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Márcia Oliveira

‘Amazônia, cuidado com o pé do boi’

6 de setembro de 2017 Márcia Oliveira
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Há exatos vinte anos o cantor e compositor popular Zé Pinto, lançava a música Devoção à Amazônia que seria lançada na coletânea Arte em Movimento em julho de 1998 que contou com a participação de músicos famosos como Chico César, Vânia Bastos, Lecy Brandão e Beth Carvalho.

Tanto a composição quanto a música Devoção à Amazônia fizeram e continuam fazendo muito sucesso nos meios populares, de modo especial no interior dos movimentos sociais que passaram a conhecer mais a Amazônia e assumir a sua causa cantando essa canção. Carregada de simbologias, a letra da música recolhe recortes importantes da vida na floresta e denuncia a expansão irresponsável da pecuária na Amazônia com os seguintes versos:

“Não sou apenas o índio que perdeu sua taba, na curva da estrada que o trator abriu. Quando arrancou mãe-floresta, quebrou minha flecha, deturpou minha festa e quase ninguém viu. Não quero esse lero-lero de quem diz: não posso! Coitado! Ai de mim!

Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos e rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore, Pai nosso e do palmital, pão nosso do santo fruto, ribeirinho enfrenta o mal, do homem que traz a cerca, planta capim, faz curral, amparado num projeto de violência brutal onde o humano é esquecido, e o boi querido é o tal.

Oh Amazônia cuidado com o pé do boi. Chico já disse, ninguém mais se esqueceu
O latifúndio traz miséria acaba a mata, incendeia, desacata milenares filhos teus.

Se expulsar o seringueiro meu amigo, pense comigo a seringueira vai chorar
é sua escora, é companheira, é sua amiga e ela percebe que ele sabe preservar.

Muita tristeza no tombo da castanheira, pro castanheiro é quase morrer de dor
ver destruída sua eterna companheira, por um projeto que ele não testemunhou.

E como fica onça pintada, arara azul, paca, cutia, periquito, porco-espinho
o jacaré, traíra, boto e lambari, pedem socorro com seu choro jacamim.

Chega de longe uma falsa ecologia, mas, essa fria seu projeto já mostrou
imperialismo vem escrito na cabeça, não tem magia quem não conhece o amor.
Levanta o índio junto aos outros companheiros, vimos ligeiros contra a força desse mal

fazer corrente em toda a América Latina, a causa é nobre, a luta é internacional”.

Na atual conjuntura em que os estados da Amazônia são os principais responsáveis pela expansão pecuária no Brasil, a reflexão da letra de Devoção à Amazônia se faz bastante oportuna. É inegável a contribuição econômica da produção de gado leiteiro e de corte. Trata-se de uma das atividades econômicas mais importantes do Brasil responsável pelo abastecimento interno da demanda de carne e leite e pelo crescimento das exportações nas últimas décadas.  Entretanto, o que se questiona é a expansão dessa atividade econômica que avança dia-a-dia sobre a floresta e os impactos socioambientais desse modo de produção.

De acordo com o Observatório do Clima do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon, o problema está no modo de produção agropecuária adotado na Amazônia de modo extensivo, que vem provocando desmatamento extensivo e desnecessário tornando o “setor agropecuário o principal contribuinte para as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do país (chega a aproximadamente 62% do total brasileiro)”, afirmam os pesquisadores do Imazon.

Nessa perspectiva, acredita-se que o tamanho do território ocupado pela pecuária em 2007 já seria suficiente para garantir o crescimento deste setor econômico sem necessariamente desmatar mais nenhum palmo de floresta.

Entretanto, o que vem ocorrendo é a continuidade do desmatamento para a garantia da expansão da pecuária. De acordo com o Imazon, “na Amazônia, o desmatamento ainda atinge cerca de 500-600 mil hectares por ano, envolve ocupações ilegais em Unidades de Conservação e Terras Indígenas e conflitos por terra”.   Ainda de acordo com as pesquisas do Imazon, “a pecuária tem sido alvo de maiores críticas, pois: é a maior responsável pelo desmatamento (75% das áreas desmatadas na região entre 1995 e 2004 foram transformadas em pasto); é campeão de áreas mal utilizadas com cerca de 12 milhões de hectares de pastos sujos; e é a campeã em ocorrências de trabalho análogo a escravo”.

Essa estreita relação entre o crescimento da pecuária e o desmatamento da Amazônia com todos os seus impactos sociais e ambientais precisa ser refletida à luz dos limites do ecossistema do nosso bioma e das suas consequências.

De maneira especial é preciso retomar o debate em torno da importância da floresta para o equilíbrio das chuvas na Amazônia e em outras regiões do país, para frear o aquecimento global e, acima de tudo, para garantir vida com dignidade para milhares de pessoas que dependem da floresta e de seus recursos naturais para sua sobrevivência com dignidade e autonomia.

Os especialistas do Imazon têm alertado que a combinação do gado com o desmatamento e as queimadas são responsáveis por gigantescas emissões de Gases do Efeito Estufa – GEE, 62% do total brasileiro, responsáveis, em grande medida, pelo aquecimento global que coloca em desequilíbrio a vida no planeta.

O aumento do desmatamento para criação de gado tem acirrado os conflitos socioambientais e colocado em risco a vida de milhares de pessoas que, mesmo estando na rota da pecuária não se beneficiam de seus resultados. Muita gente tem sido deslocada e substituída pelo “pé do boi” como afirma o cantor. Há regiões como São Félix do Xingu que possui cerca de 20 bois para cada habitante, o que representa uma inversão de valores humanos e sociais.

No estado de Rondônia, para cada habitante existem carca de 7,7 cabeças de gado e a região apresenta uma das maiores desigualdades sociais do Brasil. Isso indica que o aumento da produção de gado não tem impactado na melhoria de vida dos habitantes da Amazônia. Ou seja, a pecuária é um dos setores da economia com maior concentração de renda, o que nos leva crer que realmente é preciso ter “cuidado com o pé do boi”.


Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia, Pecuária
Redação 6 de setembro de 2017
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2 Comments
  • Cícero disse:
    8 de setembro de 2017 às 23:40

    Artigo primoroso, relevante, oportuno e bastante esclarecedor. Parabéns à autora.

    Nossa maior riqueza são as florestas, mas parece que nem isso será poupado como legado às gerações futuras. O avanço da atividade pecuária na seara Amazônia devasta, de forma brutal e inconsequente, a nossa flora, pondo em risco a sobrevivência das populações nativas dos bosques e matas e dos animais que ali habitam. Com o desmatamento acentuado, o que será da fauna silvestre?

    Responder
  • ze pinto disse:
    11 de setembro de 2017 às 11:23

    Oi. Obrigado por utilizar a menssagem de minha cancao viva a amazonia

    Responder

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