
É certo que o moderno mundo capitalista neoliberal nunca mais será o mesmo depois da pandemia do coronavírus (Covid-19). A tensão gerada em torno da doença, dos processos de contaminação, das mortes diretas e indiretas, do colapso na saúde pública são apenas alguns dos temas mundiais que saltam aos olhos diariamente nestes primeiros meses do ano de 2020.
O boletim da OMS nº 106, publicado na tarde de ontem, dia 5 de maio de 2020 ( https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875), aponta que o Brasil é um dos países com transmissão comunitária da COVID-19 e confirmou oficialmente 114.715 casos e 7.921 mortes pela doença. Levada em consideração a subnotificação crônica a que se encontra o país e os dados de óbitos registrados em cartório, estes números de contaminação e morte podem ser até 5,7 vezes mais, de acordo com renomados especialistas nacionais (https://ciis.fmrp.usp.br/covid19/analise-subnotificacao/).
Na conjuntura mundial da pandemia, no entanto, algumas questões, encontram-se ao abrigo da luz. Trago para este debate uma categoria de trabalhadores(as) fundamental no enfrentamento à pandemia que, no Brasil não tem tido o devido valor e respeito. A frase da enfermeira Ana Catarine Carneiro, de 31 anos, “os profissionais de saúde no mundo estão sendo aplaudidos, e no Brasil a gente apanha” (https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2020/05/01/profissionais-no-mundo-sao-aplaudidos-e-no-brasil-a-gente-apanha-diz-enfermeira-agredida-em-ato-no-df.ghtml) abre um debate necessário na atual conjuntura da pandemia no Brasil. A frase foi proferida depois de um covarde ataque durante um protesto silencioso dos profissionais da área da saúde em Brasília, na frente do Palácio do Planalto no dia 1º de maio, dia do(a) trabalhador(a).
Em nível mundial, uma das categorias de trabalho mais afetada diretamente pela pandemia são os profissionais da saúde que atuam na linha de frente no combate ao novo coronavírus. Estão entre as vítimas diretas da doença porque convivem diariamente com os pacientes. São médicos(as), enfermeiros(as), técnicos(as) e auxiliares de enfermagem e maqueiros, os profissionais mais expostos à contaminação, que acabam perdendo a vida para a Covid-19 (http://www.cofen.gov.br/historia-dos-profissionais-de-saude-que-morreram-na-luta-contra-a-covid-19_79276.html) no exercício de sua profissão.
O covarde ataque à enfermeira Ana Catarine Carneiro se deu durante um ato de protesto em que os profissionais da saúde tentavam apresentar à sociedade a situação a que estão submetidos no combate à pandemia e para chorar mais de uma centena companheiros(as) mortos nos últimos meses vítimas do coronavírus. O protesto representava um grito de socorro pedindo o isolamento social para não continuar colocando em risco esta categoria de profissionais cada vez mais sacrificada no cuidado aos doentes.
De acordo com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), só nos serviços de enfermagem, 53 pessoas já morreram por causa da doença e mais de 7 mil profissionais estão afastados para tratamento. Além disso, as condições de trabalho no Brasil são as mais precárias do mundo nesta área da saúde. Dentre as queixas dos profissionais, está a falta de estrutura e de equipamentos de proteção individual (EPIs) para trabalhar, as longas jornadas de trabalho e a grande pressão que gera pânico no tenso ambiente de trabalho.
Outra questão importante neste debate é como são tratados os profissionais da saúde privada contaminados no ambiente de trabalho. O fato de estar trabalhando num hospital privado, não lhes garante tratamento, a menos que paguem os planos de saúde privada. De maneira especial os milhares de enfermeiros(as), técnicos(as) e auxiliares, dos quais 73% são mulheres que atuam na rede privada de saúde. Na maioria dos casos, são profissionais que não contam com plano de saúde vinculado diretamente ao hospital onde trabalham. Boa parte dos contaminados são direcionados também para o sistema público de saúde.
No Brasil, não existe uma legislação que obriga a rede privada de saúde a cuidar de seus profissionais. Isso significa que os hospitais particulares negam cuidado, tratamento e medicação aos seus profissionais, especialmente da área da enfermagem. Lhes é garantido o afastamento do trabalho enquanto se curam, mas, não o tratamento adequado.
Os profissionais contaminados em quadros menos graves, precisam se resguardar em quarentenas. O estado não lhes garante, por exemplo, locais adequados e específicos para este resguardo. Na maioria dos casos, os profissionais se confinam em suas casas onde estarão em contato com suas famílias, que podem incluir idosos e crianças. No ambiente familiar é muito difícil evitar que os demais membros se contaminem.
E quando precisam de tratamento mais especializado, na maioria dos casos, os profissionais da saúde precisam recorrer ao Sistema Único de Saúde porque, no caso dos hospitais particulares, não lhes é garantido tratamento nem medicação, salvo para quem paga os salgados planos de saúde.
Estas e muitas outras desigualdades sociais e injustiças nas relações de trabalho vieram à tona neste tempo de pandemia. Nesta conjuntura lamentável, a sociedade brasileira é convidada a pensar nestas situações e, ao invés de apontar o dedo em riste, cuspir e proferir palavras violentas, machistas, misóginas e fascistas aos profissionais de saúde, é preciso saber cuidar de quem cuida com o devido respeito e valorização.
A dor, o silêncio e o choro contido da enfermeira Ana Catarine Carneiro e de suas companheiras e companheiros humilhados em Brasília seja também a nossa dor e a nossa luta por mais igualdade de direitos e por mais justiça aos profissionais da saúde de todo o Brasil. Isso é cuidar de quem cuida com o respeito que merecem.
Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.
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