Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Posicionamento ideológico deve pesar mais para candidatos da direita, mas não será suficiente para definir o resultado da eleição para governador do Amazonas. Fatores como desempenho na gestão, alianças políticas, liderança pessoal, tempo de propaganda eleitoral e desempenho nas redes sociais também devem influenciar a escolha do eleitor. A avaliação é do cientista político e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Afrânio Soares.
Segundo o analista, outro aspecto que tende a marcar a campanha é o tom do debate entre os candidatos. “Também vai pesar a temperatura dessa eleição. Se vai ser uma campanha de baixaria para um lado, baixaria para o outro, denúncias daqui e dali, como está me parecendo que será. Vai depender da sensibilização do eleitor pelo que for dito sobre o candidato em quem ele pretendia votar”, afirmou.
Até o momento, cinco nomes manifestaram intenção de disputar o Governo do Amazonas: Roberto Cidade (União Brasil), Omar Aziz (PSD), David Almeida (Avante), Maria do Carmo Seffair (PL) e Gilberto Vasconcelos (PSTU). Conforme o calendário eleitoral, os partidos poderão realizar as convenções entre os dias 20 de julho e 5 de agosto.

Como estratégia, parte dos pré-candidatos procura evitar a polarização ideológica e busca ampliar o arco de alianças, inclusive com partidos de esquerda. Na avaliação de Afrânio, a empresária Maria do Carmo é a única que assumiu de forma clara uma identidade ideológica.
“Maria do Carmo é percebida como candidata da direita, apoiada pelo bolsonarismo e, se confirmar a candidatura, provavelmente terá o apoio do senador Flávio Bolsonaro, que disputará a Presidência da República”, disse.
Para o professor, Omar Aziz é o pré-candidato que mais dialoga com o campo da esquerda, principalmente pela proximidade com o governo federal, embora procure adotar um discurso mais amplo.
“O senador procura se colocar, pelo menos em Manaus, fora dessa briga entre direita e esquerda. No interior, ele se posiciona mais próximo do governo federal, o que faz sentido porque o interior é mais lulista e mais à esquerda do que a capital”, afirmou.
Desde 2018, Manaus, que concentra mais da metade dos eleitores do estado, registra maior preferência por candidatos de direita nas eleições presidenciais. Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad na capital tanto no primeiro quanto no segundo turno. No Estado, porém, a disputa foi equilibrada.
Em 2022, Lula venceu Bolsonaro no Amazonas nos dois turnos, mas foi derrotado em Manaus, reforçando a diferença entre o comportamento do eleitorado da capital e do interior.
Na avaliação de Afrânio, esse cenário mudou parcialmente e hoje parte do eleitorado de direita migra para posições mais ao centro. “Manaus continua mais à direita, mas é uma direita não bolsonarista, que está migrando para o centro”, afirmou.
Segundo ele, David Almeida tenta ocupar esse espaço ao apoiar o pré-candidato à Presidência Augusto Cury (Avante). “David Almeida sai dessa briga e entra no que podemos chamar de centrão”, disse.
O mesmo movimento, segundo o analista, é buscado por Roberto Cidade. “Ele já declarou que não importa se é direita ou esquerda, mas quem pode ajudar mais o Amazonas. As portas estão abertas para todos”, afirmou.

Posições políticas
Para Afrânio Soares, assumir uma posição ideológica muito definida pode limitar a capacidade de um candidato dialogar com diferentes segmentos do eleitorado. “O problema de ser de direita ou de esquerda é que, quando você assume essa posição, acaba fechando um pouco a porta para quem não gosta daquela ideologia”, afirmou.
Segundo ele, isso também dificulta a defesa de propostas tradicionalmente associadas ao campo político oposto. “Projetos sociais, por exemplo, historicamente são uma pauta da esquerda e muitas vezes encontram resistência na direita. Quem está mais ao centro consegue enxergar aspectos positivos dos dois lados e, por isso, evita se posicionar de forma tão rígida.”
Apesar da influência da ideologia, Afrânio avalia que ela pesa mais entre os eleitores identificados com a direita. “No caso da professora Maria do Carmo, um eventual apoio de nomes como Flávio Bolsonaro ou Nikolas Ferreira pode impulsionar sua candidatura, mas existe um teto para esse crescimento.”
Segundo o professor, a candidata já concentra o eleitorado bolsonarista mais fiel, enquanto parte dos eleitores de direita e de esquerda que não se identificam totalmente com Bolsonaro ou Lula tem migrado para posições mais ao centro.
“O posicionamento ideológico, sozinho, não ganha uma eleição. Gestão, alianças políticas, liderança pessoal, desempenho na campanha, presença nas redes sociais e tempo de propaganda eleitoral são fatores que também podem definir o resultado”, disse Soares.
Perfis diferentes
Afrânio afirma ainda que os pré-candidatos apresentam trajetórias bastante distintas, o que também influenciará a decisão dos eleitores.
Enquanto Maria do Carmo nunca ocupou cargo público, Omar Aziz foi governador e senador. David Almeida já governou o Estado interinamente (após a cassação do ex-governador José Melo) e foi eleito para um segundo mandato como prefeito de Manaus. Roberto Cidade presidiu a Assembleia Legislativa e foi eleito para o mandato tampão de governador do Amazonas.
Segundo o professor, cada segmento do eleitorado tende a valorizar características diferentes. “Experiência não pode ser confundida com velha política, assim como inexperiência não significa ingenuidade. As propostas vão pesar.”
O analista avalia que o histórico dos candidatos terá maior peso entre os eleitores acima de 50 anos, enquanto os mais jovens tendem a observar com mais atenção o desempenho durante a campanha.
“Muito mais do que o que fizeram antes, vai pesar o que eles fizerem durante a campanha, principalmente para os eleitores mais jovens”, afirmou Soares.
