
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – O discurso da direita sobre combate ao crime organizado colide com as práticas de seus políticos, que tentam confundir a opinião pública no tema segurança. Enquanto o governo Lula enviou ao Congresso Nacional um projeto de Lei Antifacção, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), destacou seu secretário de segurança, Guilherme Derrite (Progressistas-SP), para reassumir o mandato de deputado federal e se tornar o relator da proposta na Câmara.
O resultado beirou um escândalo. Derrite tentou, no primeiro momento, tirar da Polícia Federal as competências constitucionais para investigar o crime organizado e as organizações criminosas. Ele queria que a atuação da PF contra o crime organizado estivesse condicionada à “provocação do governador do Estado”.
Na proposta do secretário de Tarcísio de Freitas, era das Polícias Civis a prerrogativa de investigar os crimes atribuídos a facções. Depois, numa segunda proposta, Derrite queria que a PF informasse a Polícia Civil do estado quando decidisse investigar qualquer crime.
Como é do conhecimento da sociedade, há desde os primórdios das facções criminosas a participação de policiais, civis e militares, ajudando, dando cobertura e se beneficiando do crime. Nas operações policiais, não é novidade quando há vazamento de informações que ajudam os chefões do tráfico a fugirem, a eliminarem provas e a se preparar para o confronto.
Deixar a investigação exclusivamente nas mãos das policias civis seria um prêmio às facções criminosas.
A mobilização e Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite ocorreu depois da Operação Carbono Oculto, que teve como alvo mais de 350 pessoas e empresas suspeitas de ajudar o PCC (Primeiro Comando da Capital), com atuação a partir de São Paulo, a esconder o dinheiro obtido nos crimes – prática conhecida como lavagem de dinheiro.
A operação foi considerada um sucesso porque atingiu em cheio as finanças do crime organizado em São Paulo e outros estados onde o PCC se instalou.
Mas também a Polícia Federal chegou no coração financeiro de São Paulo, a Avenida Faria Lima, onde estão instaladas as fintechs (bancos digitais) e escritórios do PCC responsáveis por fazer a lavagem de dinheiro do crime organizado.
A investigação comandada pela Polícia Federal não teria ocorrido se a proposta defendida pela direita estivesse em vigor.
Tarcísio, Derrite e outros defensores da imposição de rédeas à Polícia Federal e a outros órgãos de investigação federais reverberam o discurso de autonomia das forças de segurança estaduais, mas na verdade, suas ações claramente protegem o crime organizado e quem dele se beneficia.
Por fim, esses mesmos políticos fazem coro com o PL, partido de Jair Bolsonaro, para classificar as facções (PCC e Comando Vermelho e outras) como organizações terroristas. Nada muda no combate ao crime organizado no Brasil, mas essa mudança é uma fenda aberta para a entrada de força militar de outros países, como os Estados Unidos, no Estado Brasileiro, como vem fazendo o presidente Donald Trump com países da América Latina. É a política entreguista que sempre moveu a direita.
O crime organizado só será combatido quando de fato for asfixiado financeiramente, porque fazendo isso não será mais possível comprar o apoio das polícias, da Justiça, de políticos e de boa parte do empresariado que está alinhado com o crime em negócios de fachada.
Ao fim e ao cabo, Tarcísio, Derrite e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, tiveram que recuar e sofreram uma derrota antes de o projeto de lei ir a plenário.

