
EDITORIAL
MANAUS – As pesquisas de intenção de voto já anunciavam que seria uma vitória apertada. A caminhada foi longa. Lula foi vítima da mais sórdida armação arquitetada por uma direita que nunca chegaria ao poder em 2018 não fosse o plano executado pelo então juiz Sergio Moro para colocá-lo na cadeia.
Na campanha de 2018, mesmo sem Lula, Bolsonaro só saiu vitorioso graças às mentiras inventadas contra a esquerda, o PT, Lula e o candidato Fernando Haddad, com quem disputou o segundo turno. Lula, apesar de não estar na disputa, foi o principal alvo das fake news criadas e disseminadas nas redes sociais por uma rede bolsonarista, mais tarde batizada de gabinete do ódio.
Nos quatro anos que se seguiram, o gabinete do ódio funcionou a todo vapor para espalhar mentiras e tentar incutir na cabeça da população com menor grau de leitura a ideologia da mentira.
Inventaram que a luta de Bolsonaro era contra o comunismo. O mesmo argumento usado em 1964 para justificar o golpe militar e o regime autoritário que durou 20 anos.
Os mentores da chamada direita (o grupo carrega pouquíssimos traços do que se convencionou chamar-se direita no mundo) criaram uma “pauta de costumes” e tentaram empurrar goela abaixo da população brasileira que existia um grupo do mal contra a família brasileira, conta as igrejas e a favor da criminalidade e da imoralidade.
Essa pauta de costumes invadiu os púlpitos das igrejas evangélicas e grupos católicos, que passaram a acreditar que Bolsonaro era um enviado de Deus enquanto Lula era a representação de Satanás. Esses ambientes passaram a trabalhar como se fossem partidos políticos em favor de Bolsonaro.
Lula conseguiu se livrar da cadeia e dos processos que o condenaram e ganhou o direito de disputar a eleição, o que lhe foi negado em 2018.
Mas a prisão foi um trunfo que Bolsonaro precisava para usar na campanha eleitoral deste ano. “Ladrão de nove dedos”, “ex-presidiário”, “corrupto”, “ladrão” e “mentiroso” foram os adjetivos usados por Bolsonaro e sua campanha para tentar manchar a imagem de Lula na propaganda eleitoral e na campanha nas redes sociais e em comícios.
Uma enxurrada de mentiras produzida e distribuída pelos dutos bolsonaristas nas redes sociais davam a impressão de que mais uma vez as fake news sairiam vitoriosas.
Lula foi acusado de defender o aborto, de querer matar crianças no ventre das mães; foi acusado de ser a favor de liberar as drogas ilícitas para os filhos da família brasileira; foi acusado também de defender o fechamento das igrejas, de instalar a censura nos meios de comunicação e na internet e de ter relação com traficantes de drogas e com a bandidagem.
Sobrou muito pouco espaço para a discussão de propostas. Na propagada na TV e no rádio, ataques à honra e mentiras passaram a dominar o espaço destinado a discussão dos problemas do país e das propostas.
Os debates de televisão também foram transformados em ataques pessoais e pouco se discutiu o que o eleitorado espera de soluções para os graves problemas da nação brasileira.
O período que separou a votação do primeiro turno da votação do segundo turno pareceu os mais longos dias da história, mas também revelou um engajamento do brasileiro nas redes sociais e nas ruas em defesa de seus candidatos.
Neste 30 de outubro, dia da eleição, uma ação desesperada da Polícia Rodoviária Federal tentou impedir a votação de eleitores de baixa renda no Nordeste, onde Lula teve maioria esmagadora no primeiro turno.
Foi a última tentativa de impedir a vitória de Lula. Não conseguiram. Bolsonaro entra para a história como o primeiro presidente da República Federativa do Brasil que não conseguiu se reeleger desde a redemocratização e da reeleição.
A verdade venceu a mentira; o respeito às regras do jogo e às pessoas venceu o ódio. Infelizmente, vidas foram ceifadas pela intolerância.
A partir de janeiro é tempo de pacificar o país. E Lula precisa fazer um governo melhor do que fez Bolsonaro.

