
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — Representantes de diferentes religiões e congregações espirituais da Amazônia Legal se reuniram em Manaus na quinta (28) e sexta-feira (29) para debater estratégias de enfrentamento da crise climática. O evento, promovido pela IRI Brasil (Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais) busca a mobilização social e ambiental na região para conectar líderes religiosos e ampliar o alcance de ações em defesa da floresta e das populações vulneráveis. Também foi lançada a Rede Amazônia Viva.
Segundo Carlos Vicente, coordenador nacional do IRI Brasil, a Rede Amazônia Viva busca fortalecer a cooperação entre diferentes comunidades religiosas e aumentar o impacto das iniciativas. Ele ressalta que a emergência climática tem afetado diretamente a vida de quem vive na Amazônia, em especial os mais vulneráveis, como ribeirinhos e indígenas.
“Toda a população está vendo a gravidade da mudança do clima. Muito calor, muita fumaça, enchentes uma hora, outra hora secas extremas, e tudo isso está produzindo muito sofrimento. Muita gente está adoecendo, muita gente está perdendo condições de produzir, muitas pessoas estão ficando ainda mais pobres”, afirmou Vicente.
Ele cita que a crise atinge tanto o campo quanto a floresta: “Muita produção de pesca está diminuindo, o agricultor está tendo mais dificuldade de estar no campo trabalhando com o calor, muitos frutos naturais que as pessoas coletavam na floresta estão diminuindo de tamanho e de quantidade, então a gente de fato está vivendo uma situação muito grave”.
Papel das religiões
De acordo com Vicente, as comunidades religiosas têm papel fundamental na mobilização social e ambiental. Ele explica que o IRI Brasil oferece treinamento para líderes de todas as denominações, preparando-os para proteger suas comunidades, reivindicar direitos e orientar as pessoas sobre a importância da floresta, da água e do ar limpo. Segundo ele, a solidariedade é um elemento central: “Muitas comunidades sofrem com a falta de água potável, e líderes religiosos podem mobilizar apoio local, regional e até internacional”.
Billy Felques, representante da igreja CBVida (Igreja Comunidade Batista Vida), de Rio Branco–AC, disse que o encontro e a criação da Rede Amazônia Viva para conectar diferentes estados e experiências tem importância para gerar novas ações. “A criação dessa rede vai fazer com que a gente ligue outras estratégias, novas conexões, novas ações. E foi muito assertivo da equipe da rede de criar isso”.

“A partir daqui de Manaus estamos no coração da Amazônia, estamos no pulmão do mundo, como dizem, e faz com que isso traga ainda mais expectativas e esperança para gente trabalhar em conjunto mesmo. Eu tenho certeza que daqui sairão novas experiências, novas ações para benefício, não somente do nosso grupo inter-religioso, mas também da comunidade local onde estou inserido”, disse.
Felques explicou que a CBVida desenvolve ações ambientais e sociais e que a rede permite ampliar e sistematizar essas iniciativas. Entre as medidas, ele cita a instalação de painéis solares, um ecoponto para coleta correta do lixo e um coletor de óleo de cozinha usado, transformado em sabão distribuído aos voluntários.
Ele cita que a igreja mantém parcerias com a Prefeitura de Rio Branco oferecendo cursos de sensibilização ambiental para servidores municipais. “Tudo isso é voluntário. Temos recebido muito feedback positivo por ser uma igreja que está iniciando esse trabalho junto ao poder público”, afirmou.
Além das ações das entidades religiosas, o IRI Brasil também desenvolve atividades em maior escala para apoiar comunidades vulneráveis na Amazônia. Vicente disse que o instituto distribuiu filtros de nanotecnologia para 8.300 famílias indígenas em áreas remotas, ajudando a amenizar os efeitos das secas e da escassez de água.
A ação é em parceria com a entidade filantrópica Água é Vida e a da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), com recursos doados pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e alcançará 23 territórios indígenas, beneficiando cerca de 40 mil pessoas.

Carlos Vicente ressalta que ações práticas são complementadas por campanhas de conscientização em larga escala, que incluem guias, vídeos, áudios e cards digitais para serem compartilhados com as comunidades. Segundo Vicente, os materiais estão disponíveis gratuitamente na internet adaptados para cada religião e região.
O coordenador diz ser importante criar uma rede de líderes religiosos para potencializar resultados. Ele explica que, quando os líderes conhecem o trabalho uns dos outros e compartilham experiências, projetos e soluções que funcionaram em determinados locais podem ser replicados em outros. Segundo Vicente, isso também fortalece a pressão por medidas estruturais junto às autoridades públicas.
“Se a gente criar uma rede, a gente vai ter os religiosos que estão já trabalhando pelo cuidado da criação e estão trabalhando no tema da solidariedade […] Às vezes, o que um conseguiu, um exemplo bom, um projeto bom que desenvolveu, uma ação que deu certo, todo mundo pode aprender uns com os outros, agregar, a gente pode se sentir mais forte uns com os outros, sabendo que a gente e a nossa voz pode ser mais forte”, disse ele.
A crise e a carta de propostas
Vicente alerta que a situação das populações vulneráveis na Amazônia é grave. Segundo ele, 10 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e muitas famílias adoecem devido à fumaça de queimadas. Ele afirma que o sistema de saúde colapsa durante períodos críticos, e que crianças sofrem impactos no desenvolvimento.
O encontro em Manaus gerou uma carta de recomendações a autoridades públicas em que cobra medidas concretas, como proteção das florestas, redução de queimadas, acesso à água potável e melhor atendimento médico.
“Como é que você vai proteger melhor a água? Você tem que proteger a floresta. Como é que você vai reduzir a fumaça? Você tem que reduzir as queimadas e desmatamento. Então, a nossa visão é cuidar da natureza, é também cuidar das pessoas. Mas a gente precisa colocar as pessoas em primeiro lugar”, disse. Segundo ele, essa carta será levada à COP30, que ocorrerá em novembro em Belém–PA. “Então, é importante que as autoridades se comprometam com isso”.
Amazonas como referência
O Amazonas foi escolhido para o lançamento da Rede Amazônia Viva por sua posição estratégica e relevância ambiental. Segundo Vicente, a capital facilita a participação de representantes de diferentes estados e é referência na luta dos povos indígenas e na organização ambiental local. E a ideia para os anos seguintes é escolher a capital de cada estado da Amazônia.
“Vamos começar aqui no Amazonas, que facilita o acesso de todo mundo […] E também o Amazonas é uma referência ambiental, pela luta dos povos indígenas, pelas organizações que têm aqui e pela beleza, pela importância”, afirmou.
