
MANAUS – A mediação realizada pelo mercado, muito característica do debate público brasileiro, tem levado a conclusões que apontam a necessidade de constante lucro nas ações que são tomadas pela sociedade, tanto na esfera privada como na vida pública. Assim, os ambientes urbanos nacionais têm se transformado em áreas frequentemente abandonadas, quando não há o elemento mercantil. O espaço tem sido abandonado, com lixo, calçadas descuidadas ou ausentes e um serviço sofrível de transporte público.
Vivemos nas cidades e os novos setores de atividades que são criados, como a distribuição de internet ou televisão por cabo tem espalhado estruturas de fios embolados nos postes de todos os lugares. Os espaços já eram mercadorias da indústria da construção civil e agora temos um espaço público de calçadas abandonadas ou ausentes e o transporte público que não evolui em sua perspectiva da mobilidade urbana, salvo em raras exceções.
Os olhares não são para as vocações ou para as oportunidades e, mesmo assim, a produtividade nacional não parece avançar. Em paralelo ao cenário, a produção de motocicletas segue em disparada. Já são mais de 2 milhões de motocicletas produzidas ao ano, quando eram cerca de 1,2 milhões em 2021. Temos certamente motivos para celebrar o crescimento da produção industrial deste produto. Todavia, precisamos também considerar a precarização do transporte e da mobilidade urbana.
Desde 2025 já se emplacam mais motocicletas do que automóveis no Brasil. Em 2019 era menos da metade dos automóveis. Esta modificação se dá por uma soma de fatores, como fácil alternativa para a mobilidade ágil, ferramenta de trabalho, facilidade de acesso ao crédito ou a economia de combustível por quilômetro. Esta mudança da dinâmica do movimento urbano precisará ser considerada, pois as cidades começam a ter uma mudança estrutural na forma como o movimento urbano acontece, com um desrespeito crescente nas regras básicas do trânsito, como sentido das vias, velocidade ou a exclusividade das calçadas para os pedestres.
Há uma crise urbana nas cidades e as motocicletas são um dos sinalizadores da crise. O movimento urbano não ganhou a agilidade da Internet ou da economia dos empregos por aplicativos. O espaço urbano, como um ambiente civilizado, vem sendo degradado, pois os municípios têm feito um caminho na direção oposta ao cidadão, apesar dos esforços reguladores dos marcos da mobilidade urbana. O olhar central segue distante do cidadão e da mobilidade ativa, onde predomina o movimento a pé ou por bicicleta, salvo em raras exceções. A pressa é a norma e, para isso, a moto é uma das saídas.
Precisamos encontrar novamente o espaço público como um espaço para as pessoas, sob o risco de perdermos as conquistas civilizatórias que já tivemos. As cidades que se reproduzem por uma ótica unicamente voltada para os interesses do capital vão seguir a produzir periferias sem Estado e cheias de conflitos, onde as regras civilizatórias se perdem.
A mobilidade ativa e o espaço público para uma vida em sociedade poderiam voltar para o centro do debate na eleição presidencial ou dos governos estaduais, mas a opção é um afastamento das pautas nacionais e dos cidadãos e uma volta para questões de amor e ódio.
Precisamos nos reencontrar com o mundo que nos cerca, pois vivemos mais no ambiente real do que no virtual, apesar de nem sempre termos esta sensação mental.
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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