Estimativas anteriores feitas por arqueólogos chegaram a um cômputo de 8 milhões de habitantes para a totalidade da Amazônia (o que abarca também as áreas fora do território brasileiro). Como as diferentes sociedades da família linguística tupi correspondem a apenas uma fração das etnias amazônicas, a conta completa provavelmente igualaria ou excederia a estimativa feita por métodos arqueológicos.

Hünemeier e seus colegas, ao analisar o DNA dos indígenas, voltaram sua atenção para um conjunto de 630 mil SNPs, sigla inglesa de “polimorfismos de nucleotídeo único”. Ou seja, são variações de uma única “letra” química de DNA, as quais, quando olhadas em conjunto, podem ser úteis para entender a história das populações humanas.

Um dos métodos utilizados pela equipe ajuda a estimar justamente como os grupos indígenas passaram por flutuações populacionais no passado.

Um dos primeiros passos é identificar sequências de “letras” de DNA que sejam idênticas no genoma dos indivíduos de uma população, explica Marcos Araújo Castro e Silva, que também assina o estudo.

“Esses segmentos são chamados de idênticos por descendência, pois são iguais por terem sido herdados de um ancestral comum”, diz ele. Numa população pequena, a tendência é que mais pessoas carreguem os mesmos trechos de DNA. Isso porque, com pouca gente gerando descendentes, seus filhos, netos e bisnetos terão maior chance de herdar um número reduzido dos mesmos segmentos. O contrário tende a acontecer em populações grandes.

Outro ponto importante da estimativa tem a ver com o tamanho desses segmentos. Acontece que eles vão diminuindo de geração em geração, a uma taxa conhecida, basicamente porque toda pessoa tem 50% de seu DNA vindo do pai, enquanto a outra metade vem da mãe. Na geração dos filhos dessa pessoa, ocorre uma nova divisão -25% do DNA vem de cada um dos quatro avós. Na geração dos netos, o número cai para 12,5%, e assim sucessivamente.

Juntando as duas informações, é possível estimar, por exemplo, qual era a diversidade genética da população há 500 anos (ou 18 gerações), com base na distribuição dos pedaços de DNA que têm um tamanho compatível com esse número de divisões.

Com base nesse tipo de conta, os autores do estudo detectaram uma queda populacional gigantesca nos principais grupos indígenas sul-americanos. O pior cenário é o que afetou as diversas etnias tupis, com uma redução de quase 99%. Os povos que viviam nos Andes teriam perdido 95% de sua população original, enquanto os grupos jês (família linguística que inclui, entre dezenas de outras sociedades, os xavantes) teriam ficado sem 83% dos membros que existiam na época anterior ao contato.

O trabalho indica ainda que as barreiras culturais e demográficas que existiam entre os povos da Amazônia e as civilizações dos Andes não eram absolutas. Grupos do oeste amazônico, ao que tudo indica, miscigenavam-se com os povos andinos, e isso produzia um “telefone sem fio” genético que, em certa medida, conectava os dois núcleos de civilizações. É algo já sugerido também pela antiga arte andina, que muitas vezes mostra animais da floresta tropical, como onças-pintadas e macacos.

Acredita-se que, por volta de 2.000 anos atrás, grupos tupis originários da atual Rondônia teriam iniciado uma grande expansão pela América do Sul, cobrindo uma área de 5.000 km de distância entre um extremo e outro de sua distribuição. O novo estudo lançou uma nova luz sobre esse processo ao mostrar que um dos ramos mais distantes da expansão, os kokamas, presentes na Colômbia, no Peru e no oeste do Amazonas, na verdade não são geneticamente próximos dos demais tupis, embora falem uma língua dessa família.

Na verdade, eles estão geneticamente mais próximos de povos de uma família linguística totalmente diferente, a dos aruaques. É um indício de que, no passado, provavelmente por influências culturais e políticas dos tupis, os ancestrais dos kokamas abandonaram seu idioma original e adotaram outro.

“O interessante nisso tudo é que parece ser o primeiro relato de substituição linguística na América elucidado pela genômica. Mas esse processo provavelmente era mais comum, dado os grandes impérios que existiram por aqui”, diz Hünemeier.

Além de grandes expansões, como a dos tupis, os dados de DNA também sugerem que não foi só a chegada dos europeus que provocou colapsos populacionais na Amazônia. Por volta de 600 anos atrás, um pouco antes do aparecimento dos invasores portugueses e espanhóis, um declínio significativo já teria acontecido, embora as razões para esse fenômeno ainda não estejam claras.

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Assuntos Amzônia, biociências, povos da Amazônia, Universidade de São Paulo, USP
Redação 26 de dezembro de 2021
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