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Variedades

‘À Beira-Mar’, de Jolie, recupera mal-estar do pós-guerra

2 de dezembro de 2015 Variedades
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cena-do-filme-a-beira-mar-de-angelina-jolie Foto Divulgação
Film é trabalho de inspiração europeia da atriz e cineasta norte-americana, uma das figuras mais conhecidas do show bis global (Foto: Divulgação)

HOLLYWOOD – À Beira-Mar é um filme em família. Dirigido e interpretado por Angelina Jolie, que contracena com o marido Brad Pitt, é também um tanto retrô. E, talvez, seja essa a característica que o faz agradável. É, também, um trabalho de inspiração europeia da atriz e cineasta norte-americana, uma das figuras mais conhecidas do show bis global.

O que temos então nesse espécime de cinema híbrido? Em primeiro lugar, a acomodação das locações a uma encantadora e pequena Malta. É para lá que se dirige o casal em crise. Ele, Roland, um escritor em baixa de produção e chegado ao álcool. Ela, Vanessa, uma ex-bailarina entediada, que não encontra sentido na vida atual. Eles têm dinheiro, chegam ao vilarejo num bonito carro, se hospedam em hotel charmoso, num apartamento cheio de espaço com vista maravilhosa para o mar (sim, aquele azul do Mediterrâneo). De que se queixam?

Nesse aspecto, e até mesmo na maneira como é filmado, À Beira-Mar lembra aqueles dramas europeus dos anos 1960, quando, em clima de tédio existencialista, casais ricos se dilaceravam num aborrecimento sem causa aparente. Todos eram ricos e bonitos. Todos eram amargos e infelizes. Aquilo fazia parte de uma época. O após-guerra e o início da Guerra Fria, o temor do apocalipse nuclear, o ingresso na vida moderna (o consumismo), sem qualquer garantia de que aquilo iria durar mais que o tempo de um sonho. O começo da falência das grandes narrativas políticas, a sensação de que se podia ter tudo e, ao mesmo tempo esse tudo significar nada. No limite, esse ambiente um tanto tóxico produziu obras-primas como A Doce Vida, de Federico Fellini, e a assim chamada Trilogia da Incomunicabilidade (A Aventura, A Noite, O Eclipse), de Michelangelo Antonioni.

Mas estamos falando de Angelina Jolie e não de Antonioni ou Fellini. Sem qualquer intenção depreciativa, é preciso guardar limites e distâncias. Ou, como diria um famoso comentarista esportivo, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Desse modo, pode-se suspeitar que a boa intenção de Jolie seja estabelecer um elo com essa grande corrente existencialista. Embora seu filme seja de época, com os pés no passado, talvez veja algum paralelismo entre aquele tempo e o nosso, tão diferente daquele, mas tão desesperançado quanto ele. Nesse sentido, seu comentário é, como diríamos, “válido”, estabelecendo pontes entre dois períodos distintos do tédio humano.

E o filme, de fato, tem qualidades. Uma fotografia expressiva, de luz mediterrânea. O respeito ao idioma alheio, coisa não muito comum na pasteurizada indústria cinematográfica norte-americana, que toma o inglês como língua universal, até mesmo na Roma Antiga. Há também um interessante trabalho com o tempo de filmagem. Trabalha-se com planos longos, detalhados, a contrapelo da inútil e alienada pressa contemporânea. Acompanha-se a duração dos gestos e das falas dos personagens, que não são cortadas ou resumidas por causa de síntese econômica. O que dá ao longa um ritmo sereno, embora as paixões submersas dos personagens nada tenham de calmas. Em especial, quando a dupla Jolie-Pitt conhece um casal recém-casado, que vem ao hotel passar a lua de mel e produz ruídos do amor não contidos pelas paredes do edifício. Estabelece-se um processo de voyeurismo e contaminação erótica entre os dois pares, num interessante subtexto da trama.

A dificuldade é sustentar esse mood para baixo o tempo todo. E, em especial, tentar depois explicá-lo com base em uma causa natural. A partir de certo tempo, as insinuações começam a ser enunciadas e levantam a lebre: o que teria acontecido a este casal tão formidável para manifestar tamanho baixo-astral? Essa é uma diferença fundamental entre um filme europeu de cepa e este, norte-americano, que procura respirar um ar de Europa. Os personagens de Fellini e Antonioni, assim como os de Bergman ou Visconti, não precisam explicar seu mal-estar por alguma ocorrência em particular. A angústia faz parte do todo, seria constituinte da própria civilização neste estágio, como já havia diagnosticado um senhor de nome Sigmund Freud.

A utopia americana é que haja uma causa bem localizada para a infelicidade. Extirpada ou tratada, ela deixaria de operar, abrindo então caminho para a felicidade. Já o espírito trágico europeu conclui que as coisas não são tão simples. Desse modo, o fundamento deste filme tão bem construído e esteticamente bonito parece de certa forma frágil. Há nele uma ingenuidade de base.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Estadão Conteúdo/ATUAL)

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Assuntos angelina jolie, brad pitt, cinema
Valmir Lima 2 de dezembro de 2015
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