A França ‘amarelou’

Nas últimas semanas as ruas e praças da França foram tomadas por manifestantes vestidos de coletes amarelos num grande movimento de resistência contra o anúncio de um possível aumento dos preços do combustível e, consequentemente, ao aumento do custo de vida nessa sociedade.

Os jornais e correspondentes internacionais anunciam a intensificação do movimento que já conta com um saldo de mais de 700 prisões e 263 feridos, entre civis e policiais. O presidente Emmanuel Macron vem abdicando do uso do diálogo e da negociação e optado pela repressão ao movimento com uso da violência policial.

O aumento dos preços seria de 6,5 centavos de euros por litro de gasóleo e 2,9 centavos para a gasolina. Parece pouco, mas, considerando o ‘efeito cascata’, esse aumento incide em toda a economia francesa e não somente nos transportes. Por isso a reação de toda sociedade que não tem deixado essa luta apenas nas costas ou na responsabilidade dos caminhoneiros como vem ocorrendo no Brasil.

A população francesa está mobilizada nas ruas e nas redes sociais para protestar. Para se ter uma ideia do alcance do movimento, uma única petição popular recolheu assinatura de mais de um milhão de pessoas e foi entregue ao presidente Macron exigindo providências para impedir os aumentos. O movimento ‘coletes amarelos’ que faz alusão ao colete fluorescente, que é um item de segurança obrigatório nos carros da França e em outros países da União Europeia, tem se intensificado em todo país e promete seguir protestando em várias frentes.

O movimento ‘coletes amarelos’ representa uma importante oposição ao governo francês, que hoje tem apenas 25% de aprovação por parte da população que vem se articulando a partir das redes sociais e, aos poucos, tomando as ruas e pontos estratégicos como a frente ao Palácio Eliseu, a residência oficial do presidente da França.

O aumento dos preços dos combustíveis, segundo o governo francês está relacionado com o aumento do preço do barril de petróleo no circuito internacional do controle dos preços em nível internacional. Entretanto, esse aumento, representa apenas a ponta do iceberg de uma crise muito maior e mais complexa da economia mundial. A tensão ao redor dos combustíveis denuncia questões sistêmicas relacionadas ao limite de extração e uso dos recursos naturais não renováveis tais como o carvão mineral, os derivados do petróleo, especialmente a gasolina, óleo diesel, óleo combustível, o GLP (gás de cozinha), entre outros. Cada vez mais, a moderna sociedade capitalista torna-se mais dependentes desses recursos explorados por grandes empresas transnacionais que centralizam as riquezas resultantes desse modelo de exploração.

A crise da França é uma crise de toda sociedade capitalista moderna que se deixa guiar por um modelo de produção e exploração de recursos naturais não renováveis de forma arbitrária e desmedida. Essa crise denuncia a disparidade entre o tempo capitalista e o tempo ecológico. Ou seja, o tempo da natureza não consegue acompanhar a rapidez com que os recursos naturais são explorados e consumidos em todo mundo capitalista. Há décadas as guerras pelo controle da produção e comercialização do petróleo tem se acirrado de forma sistemática ao redor do mundo.

O Brasil está no caminho da guerra pelo controle da exploração dos recursos naturais não renováveis e, de maneira especial, a Amazônia com todas as suas reservas ainda não exploradas. O uso, ou melhor, a queima destes combustíveis é usada para gerar energia e movimentar motores de máquinas, de veículos e também para gerar energia elétrica nas usinas termoelétricas que ainda representam boa parte da cobertura de energia elétrica em muitas cidades da Amazônia. Ainda somos muito dependentes dos combustíveis fósseis em detrimento do uso de combustíveis sustentáveis e limpos. Atualmente, 36,6% da energia consumida no Brasil deriva do petróleo, 5,4% deriva da queima do carvão mineral e 8,1% é resultado da queima da lenha vegetal.

O uso ou a queima dos combustíveis gera altos índices de poluição e contribui para a crise climática em todo mundo, pois, são os grandes responsáveis pelo efeito estufa e aquecimento global. Além disso, os gases poluentes, substâncias tóxicas e partículas sólidas resultantes da queima destes combustíveis são altamente prejudiciais à saúde dos seres humanos que respiram diariamente a fumaça tóxica.

Diante disso, conclui-se que a crise da França é a crise de toda humanidade. A saída, não seria apenas o impedimento do aumento dos preços dos combustíveis na França, mas, acima de tudo, um processo de profundas mudanças urgentes e necessárias em todas as sociedades modernas reféns do uso dos recursos naturais não renováveis. A crise da França é uma crise de toda sociedade e indica que já é hora de pensar seriamente em alternativas energéticas que sejam menos poluentes e destruidoras do convívio humano. Está na hora de se investir em estudos e tecnologias capazes de produzir energias resultantes de recursos renováveis como energia solar e eólica que representam menores impactos ambientais e possibilidades de um desenvolvimento sustentável.

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