
MANAUS – Não somente as ciências, mas também as observações cotidianas constatam mudanças significativas ao longo dos últimos séculos. Já não se pode negar a reincidência de acontecimentos que desembocam em tragédias e perdas de vidas. O planeta já extrapolou os seus limites, tendo que assimilar pressões produzidas por um estilo de vida competitivo, utilitarista e consumista. Um estilo de vida ironicamente projetado como uma conquista moderna.
Vemos hoje mudanças desconhecidas pelas gerações passadas, mas que certamente afetarão as futuras: secas severas e frequentes, calor intenso, enchentes demolidoras, elevação dos níveis marítimos, geadas rigorosas e derretimento das calotas polares.
Cientistas das mais variadas áreas de estudos identificam a elevação da temperatura no planeta causada pela intervenção humana como a emissão de gás carbônico e outros combustíveis fósseis largamente utilizados na sociedade moderna e contemporânea. Grandes incêndios florestais e devastação de biomas, intensa poluição dos recursos hídricos com os mais variados poluentes, abolição da biodiversidade. Estas representam algumas das intervenções humanas responsáveis pelas mudanças climáticas, que afetam dramaticamente a vida sobre a terra e nas profundezas dos oceanos.
A água doce, elemento essencial para a sobrevivência humana, nestas condições se torna cada vez mais rara. Para as populações mais pobres a água tem acesso reduzido. Na sociedade dos mercados, onde se procura oportunidades de lucros, estas circunstâncias são oportunidades de retorno econômico. Por isso, grandes empresas surgem para se apropriar e controlar os mananciais hídricos. A água se transforma em uma mercadoria para beneficiara os comerciantes. A sua essencialidade para a vida humana garante o retorno econômico dos investidores.
A privatização passa a ser estimulada pelos empresários e é adotada por muitos municípios, prejudicando as populações mais pobres. Estas populações começam a se organizar para garantir o acesso às reservas de água, pois precisam sobreviver. Os conflitos pela água ganham contornos mundiais deflagrando as guerras da água.
Cochabamba (Bolívia) presencia uma guerra da água nos anos 2000, onde as comunidades e a empresa de saneamento se enfrentam, deixando muitos feridos e uma morte. As comunidades venceram a guerra da água e assumiram o controle dos serviços de água na cidade, que se torna símbolo dos conflitos pela água em todo o mundo.
Em 1913, os moradores de Manaus também se revoltaram contra a concessão privada, destruindo os escritórios da empresa Manaós Improvement Limited e expulsando a concessionária da cidade. O governo do Estado encampou os serviços e reassumiu a gestão. Este acontecimento mostra que a força popular pode se impor quando as comunidades são prejudicadas. As comunidades sabem que a água é um bem público e não pode ser controlada para beneficiar um punhado de empresários. Água é direito, não é mercadoria!
As mudanças climáticas radicalizam ainda mais os conflitos hídricos. A mensagem de Cochabamba ainda ecoa nas comunidades: a água é do povo! É possível uma gestão democrática do saneamento! Trata-se de um grito que deve chegar aos quatro cantos do mundo. É o grito da população que frente aos desafios das mudanças climáticas ainda persiste e clama por uma sociedade justa e sustentável.
Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
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