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Dia a Dia

Meninos são as maiores vítimas de violência contra crianças indígenas

20 de outubro de 2025 Dia a Dia
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Entre 2020 e o primeiro trimestre de 2025, 483 casos de violência contra crianças indígenas (Foto: Divulgação/Unicef)
Entre 2020 e o primeiro trimestre de 2025 houve 483 casos de violência contra crianças indígenas (Foto: Divulgação/Unicef)
Por Feifiane Ramos, do ATUAL

MANAUS — Entre 2020 e o primeiro trimestre de 2025 foram registrados 483 casos de violência contra crianças indígenas de 0 a 14 anos no Amazonas, segundo dados dos DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas). A maior parte das notificações ocorreu em 2022 (97 casos). Em 2023 foram 94 registros e 2024 houve 88 ocorrências. A faixa etária mais afetada foi de 10 a 14 anos, com 230 casos, seguida por crianças de 1 a 4 anos (159) e de 5 a 9 anos (144).

Conforme informações da Sesai (Secretaria da Saúde Indígena) ao ATUAL, via LAI (Lei de Acesso à Informação), os meninos foram a maioria dos casos com 351 ocorrências, sendo a violência física a mais frequente (127 casos), seguida de violência psicológica/moral (99) e negligência/abandono (86). Entre as meninas, o tipo de violência mais comum foi sexual (64 casos), seguida de violência física (63) e psicológica/moral (44).

Crianças no Vale do Javari: vulnerabilidade infantil (Foto: Brenner Tenazor)

A distribuição geográfica mostra que o DSEI Alto Rio Solimões concentrou o maior número de casos, com 192 ocorrências, seguido pelo Alto Rio Negro (48), Médio Rio Solimões e Afluentes (26), Parintins (24), Vale do Javari (17), Médio Rio Purus (15) e Manaus, com 11 casos atendidos em ambiente urbano. Somente 333 casos tinham a localização da ocorrência registrada nos DSEIs.

O sofrimento que não se vê

Atuando há seis anos no DSEI do Vale do Javari, a psicóloga Celane da Cunha Martins relata que trabalhar na região é “acima de tudo, um aprendizado constante”. Ela diz que o sofrimento das crianças indígenas não se expressa necessariamente em palavras, mas no corpo, no silêncio e no afastamento da coletividade. Segundo a especialista, a violência afeta profundamente a autoestima, os vínculos comunitários e a participação cultural e escolar.

“São pessoas que têm uma relação muito diferente com o tempo, com a escuta, com o cuidado, e isso nos ensina a repensar o que, de fato, significa ‘cuidar’ em saúde mental. Muitas vezes, o sofrimento não se expressa com palavras, mas com o corpo, com o silêncio, com o afastamento da coletividade. E é preciso sensibilidade para reconhecer isso sem impor uma lógica que não pertence a eles”, conta.

Ela acrescenta que meninos frequentemente escondem a dor, que se manifesta em agressividade ou isolamento, enquanto meninas sofrem principalmente violência sexual.

Leia mais: Violência sexual e homicídios de crianças são maiores na Amazônia

“Por trás desses números existem contextos muito complexos, fatos que seguem padrões de vidas diferentes. Porém, os meninos também vivenciam episódios de violência nos contextos comunitários ou domésticos. Muitos carregam dores profundas, que acabam silenciadas por uma cultura que ainda cobra deles força e resistência desde cedo. Essa dor, quando não acolhida, pode se manifestar como agressividade, isolamento, uso precoce de álcool, ou até autolesões”, diz Celane Martins.

Experiências que marcam

A psicóloga lembra de casos que chamaram sua atenção durante o trabalho em campo. Um exemplo foi um adolescente visto pela comunidade como “difícil” ou “rebelde”, sempre envolvido em brigas e isolando-se por dias.

“A princípio, muitos acreditavam que ele estava apenas ‘se perdendo’, mas com o vínculo terapêutico estabelecido percebemos que por trás daquele comportamento havia um sofrimento enorme, resultado de experiências de violência que nunca haviam sido ditas em voz alta. Era como se a agressão fosse a única forma de comunicação”, relata.

Celane Martins disse que o acompanhamento respeitou o tempo, a cultura e os modos de vida do adolescente, fortalecendo confiança, vínculo e pertencimento. “Aprendi que o sofrimento psíquico, quando não compreendido dentro do contexto cultural, pode ser mal interpretado. Mas também percebi a força que existe nos processos de cura quando respeitam o território, a identidade e o modo de ser de cada povo”.

Impactos na vida das vítimas

Segundo Celane, a violência deixa marcas profundas na vida emocional e social das crianças e adolescentes indígenas. Emocionalmente, tornam-se inseguras, apresentam medo constante, dificuldades de concentração, tristeza profunda e retraimento. Muitas vezes, não conseguem expressar em palavras o que sentem, mas essas emoções aparecem em mudanças de comportamento, como agressividade ou isolamento.

No aspecto social, a violência rompe vínculos fundamentais afastando os jovens da escola, da convivência comunitária e até das práticas culturais que reforçam sua identidade. Quando ocorre dentro do próprio ambiente comunitário, pode gerar um ciclo de silêncio e desconfiança dificultando o fortalecimento das redes de apoio.

“No trabalho em saúde indígena, o cuidado não pode se restringir ao atendimento individual. É preciso construir espaços seguros de escuta, envolver famílias e lideranças, e trabalhar de forma intercultural valorizando também os saberes tradicionais de proteção e cura para que essas crianças e adolescentes possam reconstruir a confiança e retomar o desenvolvimento saudável”, afirma a especialista.

Celane da Cunha observa ainda que muitos casos não chegam a ser denunciados ou acabam encobertos pela comunidade por medo de retaliação, vergonha ou falta de confiança nos serviços de proteção.

“Quando os casos não são identificados, o acompanhamento não existe e mesmo quando conseguimos intervir muitas vezes ele é prejudicado porque só detectamos sinais indiretos, como mudanças de comportamento, queda no desempenho escolar ou sintomas físicos relacionados ao estresse. Por isso, é fundamental fortalecer redes de apoio, criar espaços seguros de escuta e mostrar que buscar ajuda não desrespeita a cultura, mas protege a vida e o futuro das crianças e adolescentes”, explica.

Prevenção e cuidado integrado

A psicóloga destaca que os pais e responsáveis enfrentam dilemas complexos: há preocupação em proteger, mas também medo de expor a família ou a comunidade, o que gera silêncio e, em alguns casos, naturalização da violência. Quanto ao acompanhamento psicológico, muitos ainda têm receios ou dificuldades devido à falta de confiança nos serviços, ou à percepção de que a psicologia não dialoga com os saberes tradicionais.

“Nosso trabalho exige escuta sensível e intercultural aproximando as famílias, explicando a importância do cuidado emocional e mostrando que a psicologia não substitui, mas pode caminhar junto com os modos próprios de cuidado que a comunidade já possui. Quando esse vínculo é construído, os pais se sentem mais seguros em aceitar o acompanhamento e fortalecer a proteção dos filhos”, completa.

Urgência em fortalecer redes de proteção

Os dados e relatos reforçam a necessidade de políticas específicas para proteger crianças indígenas, principalmente nas regiões mais vulneráveis como Alto Rio Solimões e Vale do Javari. Investir em espaços seguros de escuta, acompanhamento psicológico, educação em direitos e integração entre saúde, assistência social e comunidades é essencial para garantir que nenhuma criança fique desprotegida e para promover o desenvolvimento saudável, respeitando identidade cultural, coletividade e território.

“Garantir proteção e cuidado às crianças indígenas é também valorizar sua cultura e diversidade, e responsabilidade de toda a sociedade”, conclui a psicóloga.

Celane da Cunha Martins reforça diz que, além do impacto direto da violência, existem desafios estruturais no atendimento à saúde mental indígena. Ela menciona a escassez de profissionais capacitados, a rotatividade de equipes e a dificuldade de acesso a territórios remotos. Segundo ela, “a psicologia na saúde indígena ainda é um bebê, ainda está aprendendo a engatinhar… muitos pais ainda associam o psicólogo como ‘o cuidador de pessoas loucas’”.

A especialista observa que esses obstáculos dificultam o acompanhamento contínuo e aprofundado das crianças e adolescentes. “Tudo isso dificulta o acompanhamento psicológico mais próximo, que é essencial. Se a gente não entende isso, corre o risco de causar mais sofrimento, em vez de saúde”, afirma.

Para enfrentar esses desafios, ela recomenda ações integradas e interculturais: fortalecer os modos próprios de cuidado das comunidades, envolver lideranças, pajés e professores, investir em educação em saúde e direitos, ampliar o acesso a acompanhamento psicológico com profissionais capacitados, e criar espaços seguros de escuta. “Prevenir a violência significa criar um ambiente de cuidado, proteção e respeito, onde a vida e a dignidade possam ser preservadas e valorizadas”, explica.

Celane também enfatiza que a responsabilidade não é apenas das comunidades indígenas. “A violência contra crianças e adolescentes não é um problema restrito à comunidade… é de responsabilidade de toda a sociedade. Valorizar suas vidas é reconhecer a riqueza cultural e a diversidade do nosso país”, conclui, reforçando a necessidade de políticas públicas que combinem proteção, cuidado emocional e respeito à cultura.

A Sesai informou que os Planos Distritais de Saúde Indígena 2024-2027 dos DSEI preveem ações de atenção psicossocial e promoção do bem viver indígena, com o objetivo de que, até 2027, todos os DSEI contem com pelo menos uma Rede Intersetorial de Atenção Psicossocial.

Entre as estratégias estão a implementação de redes de atenção articuladas nos territórios, planos de ação interinstitucionais para qualificação da atenção psicossocial e a criação de Núcleos de Prevenção à Violência em Território Indígena, com participação das instituições parceiras.

A Secretaria reforça o compromisso com a transparência ativa e o atendimento adequado das demandas da sociedade, conforme os princípios da administração pública e as normas que regem o acesso à informação.

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Assuntos destaque, DSEI, indigenas, Vale do Javari, violência contra crianças
Feifiane Ramos 20 de outubro de 2025
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