Um auditório lotado, globos girando, números sendo anunciados, pessoas roendo as unhas e um clima de tensão no ar. Esta poderia bem ser a descrição de um sorteio da Megasena, se os presentes no auditório não fossem pais, os números anunciados não fossem os correspondentes ao de inscrições de alunos, e o que estivesse sendo sorteado não fossem vagas no ensino fundamental e médio no colégio de aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAP-UFRJ).
Fundado em 1948 o CAP veio ao longo de suas décadas de existência alcançando uma reconhecida qualidade de ensino. Seu trabalho pedagógico encontra-se alicerçado em três pilares básicos: a transmissão de cultura geral, com ênfase na formação humanística, a utilização de metodologia ativa e uma carga horária semanal ampliada, através da incorporação de novas práticas educativas.
Nos anos iniciais do ensino fundamental o CAP possui Indicador da Educação Básica (IDEB) igual a 6,9, já nos anos finais este valor cai para 6,7. Só para se ter ideia do que isso representa, podemos usar como parâmetro de comparação o IDEB da rede privada do estado do Rio de Janeiro que nos anos iniciais é de 6,1 e nos anos finais é de 5,5. Percebe-se aí a superioridade de desempenho da instituição.
No Enem, a média do colégio é de 638,50 nas áreas de conhecimento e de 705,59 na Redação, ficando à frente de inúmeras escolas privadas de ensino médio em todo o Brasil. Para se ter a medida do quanto esse desempenho é significativo, se o CAP fosse uma escola amazonense seria a escola com a terceira melhor média do estado, considerando-se inclusive as escolas da rede privada.
Pelos resultados expressivos, todos os anos milhares de pais procuram a instituição em busca desse ensino gratuito e de qualidade para seus filhos, contudo, na impossibilidade de atender a todos, o CAP é obrigado a fazer uma seleção que inclui basicamente duas etapas: um teste de conhecimento e um sorteio. Este ano as inscrições iniciaram em Agosto, o teste ocorreu em Outubro e o sorteio foi realizado na última quinta-feira, 10.
O processo é bem simples: os alunos que se inscrevem para concorrer a uma vaga fazem uma verificação de nivelamento em Língua Portuguesa e Matemática; quem obtém no mínimo 50% de rendimento é classificado para o sorteio das vagas. Em 2015, foram 4.175 alunos inscritos na disputa por 96 vagas nos ensinos fundamental e médio, apenas 2.861 conseguiram se classificar para a fase do sorteio.
A última etapa da seleção é marcada por muita emoção, tanto de quem consegue ser sorteado quanto de quem fica do lado de fora, pais e filhos comparecem ao local do sorteio público para verem literalmente seu futuro ser decidido pela sorte. É claro que há quem brade contra esta forma de selecionar achando-a injusta, mas para a professora Miriam Kaiuca, vice-diretora do CAP, a diversidade que advém do sorteio é muito bem-vinda para a escola além de não privilegiar somente os alunos de alto desempenho no teste.
Olhando-se uma situação como essa não há como não se pensar nos alunos que ficam do lado de fora, aqueles que não tem a felicidade de ter seu nome sorteado. É desolador pensar que em nosso país educação pública de qualidade é uma questão de sorte e que famílias inteiras têm de passar por uma situação dessas.
Talvez a palavra humilhação seja a mais adequada para descrever como um pai sem condições se sente em não poder pagar uma escola privada para um filho e ter de se submeter a um sorteio para que ele possa ter acesso a uma educação gratuita de qualidade. Nos coloquemos um instante no lugar dos pais cujos filhos não foram sorteados.
Outro ponto de reflexão é a compreensão de como uma escola pública como o CAP consegue ter tão bons indicadores em relação as escolas das redes estadual e municipal de ensino e até mesmo da rede privada. Talvez a explicação esteja em alguns pontos chaves, como: número reduzido de alunos em sala de aula, professores altamente qualificados, práticas pedagógicas diferenciadas, remuneração mais adequada e plano de carreira para professores e técnicos.
O que acontece com o CAP ocorre também com a maioria das escolas mantidas pelo governo federal que na sua grande maioria são escolas militares, escolas de aplicação ou institutos federais. Isso nos aponta a um caminho que as escolas públicas estaduais e municipais podem seguir, que se não é exatamente o da federalização da educação básica, deve ser pelo menos a reprodução das mesmas condições que se tem na rede federal.
Só com esta perspectiva em vista é que poderemos evoluir a ponto de não termos mais famílias se submetendo a uma situação cruel e desumana como a que ocorre na seleção para o CAP, não por culpa da instituição que vê neste processo a forma mais justa de selecionar os alunos que a procuram, mas de um sistema perverso que nas últimas duas décadas passou a entender acesso a educação somente como vagas disponíveis em escolas.
