

Por Teófilo Benarrós de Mesquita, especial para o ATUAL
MANAUS – O título de Padroeira do Brasil, concedido a Nossa Senhora Aparecida pelo Vaticano em 1930 e oficializado por lei federal do governo brasileiro em 1980, dominou o debate das eleições presidenciais na última semana de campanha. Embora a origem da polêmica tenha sido uma falsa notícia que a titulação estivesse sob ameaça, a discussão do tema chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
A controvérsia saiu do campo político e jurídico e passou ao embate religioso. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) se manifestou contra ataques à Nossa Senhora Aparecida, em redes sociais e em igrejas católicas. A parcela evangélica, principalmente a neopentecostalista, aumentou o grau de acirramento contra os católicos brasileiros.
Para Marcelo Bastos Seráfico de Assis Carvalho, sociólogo e professor do departamento de Ciências Sociais da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) “as igrejas tornaram-se potentes agentes políticos” e apelam para a “manipulação ideológica feita a partir da religiosidade”.
A opinião é corroborada por Luiz Antônio Nascimento de Souza, também sociológo e professor do departamento de Ciências Sociais da Ufam, para quem existe uma diferença entre católicos e protesante na orientação e no agir.
De acordo com números do Censo 2022, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população católica no Brasil é estimada em 100,2 milhões de pessoas (56,7%) e os evangélicos/protestantes somam 47,4 milhões de pessoas (26.9%). Em relação ao levantamento anterior, de 2010, os católicos recuaram 8,3%, pois antes representavam 65% da população. Os evangélicos/protestantes cresceram 5,2% (eram 21,7%).

Influência política
O crescimento e a influência política exercidas pelas igrejas evangélicas, ainda que com diferenças de forma e aplicação, são reconhecidas por Seráfico e Luiz Antônio.
“Temos um problema importante. Claro que nas eleições, não só as nacionais, mas as locais também, sempre tiveram a presença das igrejas. A diferença é que em um debate público, a igreja católica sempre chamou para o voto responsável, para o voto ético. A igreja muito raramente indicou nomes. Ela sempre chamou sua base religiosa para pensar eticamente, a partir de valores, como por exemplo a preservação da Amazônia, a preservação da vida, o respeito às diferenças…”, diz Luiz Antônio.
“As igrejas converteram-se em entidades que além de prestar assistência social, promovem determinadas visões de mundo que, no caso das neopentecostais, se relacionam às teologias da prosperidade e do domínio, que, longe de promover uma compreensão crítica acerca da realidade decorrente da precarização, ajustam as subjetividades a ela”, opina Seráfico.
Seráfico e Luiz Antônio citam que essa tensão religiosa com viés político tornou-se mais forte no Brasil na virada do século. “O que tem ocorrido nos últimos 15, 20 anos, de uma forma mais intensa, e sobretudo nos últimos anos de uma forma radical, é a ocorrência de um fundamentalismo neopentecostal”, diz Luiz Antônio.
“As igrejas, de modo muito particular as neopentecostais, converteram-se em importantes instituições de apoio a parcelas significativas da sociedade cujas vidas vem sendo precarizadas ao longo dos últimos 30 anos”, afirma Seráfico.
A exploração do pobre pela fé, segundo Seráfico, “decorre dos constrangimentos orçamentários impostos pelo compromisso das classes dominantes dentro e fora do Estado nacional com a manutenção do tripé macroeconômico e o consequente sequestro do orçamento público pelos agentes financeiros”.
Luiz Antônio menciona outra característica usada pelo neopentecostalismo nas últimas décadas, que consiste em “não só fazer campanha dentro dos templos religiosos, mas também apresentar os líderes religiosos como candidatos ou indicando candidatura ‘abençoadas’ por eles, com discursos de natureza autoritária e violenta”.
Nessa realidade, afirma Luiz Antônio, “a mentira tem sido uma estratégia de difusão desse debate político, onde aqueles que antes eram adversários se tornam inimigos, inimigos de Deus… Então esse debate já autoriza essas lideranças religiosas a atacar inclusive pessoalmente ditos ‘inimigos de Deus’.”
Luiz Antônio teme que a expansão do acirramento religioso-político coloque em risco a democracia brasileira. “Essa correia de transmissão desse neopentecostalismo fundamentalista ameaça a democracia brasileira, ameaça o futuro do Brasil”.
Manipulação
Seráfico afirma ser difícil mensurar o “peso da religiosidade no voto do eleitor sem uma pesquisa empírica”. Mas ressalta que “toda e qualquer pregação religiosa lida com questões do espírito e da matéria e está carregada de política”.
“O problema está no tipo de pregação que faz da religião e da religiosidade de quem crê, objeto de manipulação da vontade, do interesse do pregador”, diz Seráfico. “Nesses casos, não se está diante de uma questão propriamente religiosa, mas sim de clara manipulação ideológica feita a partir da religiosidade alheia”, acrescenta.
Para Marcelo Seráfico a questão vai além do embate ideológico entre esquerda e direita. “Desconfio da hipótese da polarização política entre esquerda e direita. Talvez possamos falar de um profundo conflito ideológico entre grupos defensores”, diz
“De um lado, um ultraneoliberalismo autoritário, com nuances fascistas, e, de outro, de um neoliberalismo progressista, que defende a manutenção de instituições democráticas e algumas políticas focais, a despeito de a economia do país se manter subordinada aos interesses dos agentes financeiros e do agro, principalmente”, compara Seráfico.
Perigos
Além de ameça à democracia e ao futuro do Brasil, Luiz Antônio também teme pela integridade física dos que não concordam com a corrente de pensamento religioso que tem avançado no país.
“A gente corre um risco enorme do Brasil entrar em uma espécie de Afeganização, onde todos aqueles que não comungam com esse neopentecostalismo fundamentalíssimo evangélico serão sujeitos a violência desse grupo. Porque, afinal de contas ele se sente ‘autorizado por Deus'”, alerta.
“Temos acompanhado recentemente esse dabate sobre a ameaça que o grupo do Flávio Bolsonaro fez a Nossa Senhora Aparecida e, depois desse debate iniciado, já tem dois ou três casos de ataques religiosos, de ataque à igreja, de ataque à Santa. No litoral paulista uma imagem de uma entidade foi incendiada”, conclui Luiz Antônio.
