
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – Foi durante o horário de recreio na escola estadual Suzana de Jesus Azedo, em Parintins (a 369 quilômetros de Manaus), que o professor Antônio Pinto, de 42 anos, enfrentou um episódio de violência que marcou sua trajetória profissional. Ao chamar a atenção de um aluno de 15 anos, Antônio foi desmoralizado e ameaçado de morte. O caso aconteceu em abril deste ano. Assustado, o professor precisou registrar a ocorrência na delegacia.
“Uma aluna veio me chamar para dizer que um colega estava jogando papel dobrado no elástico contra ela e que o papel quase acertou o seu olho. Quando fui chamar a atenção desse colega, ele disse que eu não mandava nele, que ele fazia o que queria naquela escola. Ele disse que se eu me metesse com ele, ele iria me matar, que ele era de ‘galera’ e que já havia feito isso outras vezes com uma pessoa que mexeu com ele”, contou Antônio, que é professor há 10 anos e leciona as disciplinas de arte e ensino religioso.
O professor disse que a família do adolescente foi chamada na escola e que a mãe do aluno relatou que não tinha controle sobre ele. Também contou que o filho passava dias fora de casa. A situação abalou o psicológico do professor, que chegou a pensar em mudar de escola.
“Devido muita insistência minha, a escola fez o desligamento do aluno, pois eu não me sentia seguro com ele ali. Foram feitos os procedimentos e ele foi transferido. Durante um bom tempo, eu saía com muito receio de casa e evitava locais públicos. Não sabia se ele poderia me atacar por aí. Tinha medo de ir para a escola porque temia pela minha segurança”, disse.
A violência no ambiente escolar atinge professores em todo o Brasil. No início deste mês, um caso que ganhou repercussão nacional foi o de uma professora da rede municipal de São José dos Campos (SP). Ela denunciou nas redes sociais que alunos teriam colocado uma lâmina de vidro no copo com água dela.
Um levantamento do Centro do Professorado Paulista (CPP) apontou que, em 2025, seis em cada dez professores (65,6%) já sofreram algum tipo de agressão no exercício da profissão. A violência verbal foi a mais recorrente, citada por sete em cada dez docentes (71,3%), enquanto cerca de dois em cada dez (19,3%) relataram já ter sido vítimas de agressão física. O estudo também mostrou que três em cada quatro professores (74,4%) não se sentem seguros dentro das escolas.
Mau exemplo da família
A professora amazonense Selma de Oliveira relata que, constantemente, se depara com situações como essas em sala de aula. Uma delas aconteceu em 2024 na escola estadual Balbina Mestrinho, em Urucará (distante 270 quilômetros de Manaus). A professora, que leciona a disciplina de geografia, conta que, ao chamar a atenção de uma aluna por não ter entregado a atividade, foi agredida pela mãe da adolescente.
“A aluna chegou na casa dela e contou para a mãe, que foi à escola no dia seguinte. Quando a gestora me chamou para saber o que havia ocorrido e eu comecei a falar, a mãe da menina começou a proferir vários palavrões e, em seguida, me arremessou um copo de vidro. Foi preciso o secretário intervir e eu fiquei muito nervosa”, disse Selma.
A professora sofreu uma onda de ataques virtuais e registrou ocorrência na delegacia. A mãe da aluna foi proibida de entrar na escola, mas, para Selma, o medo permaneceu por meses.
“A família me expôs em rede social e começaram ataques a minha pessoa. Precisei recorrer ao setor psicossocial da Secretaria de Estado de Educação do Amazonas. Não tive apoio da escola onde eu atuava. Pedi para me trocarem da turma e nem isso fizeram. Me senti com medo e invalidada pela instituição”, disse a professora.
Formas de violência
Para o professor da Unifap (Universidade Federal do Amapá) Alexandre Alberto Pereira, muitos casos de violência contra docentes têm motivação política e são influenciados por fatores sociais ligados a processos de opressão e violação de direitos humanos. Ele destaca que as ações de intimidação acontecem de diferentes maneiras, como em agressões verbais, arranhões em bens materiais dos docentes ou de forma sutil.
“Nós, como professores, precisamos trabalhar esse tipo de conscientização das várias formas de violência que a gente recebe da sociedade. É importante notar que a questão da violência ocorre nas escolas de várias maneiras, que vão desde atitudes extremas, como violência física, mas também é relevante pensar nas violências que estão subentendidas e que geram diversos processos de adoecimento. Isso inclui os casos de violência institucional também, como assédio, racismo, homofobia e transfobia”, disse Alexandre, que é doutor em educação.
Os professores percebem que comportamentos agressivos se intensificaram entre alunos da educação básica, com atitudes que desrespeitam a autoridade da sala de aula e geram efeitos na vida pessoal do docente. Há relatos de falta de apoio, desmotivação na carreira e a transferência de responsabilidades entre família e escola.
“Os alunos, de uns seis anos para cá, vêm perdendo o respeito por nós professores, que até então éramos considerados autoridades dentro da escola. Falam palavras de diferentes formas. Nos agridem com palavrões, insultos, faltam com respeito e, simplesmente, não fazem as atividades. Eles querem dormir durante as aulas”, disse o professor Antônio Pinto.
“Os pais nos veem como cuidadores de seus filhos, porém quando precisamos de ajuda da família, eles não dão o suporte necessário. E ainda pensam que o professor está de perseguição com seus filhos. Está cada vez mais difícil trabalhar nas escolas”, acrescentou Antônio.
Desrespeito e deboche
A professora Shirley Maria Silva Nogueira, da escola estadual Dr. Isaac Sverner, em Manaus, explica que muitos estudantes agem com desrespeito e intolerância inclusive com os conteúdos ministrados em sala de aula. A professora conta que, ao exibir um documentário relacionado à cultura afro-brasileira durante uma aula sobre colonização, ouviu comentários de deboche contra as tradições africanas.
“Para falar de cultura afro-brasileira, apresento o documentário ‘Nas rotas do Orixás’, não só porque sou umbandista, e todos sabem, mas, como é dito no documentário, é nessas religiões onde mais vemos a ligação entre a África e Brasil. Eu fiquei chocada, pois acreditava que todos esses anos de discurso contra o racismo promovido pela redemocratização do país, o racismo e a intolerância religiosa já fosse menor, principalmente entre os jovens. Não posso negar que muitos fizeram seus resumos elevando a cultura africana e a importância deles para o país. Mas um chamou os africanos de ‘porcos’”, disse a professora.
O professor Alexandre Alberto, da UNIFAP, alerta para a necessidade de criação de políticas de combate ao assédio moral, ações de participação democrática e de valorização da carreira docente.
“É importante pensarmos em uma política pública de combate ao assédio e de conscientização como um todo, incluindo a comunidade escolar, sobre a desnaturalização dos processos de opressão de gênero, raça, classe e diversidade sexual. Penso que uma política pública deve ser ação prioritária por parte do Estado e do Município para a construção não só de uma escola mais acolhedora, humanizada e livre, mas da sociedade como um todo”, disse Alexandre.
O professor da UFAC (Universidade Federal do Acre) Antônio Igo Barreto Pereira afirma que a escola passou a refletir conflitos presentes na sociedade e que muitos profissionais trabalham sem o suporte necessário para prevenir e mediar esses conflitos. Ele defende o investimento em políticas permanentes de prevenção à violência, formação continuada de professores, criação de programas de educação socioemocional e participação das famílias.
“Essas situações podem gerar adoecimento, afastamentos, desmotivação e sentimento de insegurança. Em muitos casos, os docentes enfrentam essas dificuldades com pouco apoio institucional, o que reforça a necessidade de equipes preparadas para acolher e intervir nos conflitos. Combater esse problema exige ações contínuas de formação, fortalecimento dos vínculos, participação das famílias e políticas públicas voltadas à promoção da convivência e da cultura de paz”, disse Antônio Igo, que é doutor em educação pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e desenvolve pesquisas e ações de formação de professores sobre convivência e violência nas escolas.
O ATUAL procurou a Secretaria de Estado de Educação do Amazonas para saber quais dessas medidas são desenvolvidas nas escolas do estado, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
