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Economia

Bets estimulam falsa renda extra e geram aumento da dívida dos apostadores

14 de junho de 2026 Economia
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Projeto de lei institui usar parte de dinheiro arrecadado com bets para fundo de segurança pública (Foto: Freepik)
Apostas geram ilusão de renda extra e contribuem para aumentar dívida de apostadores (Foto: Freepik)
Por Márcia De Chiara, do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – As apostas online têm assumido um papel cada vez maior no orçamento de milhões de brasileiros. Em meio ao aperto financeiro, parte da população passou a ver nas bets uma possibilidade para complementar a renda e ajudar nas despesas do mês, transformando uma atividade de alto risco em estratégia de sobrevivência financeira.

O fenômeno acende um alerta sobre o avanço da dependência das apostas, do endividamento (80,6% da população tinha alguma dívida em abril, um recorde) e da vulnerabilidade financeira, especialmente entre as camadas de menor renda. O cenário é preocupante.

Nos últimos meses, com as despesas domésticas mais apertadas por causa do aumento da inflação de alimentos e elevação da inadimplência das famílias, o número de apostadores que buscam no jogo online um rendimento adicional deu um salto.

Em maio deste ano, 35% dos apostadores em bets que viviam na cidade de São Paulo declararam que usavam plataformas online como um plano para aumentar a renda doméstica de maneira rápida, segundo pesquisa da Fecomércio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo). A enquete ouviu 600 apostadores em jogos online.

Trata-se de um aumento de dez pontos porcentuais em relação ao resultado da mesma pesquisa realizada em 2024, quando as bets tinham acabado de ser regulamentadas. Dois anos atrás, 25% dos jogadores informaram que faziam uso das bets para fechar o orçamento doméstico.

O fenômeno é ainda mais pronunciado entre as classes de menor poder aquisitivo. Na população com renda de até dois salários mínimos (R$ 3.242), 40% apostam para elevar o orçamento doméstico, de acordo com a última pesquisa.

Essa fatia cai para 30% nas famílias com rendimentos mensais entre dois e cinco salários mínimos (R$ 3.242 e R$ 8.105) e para 29% no grupo dos que recebem entre cinco e dez salários mínimos (R$ 8.105 e R$ 16.210). Ainda assim, os porcentuais são muito elevados.

A tendência de procurar nas apostas esportivas uma renda extra é confirmada também por estudos qualitativos feitos pela empresa de pesquisas Hibou. Desde agosto do ano passado, foi detectado um movimento de apostadores procurando as bets para solucionar problemas do orçamento doméstico, segundo a sócia e CEO da empresa de pesquisa, Lígia Mello.

“É aquela pessoa que tem hoje R$ 200 e uma conta de R$ 350 para pagar até segunda-feira. Ela pega R$ 50 e aposta, porque acha que vai (ganhar) e conseguir pagar a conta”, exemplifica Lígia.

No passado, um de cada cinco apostadores fazia esse movimento, segundo ela. Nos últimos dez meses, são dois a cada cinco apostadores. E as pessoas têm gastado mais com apostas esportivas a partir dos dias 18 e 20, quando a renda para fazer frente às despesas do mês acaba.

“Temos percebido que o brasileiro está mais instável economicamente nos últimos meses. A inflação realmente está comendo o prato do brasileiro; a roupa, o transporte e o dinheiro não estão chegando até o final do mês. E ele está vendo na aposta esportiva uma forma de tentar fazer esse dinheiro render”, diz Lígia.

Para Kelly Carvalho, assessora econômica da Fecomércio-SP, o movimento de apostar nas bets para completar a renda é preocupante. “É uma falsa percepção de aumento de renda, porque perde-se muito mais. Sabemos que essas plataformas têm algoritmos que fazem questão de não proporcionar ganho sempre de forma consistente”, afirma.

Tanto é que o elevado nível de endividamento da população tem acompanhado o avanço das bets. Estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que o gasto mensal com essas plataformas supera R$ 30 bilhões. E parte dessa cifra está deixando de ir para pagar contas essenciais.

De acordo com a entidade, o acesso excessivo às apostas online tem pressionado o orçamento da população e levou 268 mil famílias à inadimplência severa. Isto é, com atrasos acima de 90 dias no pagamento das contas. Também aumentou o tempo médio de endividamento.

“Parcela cada vez mais significativa da renda familiar, que deveria quitar dívidas ou manter a família abastecida, está sendo direcionada para as plataformas, e o resultado é uma inadimplência muito mais difícil de ser revertida, pois o recurso frequentemente se perde sem gerar patrimônio ou consumo de bens”, diz o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

A correlação entre as apostas online e a inadimplência do consumidor foi confirmada pelo novo programa de renegociação de dívidas do governo, o Desenrola 2.0, lançado recentemente, observa Kelly. De acordo com o programa, quem aderir à renegociação não poderá apostar ou criar cadastros em plataformas de jogos online por 12 meses.

Cresce o desembolso com bets

Outro resultado da pesquisa da Fecomércio-SP que chama atenção diz respeito ao aumento do desembolso com as apostas online. Em 2024, 76% dos apostadores paulistanos gastavam, em média, até R$ 200 por mês com as bets. Neste ano, são 82% que desembolsam mensalmente essa cifra. “É um aumento significativo”, diz Kelly.

A parcela de apostadores que gastavam mais de R$ 500 por mês também cresceu em dois anos, de 8% para 10%, o que sinaliza uma tendência preocupante também.

A economista observa que as bets são facilmente acessíveis por meio das plataformas de redes sociais. Além disso, a expansão do Pix facilitou a adesão aos jogos online. “Hoje é proibido jogar (pagando) com cartão de crédito, mas pode jogar (pagando) com o Pix.”

Outro sinal de alerta revelado pela enquete diz respeito ao uso do dinheiro, caso ele não fosse gasto com as bets. De acordo com a pesquisa, 13% usariam os recursos destinados às bets para comprar comida, 14% para pagar contas domésticas, 7% para comprar itens de vestuário – consumos considerados essenciais – e 26% poupariam os recursos.

Isso sugere, na análise da entidade, que as apostas disputam os espaços antes ocupados pelo consumo tradicional das famílias, como comércio, alimentação, serviços e também a poupança.

No ano passado, por exemplo, as apostas online drenaram R$ 20,7 bilhões da economia da cidade de São Paulo, de acordo com levantamento conjuntural do setor de serviços da Fecomércio-SP feito em parceria com a Secretaria da Fazenda do município de São Paulo.

Esses recursos correspondem a 4% do faturamento total do varejo na capital paulista. Setorialmente, representam 67% da receita real de vendas das lojas de materiais de construção, 13,5% dos supermercados e 44% das farmácias e perfumarias.

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Assuntos apostas esportivas, Bets, destaque, Endividamento, renda extra
Cleber Oliveira 14 de junho de 2026
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