A longo prazo estaremos todos mortos?

O papel do tempo na análise dos problemas econômicos sempre foi uma questão controversa. Os economistas clássicos (Adam Smith, David Ricardo, Robert Malthus, Karl Marx) elaboraram suas análises preocupados, principalmente, com a evolução do processo de desenvolvimento do sistema capitalista no longo prazo. É o que se denomina de dinâmica magnificente ou tendência secular do sistema. Pouco se preocupavam em analisar as conjunturas econômicas de um país, sobre as quais faziam referências ocasionais.

Em 1923, John Maynard Keynes (1883-1946), o maior economista do século XX, procurava estabelecer uma distinção clara do que seria o curto prazo e do que seria o longo prazo. Para ele, no curto prazo, há um passado que já transcorreu e trouxe, para o presente, a acumulação de um estoque de capital físico (fábricas, áreas agricultáveis, infraestrutura econômica e social), um dado perfil de distribuição de renda e de riqueza (quem são os pobres e quem são os ricos na sociedade), uma força de trabalho com diferentes níveis de qualificação, os fundamentos sociais das instituições, certo grau de degradação dos ecossistemas, etc. São as realidades estruturais socioeconômicas e socioambientais que se impõem como condicionalidades (restrições e oportunidades) aos processos decisórios no presente.

Políticas econômicas de curto prazo que lidam com problemas de inflação, de flutuações nos níveis de renda e de emprego, têm de ser operadas dentro das restrições impostas por um tempo histórico e irreversível. É indispensável ter como ponto de partida essas restrições e condicionalidades para não se emaranhar em propostas voluntaristas num contexto de crise social.

Se nos momentos tumultuados do presente, quisermos resolver graves questões econômicas com orientações estratégicas que somente são eficazes no longo prazo, as políticas econômicas podem fracassar. Assim, como dizia Keynes, no longo prazo poderemos estar todos mortos. Uma frase que, quando retirada do contexto em que foi formulada, passa a impressão equivocada de que o grande pensador era contrário aos sistemas de planejamento de longo prazo.

Na verdade, as modernas teorias de crescimento econômico e as experiências históricas colocam em questão a dicotomia entre políticas econômicas de curto prazo e as políticas de desenvolvimento de longo prazo. Duas ilustrações de experiências brasileiras na concepção e implementação dessas políticas podem ser úteis.

Em 1965, quando Roberto Campos e Gouveia de Bulhões precisaram combater uma inflação acelerada e promover a retomada do crescimento de uma economia brasileira estagnada, articularam a criação de um programa de estabilização (o PAEG) com um projeto nacional de desenvolvimento (o Plano Decenal). Resultado: uma década de crescimento vertiginoso com estabilidade monetária. O segundo exemplo: como desde 2014, o Governo Federal busca executar uma política de austeridade fiscal descolada de um projeto de desenvolvimento de médio e de longo prazo, a economia brasileira tem caminhado um passo à frente, com o controle da inflação e três passos para trás, através da elevação do número de desempregados e de desalentados, do crescimento do número de pobres e de miseráveis e da desorganização da oferta pública de serviços sociais básicos.

Não se pode esperar que, de curto em curto prazo, as atuais políticas econômicas nos levarão ao tempo do desenvolvimento. Como diz Alice no País das Maravilhas: “Dizem que o tempo resolve tudo. A questão é: Quanto tempo?”.

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