
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS — A crise climática é citada no caderno de propostas de todos os candidatos ao governo nos estados amazônicos. Entre as medidas para enfrentar as mudanças climáticas, eles prometem a recuperação de áreas degradadas, arborização urbana, incentivo à bioeconomia, obras de drenagem, programas de desassoreamento de rios, saneamento básico, zoneamento ecológico e a criação de planos para enfrentar estiagens, enchentes e outros eventos climáticos extremos.
Na maior floresta tropical do mundo, as políticas públicas aparecem quando o desequilíbrio climático já afeta diferentes partes do planeta. Em Manaus, a população sofre com secas extremas, desastres e ondas de calor. Segundo o IBGE, a cidade tem um dos piores índices de arborização urbana (44,8%) e mais da metade da população (67,6%) não tem acesso à rede de esgoto. A capital do Amazonas também se destaca pela alta concentração de áreas de risco, onde, conforme o Serviço Geológico do Brasil, vivem cerca de 112 mil pessoas.
Os estados amazônicos falham na preservação da floresta, na gestão de resíduos sólidos, no acesso a saneamento básico e no combate a crimes ambientais. São fatores que pioram e aceleram os efeitos climáticos. De acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais), Pará e Mato Grosso concentram a maior pressão sobre a floresta amazônica. Em 2025, juntos, esses estados responderam por 64% do desmatamento registrado pelo Prodes na Amazônia Legal.
Em relação ao saneamento básico, o Instituto Trata Brasil mostra que, em 2025, cinco das sete capitais da Região Norte ficaram entre as últimas posições do ranking nacional em saneamento básico: Manaus (87ª), Belém (95ª), Rio Branco (97ª), Macapá (98ª) e Porto Velho (99ª).
Planejamento com participação
Para especialistas, melhorar esses indicadores e reduzir a vulnerabilidade da população depende de planejamento territorial e de políticas públicas capazes de transformar as propostas de governo em ações permanentes. Doutora em geografia, a professora da UFRR (Universidade Federal de Roraima) Altiva Barbosa da Silva explica que o planejamento deve ter participação da sociedade e cita a importância de olhar para as áreas ambientais degradadas. Dessa forma, será possível entender a estrutura das áreas e a situação das pessoas mais afetadas.
“Tudo passa pela gestão democrática enquanto diretriz geral da política urbana. Uma cidade com gestão participativa e democrática precisa ter um Conselho de Meio Ambiente que realmente funcione. Em Boa Vista, por exemplo, temos situação em que o poder público contribui para diminuição das áreas verdes e até mesmo para ocupação depredatórias ao meio ambiente em áreas de fragilidade ambiental. Portanto, é absolutamente urgente definir a obrigatoriedade de áreas verdes nas ruas da cidade”, disse a professora.
A especialista defende que os órgãos trabalhem de forma integrada para combater os efeitos das mudanças climáticas que atingem, principalmente, as áreas periféricas das cidades. “A combinação de concreto, pouca arborização, moradias com baixa ventilação e falta de planejamento urbano transforma o calor em um problema real de saúde pública: mais desidratação, piora de doenças crônicas, perda de produtividade e risco maior de mortes em ondas de calor”, disse.
“Em relação à ocupação de áreas de risco e pouca arborização, é um problema estrutural e está ligado a ausência da população no planejamento da cidade que fica à mercê, em muitos casos, dos interesses de grupos que se mantêm no poder, que elegem seus parceiros do crime, que bancam suas eleições, que se elegem com os recursos da corrupção que mantém”, acrescentou a professora sobre as propostas elencadas nos planos de governo que, segundo ela, estão sob sistemas de corrupção e dependem de interesse político.

Do estudo à ação
Para que o sonho de cidades sustentáveis se torne realidade, as medidas, inclusive aquelas que existem no papel, devem se tornar ações. O enfrentamento às mudanças climáticas exige atenção aos impactos da urbanização, como degradação de rios e igarapés, moradias de risco e desmatamento de vegetação originária. O diretor do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) afirma que apesar de existirem estudos que ajudam o poder público na tomada de decisões, o maior desafio é aguardar os governantes transformarem esses estudos em programas ou ações permanentes.
“O Inpa investe em divulgação e popularização da ciência, transferência de tecnologias e diálogo com governos, comunidades e sociedade. Não basta plantar árvores; é preciso criar condições para que elas existam, seu cultivo e condições adequado, garantindo espaço adequado nas calçadas, integrando a arborização ao desenho urbano e superando um modelo de expansão urbana que, historicamente, pouco considerou a natureza como parte da infraestrutura da cidade. Em Manaus, por exemplo, a urbanização sem planejamento aumenta as ilhas de calor, eleva as temperaturas e reduz a capacidade de se enfrentar ondas de calor e chuvas extremas”, disse Henrique Pereira.
O professor José Francisco, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), chama atenção para a diferença entre ter planos e efetivamente incorporá-los às decisões dos governos. “O desafio não é simplesmente criar mais um plano climático, mas incorporar o componente climático no planejamento: nos planos diretores, planos de saneamento, planos de mobilidade, planejamento habitacional, licenciamento, orçamento público e decisões de infraestrutura”, disse.
“No Amapá, por exemplo, isso significa investir em drenagem urbana, abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos, recuperação de áreas de risco, estradas e sistemas de energia capazes de funcionar sob condições climáticas adversas”, acrescentou o professor.
Ação após desastre
É, geralmente, após um episódio de desastre ambiental que os governos costumam criar mecanismos pontuais de enfrentamento às mudanças climáticas. A professora da Ufac (Universidade Federal do Acre) Sonaira Sousa da Silva observa que os estados não têm conseguido acompanhar a velocidade dos eventos da natureza, que passam a ocorrem em intervalos menores, dificultando a criação de estratégias duradouras.
“A gente já viu várias secas e vários incêndios ocorrendo na Amazônia, e que, por conta de grandes eventos catastróficos, houve uma mobilização social e, com isso, dos governos. A gente teve a última grande seca em 2016, depois a gente teve a crise em 2019, depois 2022. Então, antes a gente tinha um intervalo de quatro anos, agora a gente tem um intervalo de dois anos. Os governos estão se mobilizando, mas ainda em uma política de ‘apagar fogo’, que é de adaptação”, disse Sonaira.
“A gente precisa se reconectar com a natureza e entender que ela não é infinita, mas que ela precisa ter tempo para se recuperar. As pessoas ainda continuam vendo a natureza como uma fonte de recursos que a gente pode explorar em próprio benefício. Enquanto a gente não entender como sociedade mundial a importância da nossa sobrevivência e que a gente precisa da natureza em pé e sadia para a gente sobreviver com qualidade, a gente vai continuar seguindo nesse caminho de falta de resiliência e adaptação”, alertou.
