
Do ATUAL
MANAUS — A Polícia Militar do Amazonas tem mais que o dobro de sargentos em relação ao número de soldados na ativa. Dos 8.646 policiais militares em atividade no estado, 3.445 são sargentos e 1.403 são soldados, que integram a base operacional da corporação. Os dados constam no relatório Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, divulgado nesta quarta-feira (5) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A diferença também aparece quando considerados soldados e cabos, graduações que formam a base da carreira. Juntos, esses dois grupos somam 3.274 policiais (1.403 soldados e 1.871 cabos), número inferior ao de sargentos (3.445). Para o Fórum, esse tipo de composição está relacionado ao chamado “achatamento da pirâmide hierárquica”, fenômeno associado ao crescimento dos postos intermediários em relação à base operacional.
O estudo revela que o Amazonas acompanha uma anomalia verificada em 13 unidades da Federação, em que a quantidade de sargentos supera a soma de soldados e cabos. No panorama nacional, a Polícia Militar contabiliza 129.402 sargentos para 117.142 soldados na ativa, desequilibrando a execução do patrulhamento ostensivo.
“Há mais profissionais em uma posição intermediária de comando e supervisão do que na base da execução operacional, responsável pelo policiamento ostensivo direto. Essa distorção pode comprometer a lógica organizacional da corporação e tem o potencial de pressionar a capacidade de comando, encarecer a estrutura de pessoal e reduzir a eficiência da atividade-fim”, afirma o Fórum no relatório.
O desequilíbrio na composição da tropa é apontado pelo levantamento como um reflexo direto do crescimento dos postos intermediários, enquanto a base operacional não acompanha a reposição necessária.
O estudo cita que “tal fenômeno decorre, em grande medida, da combinação entre mecanismos de promoção automática por antiguidade, déficit crônico de concursos para o ingresso na base operacional e alongamento da expectativa de carreira”, fatores que, segundo o relatório, provocam “o esvaziamento progressivo do posto de Soldado em favor dos escalões intermediários”.
A análise utiliza como referência estudos de autores como Luiz Eduardo Soares, Jacqueline Muniz e Bengochea, que apontam impactos desse modelo sobre a capacidade operacional das polícias. Entre os problemas citados estão o aumento do custo da folha sem crescimento proporcional do efetivo nas ruas, a redução da presença ostensiva e a dificuldade de renovação institucional.
O relatório também cita que a estrutura brasileira se distancia do modelo observado em países desenvolvidos. Segundo o estudo, enquanto polícias estrangeiras mantêm a base operacional representando entre 60% e 70% do efetivo, o Brasil tinha apenas 28,9% do quadro formado por essa categoria em 2025.
Remuneração média
Com remuneração média bruta de R$ 12.192,30 na Polícia Militar, a 7ª maior do país e acima da média nacional de R$ 10.329,61, os dados mostram uma diferença expressiva entre os salários pagos aos policiais da base e aos oficiais de alta patente no Amazonas.
Entre os soldados, porta de entrada da corporação, o estado registra remuneração bruta média de R$ 7.435,29. O valor supera a média nacional da categoria (R$ 7.021,38), mas fica distante do Ceará, que lidera o ranking com R$ 11.609,65. Ainda assim, o soldo amazonense supera o pago em estados como Rio Grande do Norte (R$ 4.276,43), Piauí (R$ 5.103,10) e Paraíba (R$ 5.180,30).
À medida que a carreira avança, os vencimentos crescem significativamente. No Amazonas, a remuneração média é de R$ 9.544,35 para cabos, R$ 11.411,86 para sargentos, R$ 12.897,21 para subtenentes, R$ 17.253,93 para tenentes, R$ 24.638,47 para capitães, R$ 32.829,86 para majores, R$ 36.421,07 para tenentes-coronéis e R$ 39.812,63 para coronéis.
Nas patentes mais elevadas, o estado figura no topo dos salários do país. Os coronéis do Amazonas recebem, em média, R$ 39.812,63, ocupando a 4ª posição nacional, atrás apenas do Paraná (R$ 42.363,77), Goiás (R$ 40.963,08) e Mato Grosso (R$ 40.935,94). Entre os tenentes-coronéis, o Amazonas aparece no 3º lugar dos maiores vencimentos, atrás do Paraná (R$ 39.474,88) e do Mato Grosso (R$ 37.630,53). Já entre os majores, também figura na 3ª posição do país, superado por Goiás e Paraná.
O relatório ressalta que essa diferença acompanha a própria estrutura hierárquica das Polícias Militares brasileiras. “O dado revela que a média geral da PM mascara uma forte desigualdade interna: dentro da Polícia Militar, convivem a carreira mais bem remunerada e a carreira com a pior remuneração entre as forças de segurança pública”, cita trecho do estudo.
Segundo o estudo, essa estrutura ajuda a explicar o impacto sobre as contas públicas e a gestão das corporações, uma vez que “quanto mais alto o posto, maior a remuneração. Ou seja, a hierarquia não se sustenta plenamente na distribuição de pessoal, mas se mantém rigorosamente na estrutura salarial”. E completa: “esse descompasso produz impactos diretos sobre a folha de pagamento e torna a discussão sobre eficiência administrativa e sustentabilidade fiscal da estrutura da Polícia Militar ainda mais relevante”.
