
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – A extrema direita sempre se alimentou e se alimenta da mentira. Foi assim em todos os regimes de governo em que seus representantes estiveram à frente. Mas em tempos de informação em rede, é difícil manter a fábrica de mentiras sem ser desmascarada ou desmascarado.
No regime militar instalado em 1964 no Brasil, a mentira derrotou a verdade, e os militares ficaram no poder por 20 anos. À época, a mentira era a de que o governo de esquerda queria instalar o comunismo no Brasil. Essa balela do comunismo, aliás, habita o discurso da extrema direita até hoje. “O Brasil vai virar uma Venezuela”, “o Brasil está muito próximo de se tornar uma China comunista”, e por aí vai.
Em 2018, a família Bolsonaro e o bolsonarismo – que passaram a liderar a extrema direita brasileira – criaram uma série de mentiras que levaram uma parcela da população a acreditar que todo o que eles diziam iria realmente acontecer. Entre essas mentiras estavam a de que o governo de esquerda fecharia igrejas evangélicas, criaria banheiros públicos unissex, que professores ensinariam crianças a fazer opção sexual, entre outras asneiras.
Agora, o bolsonarismo e a extrema direita brasileira plantaram na cabeça de autoridades dos Estados Unidos, incluído o presidente Donald Trump, que o Brasil vive sob um regime ditatorial e que o governo viola os direitos humanos de cidadãos brasileiros. Mais uma mentira.
Em resposta, Trump publicou uma “carta” ao presidente Lula no X em que anunciou uma tarifação de 50% a todos os produtos brasileiros. A justificativa número 1 foi que o Supremo Tribunal Federal viola os direitos e liberdade do ex-presidente da República Jair Bolsonaro. A justificativa secundária foi que havia um déficit na balança comercial dos EUA em relação ao Brasil.
As duas justificativas são mentirosas. Jair Bolsonaro está sendo julgado em uma ação penal sob a acusação de chefiar uma tentativa de golpe de estado, por não concordar com o resultado da eleição presidencial de 2022. Sobre a balança comercial, é justamente o contrário: o déficit na balança comercial existe, mas é para o lado do Brasil.
Agora, o governo de Donald Trumo produziu e divulgou um relatório sobre violações dos direitos humanos, em que, mais uma vez, mira o Brasil e o Judiciário brasileiro. Diz o documento que “o governo minou o debate democrático ao restringir o acesso a conteúdo online considerado antidemocrático, suprimindo desproporcionalmente o discurso de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, bem como de jornalistas e políticos eleitos, muitas vezes em processos secretos sem as garantias do devido processo legal.”
Não há processos secretos, e o governo não minou ou restringiu a acesso a conteúdo considerado antidemocrático. As mentiras e os ataques à democracia brasileira continuam a povoar o ambiente virtual pela extrema direita. O que o Judiciário – não o governo – restringiu foram os conteúdos que cruzam a linha que separa a crítica do crime. O STF tem punido os criminosos, não os críticos.
No centro de toda o imbróglio envolvendo os Estados Unidos e o Brasil está uma família, a do ex-presidente Jair Bolsonaro, que desde a eleição de 2018 tem atuado contra a defesa dos direitos humanos de cidadãos brasileiros, e agora recorre a essa retórica para tentar livrar o chefe da família da prisão.
Ao contrário do que diz o presidente dos Estados Unidos e seus auxiliares, Bolsonaro não teve até aqui cerceamento do direito de defesa. O que ele não tem conseguido é convencer as autoridades do Judiciário de que é inocente. Mas o que tem chegado aos ouvidos do presidente Trump é a mentira que o filho Eduardo Bolsonaro tem criado sobre o julgamento da tentativa de golpe de Estado.

