
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — A defesa da advogada Adriana Almeida Lima denominou de “doação” a transferência de R$ 210 mil feita por ela a um motorista do TJAM (Tribunal de Justiça do Amazonas) apontado como “servidor do crime” por vazar informações para a facção criminosa Comando Vermelho. A transferência ocorreu em 2020, no primeiro ano da pandemia de Covid-19.
“Era época de pandemia, muitas pessoas morreram, e ela se solidarizou com o Izaldir [Moreno Barros] e fez essa transferência. É importante rememorar que em 2020 o fórum fechou. Todo mundo ficou remoto. Havia todo aquele temor e ela se sentiu no direito de fazer essa transferência”, disse o advogado Bruno Infante Fonseca, em entrevista ao ATUAL.
Fonseca também alegou “desídia” (negligência, preguiça, desleixo ou má vontade no cumprimento de obrigações) do Ministério Público, por desconsiderar documentos apresentados pela defesa, e acusou a Polícia Civil de fazer “pesca probatória” (busca de provas de forma especulativa). A entrevista está disponível no Youtube.
Na quarta-feira (13), Adriana foi denunciada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do MPAM, por lavagem de dinheiro e organização criminosa. Na mesma denúncia, outros 15 investigados foram denunciados por tráfico e associação para o tráfico de drogas, corrupção e violação de sigilo funcional.
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Para Bruno Fonseca, os fatos atribuídos à Adriana são genéricos. Ele classifica a denúncia como um “absurdo”. “Eu classificaria ela como um absurdo da mais alta perplexidade. Esse processo ficará lembrado pela sequência de injustiças que foram cometidas e que já está começando a ser, ao meu ver, desmascaradas”, afirmou.
“Eles pegam uma informação específica que é a transferência para o Izaldir e simplesmente tornam isso como uma prova derradeira de uma existência de um conluio de vazamento de dados. É até cômico. O Ministério Público e nem o delegado de polícia colocam quais foram os processos que foram vazados”, completou Fonseca.
De acordo com a denúncia, um relatório de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) revelou que ela transferiu R$ 210 mil ao servidor Izaldir Moreno Barros. O servidor, que era motorista de uma desembargadora, é apontado na denúncia como “servidor do crime infiltrado no coração do Poder Judiciário”.
O Ministério Público afirma que Izaldir vendia informações de processos em segredo de justiça para favorecer a facção Comando Vermelho. A advogada, segundo o Gaeco, era responsável por “irrigar” financeiramente o “operador interno” dentro do Tribunal, “garantindo acesso a decisões e informações sigilosas que beneficiavam a cúpula da facção”.
Ao sustentar que a advogada tinha acesso a informações de processos sigilosos, o Ministério Público relatou que, em setembro de 2025, dez dias após a polícia pedir a prisão preventiva de Allan Kleber Bezerra Lima, apontado como líder do grupo criminoso, Adriana apresentou contestação, agindo antes mesmo de manifestação do MP.
Para o Gaeco, a antecipação demonstra que ela tinha acesso a informações sigilosas. “Tal conduta é demonstração inequívoca de acesso privilegiado e ilícito a informações sob sigilo e prova que a facção mantinha o sistema de justiça sob constante monitoramento, antecipando-se aos movimentos do estado para blindar seu líder”, afirma o MP na denúncia.
PIX
Ao ser questionado sobre a transferência feita por Adriana a Izaldir, Bruno Fonseca enfatizou que houve uma doação, ou seja, “transação financeira lícita” entre eles, no contexto de pandemia, em 2020. “As transferências são normais. É o livre direito de exercer, de gozar das faculdades mentais dela”, disse Fonseca.
Para o advogado, a doação do montante é uma ato comum. “Então, há uma narrativa de que esse valor seria ilícito, que a transferência não seria algo normal. Mas, eu particularmente vejo como uma questão normal. Qualquer pessoa hoje pode dispor de seus recurso para a finalidade que bem entender”, afirmou o advogado.

De acordo com Infante, por ter feito essa acusação, o Ministério Público agora deve provar que o dinheiro foi usado para fins ilícitos. “Que o Ministério Público mostre esse ilícito, porque até agora não mostrou. O delegado de polícia, embora tenha se esforçado como nunca para aparecer nos holofotes e outras coisas, ele também não comprovou”, disse Fonseca.
Fonseca também afirma que o Ministério Público, além de não apontar finalidade criminosa, não indicou a origem ilícita do valor. Segundo ele, ao contrário, a defesa apresentou documentos que comprovam que todas as receitas de Adriana em seis anos eram provenientes de sua atuação profissional como advogada e professora.
“Nós inclusive abrimos um incidente para preservar o sigilo bancário e fiscal da professora Adriana. E nós trouxemos essas informações. Da onde era a origem dos R$ 210 mil. A professora Adriana só recebe valores de onde ela trabalha, que é a da Assembleia, do Estado do Amazonas, da Fametro, onde era professora, e dos processos em que ela atua”, disse Fonseca.
“As fontes de pagamentos todas são rastreáveis. Inclusive, você vai ver na denúncia que eles não citam qualquer finalidade criminosa. Eles partem de um conjunto de fatos ocorridos em 2023 e essa transferência que o delegado de Polícia e o Ministério Público omitem ocorreu em 2020”, afirmou Fonseca.
Na denúncia, o MP relata prints de conversas entre Adriana e Lucila, encontrados no aparelho celular de Izaldir, que reafirmam o “funcionamento do esquema de pagamento de propinas”. Para o Gaeco, havia um “claro ambiente de cooptação de servidores públicos para o fornecimento de dados em segredo de justiça”.
Fonseca afirmou que trata-se de uma conversa comum, usada para criar uma narrativa. “Este print que eles colocam para corroborar uma narrativa vergonhosa, mentirosa, não diz absolutamente nada. Não fala de processo, não fala em vantagens financeiras, não fala em qualquer tipo de vantagem. É simplesmente uma conversa informal”, disse.
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Desídia do MP
Ao alegar desídia do MP, Bruno afirmou que a defesa apresentou informações bancárias, alvarás judiciais de valores que Adriana recebeu, mas o Ministério Público não analisou os documentos, e optou por apresentar a denúncia. “Nós disponibilizamos tudo ao Ministério Público, mas ele não observou nada”, disse.
“Despachei com a promotora de Justiça, Laís Rejane [Carvalho Freitas]. Tentei despachar com o Gaeco, mas ele não quis me receber. Disseram que isso não estava no Gaeco, mas é o Gaeco que assina a denúncia. Então todos esses esclarecimentos que nós fizemos não foram observados”, afirmou Fonseca.
“O contraditório, neste processo em relação a professora Adriana, ele não está sendo observado. O contraditório não se limita especificamente a deixar o outro falar. O contraditório é muito além disso. É quando as questões trazidas pela parte que está sendo acusada é ouvida, interpretada, analisada. Isso não está acontecendo nesse processo”, completou.
Fonseca também disse que a defesa apresentou um incidente de nulidade de prova e o Ministério Público foi intimado duas vezes para se manifestar, mas permaneceu inerte. “O MP deixou o prazo transcorrer duas vezes e quando ele vem aos autos pela terceira vez ele já trouxe a denúncia”, afirmou.
De acordo com o advogado, se a Justiça anular as provas, a denúncia será esvaziada. “Mas a verdade é: se o incidente de nulidade for acolhido, que é responsabilidade da vara da central de inquéritos analisar isso, a denúncia fica vazia. Então, essa desídia que eu estou citando especificamente nesse caso”, disse Fonseca.
Denúncia genérica
Ao criticar a denúncia do MP, Bruno Fonseca a classificou como “sem pé e nem cabeça”, pois força uma ligação inexistente entre a advogada e a facção criminosa. “Não houve nenhum intelecto no sentido de cooperar com essa organização criminosa. Essa informação é ridícula, isso não existe”, disse.
“Ela nunca recebeu, nunca transacionou absolutamente nenhum valor com esses investigados, com exceção do Izaldir que foi em um momento pretérito, momento que não é objeto da investigação, mas que foi utilizado para desabonar conduta da professora Adriana, de forma até, pela Lei de Abuso de Autoridade, de forma criminosa”, completou.
Acesso antecipado
Sobre a alegação do Ministério Público de que Adriana teve acesso antecipado a informações de um processo em que a polícia pedia a prisão de Allan Kleber, Fonseca afirmou que a advogada apenas atuou na apresentação de um habeas corpus. Segundo o advogado, Allan sabia do processo porque em todo procedimento o investigado é intimado a depor.
“Havia um procedimento na delegacia e o paciente do habeas corpus pediu para que ela fizesse um habeas corpus no sentido de evitar a prisão. Essa mesma pessoa tinha conhecimento do procedimento porque em todo procedimento administrativo o investigado é chamado para depor. Então, ele sabia do procedimento”, disse Fonseca.
“Agora, o fato de ele trazer esses documentos para ela impetrar o habeas corpus é que é uma questão que precisa ser discutida porque é o exercício da advocacia. A gente trabalha com as ferramentas que tem. A gente não ultrapassa essa barreira em nome da defesa para cometer ilícitos, barbáries”, afirmou.
“Essa afirmação de que ela irrigava o crime organizado… Eu vou falar para você o que disse à promotora de justiça: desafio a vossa excelência a trazer aqui qualquer comprovante de pagamento de que ela tenha recebido, subsidiado qualquer empreitada criminosa dessa que está sendo investigada. E não trouxe”, completou.
Habeas corpus
Na segunda-feira (18), o TJAM vai analisar um habeas corpus em favor da professora. “Nós esperamos que, no mínimo, seja concedida a substituição da prisão preventiva, porque a decisão que saiu inicialmente da prisão preventiva, posteriormente mantida pelo indeferimento do pedido de revogação que nós fazemos, todas elas conseguiram ser piores uma das outras”, disse.
