
Do ATUAL
MANAUS – Dos 693.683 registros de nascimento emitidos entre 2016 e 2025 no Amazonas, 66.240 foram feitos sem o nome dos pais – o equivalente a 9,5% do total. Em 2025, foram 82.671 nascimentos com 8.200 ausências de pais nos registros amazonenses, cerca de 10% do total. A média nacional ficou em 7%, com 173.748 ausências paternas em 2.509.488 registros de nascimentos.
Os dados são do Portal da Transparência da Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais). Em todo o país, dos 27.129.155 nascimentos registrados no período, 1.644.528 não tiveram o nome do pai incluído nas certidões.
O reconhecimento de paternidade envolve histórias de busca pelo vínculo familiar registrada pela DPE (Defensoria Pública do Amazonas) com a campanha “Eu Tenho Pai”. A DPE oferece exames gratuitos de DNA e orientação jurídica para reconhecimento voluntário ou investigação de paternidade.
Um dos casos atendidos foi o de Gleisi de Souza Silva, de 42 anos, e Geraldo Gripena Noronha Sobrinho, de 64. Eles realizaram o exame de DNA para tirar de uma vez por todas a dúvida sobre o vínculo de sangue. Criada por pais socioafetivos a partir da adolescência, Gleisi foi apresentada a Geraldo como filha biológica dele.
“Quando eu completei 15 anos, a minha mãe biológica se reaproximou de mim e perguntou se eu não queria com conhecer meu pai. Eu disse que sim e aí ela foi e me levou até ele”, relembra ela.
“A mãe dela chegou numa tarde, sentou na mesa comigo e falou: ‘eu tenho uma pessoa para te apresentar’. Eu disse: ‘pois não’. E ela, ‘essa é sua filha’. Eu fiquei com aquele olhar meio espantado. Mas aí começamos a conversar e ela passou a conviver com a gente”, recorda Geraldo.
Desde então, eles mantêm uma boa de convivência. “Eu e minhas duas irmãs que são filhas deles nos damos bem. A minha madrasta também eu adoro. Só agregou. O amor só aumenta”, afirma Gleisi.

Eu tenho mãe
Na contramão da maioria dos casos, o casal Eline da Silva Souza e Edilson Braga Júnior buscou o reconhecimento da maternidade socioafetiva da mulher em relação ao pequeno Benjamin, filho biológico de Edilson em outro relacionamento. “Cuido dele desde bebezinho. Fui buscá-lo no hospital quando nasceu. Ele é o nosso grude”, conta Eline.
Ela diz que não ter Benjamin registrado em seu nome atrapalha a dinâmica da família durante as viagens e até em idas ao hospital. “Eu tenho que trabalhar e ela fica com ele. Às vezes precisa ir ao médico e ela leva a certidão. Ficamos preocupados de alguma autoridade pedir documento e dizer que ela não é a mãe porque o nome dela não consta no registro de nascimento. Então, a Defensoria ajudou muito a gente a resolver isso”, complementou Edilson.
Certeza que importa
Andréli Castro e Damião Souza Castro mantêm uma relação de afetividade. Contudo, havia a possibilidade de serem pai e filha, dúvida que vai ser sanada nas próximas semanas quando sai o resultado do exame de DNA.
Alegam que o resultado, positivo ou negativo, não vai mudar a relação de afeto estabelecida, mas consideram importante ter a certeza. “Queria saber se eu sou filha dele. Preciso tirar essa dúvida e agora é a hora da verdade”, disse Andréli.
“A gente já tem essa relação afetiva. O exame é só para saber se realmente tem esse vínculo de sangue de pai e filha. Mas, em relação à convivência afetiva, não vai mudar em nada”, acrescentou.
A defensora pública Sarah Lobo, coordenadora da Área de Família e da campanha, disse que há uma procura grande da população pelos serviços oferecidos durante o mutirão.
“Esse tipo de campanha é relevante porque leva ao debate público a importância do reconhecimento da paternidade. O Brasil tem um grande número de crianças sem o pai registrado. O Amazonas tem um número acima da média, a média nacional é de 7%. No Estado, no ano passado, 10% das crianças foram registradas sem o nome do pai. É um número muito alto e que tem uma série de consequências legais”, ressaltou.
Conforme Sarah Lobo, a ausência do registro paterno é um problema familiar e social. “O mutirão Eu Tenho Pai visa justamente contribuir para a redução dessas estatísticas de pessoas registradas sem o nome do pai”, disse a defensora.
Para a campanha desse ano foram abertas 870 vagas para atendimentos, sendo 620 na capital e 250 no interior. Em Manaus, o mutirão teve início no dia 24 com a realização de 120 atendimentos virtuais para atender pessoas que não podem comparecer presencialmente por questões de trabalho, locomoção ou residência em outro município. Outros 500 atendimentos foram agendados para este sábado.
