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Dia a Dia

Igrejas armam blocos evangélicos para lutar contra ‘trevas de Carnaval’

19 de fevereiro de 2023 Dia a Dia
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Bloco Evangélico
Bloco Evangélico Cheio de Amor no Carnaval de 2019, no Rio de Janeiro (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
Anna Virginia Balloussier, da Folhapress

SÃO PAULO – Mal se avizinhava o Carnaval e soava o alarme dentro das igrejas evangélicas: corram para as montanhas! Bom, não precisava ser literalmente montanhas, mas a praxe entre fiéis era procurar retiros cristãos para se blindar do clima de profanação desvairada que eles acreditavam tomar conta das ruas.

Mas espera aí, não foi Jesus Cristo quem disse “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”? Qual o sentido em bater em retirada justamente na semana mais convidativa ao pecado da carne e outros tantos?

Nenhum, concluíram em 2006 membros de uma igreja então novata no neopentecostalismo brasileiro. Criada menos de uma década antes, já famosa por usar pranchas de surf como púlpito, a Bola de Neve lançou naquele ano sua bateria, a Batucada Abençoada, lembra o pastor Eric Vianna, 48 anos.

“O que era a igreja antes? Ela se reunia em acampamentos cristãos durante o Carnaval. Mas a retirada da igreja entregava a cidade para toda sorte de malignidades que acontece durante o período”, disse em depoimento. “Jesus nos diz que somos a luz do mundo, e não existe melhor momento de brilhar a luz do que nas trevas de Carnaval.”

O fuzuê momesco, afirma o pastor à Folha de S.Paulo, é impulsionado por “muitas pessoas que vivem suas vidas como se não houvesse amanhã e extrapolam seus limites como se fosse o último dia de suas vidas”. Aí já viu: disparam os índices de acidente de carro, criminalidade, gravidez indesejada e problemas de saúde.

“A intenção da Batucada Abençoada é mostrar que existe uma opção para isso”, diz o pastor. “Mostrar que é possível se divertir e se alegrar sem a necessidade de aditivos como bebidas alcoólicas ou drogas, e sem as consequências que perduram até mesmo pelo resto da vida.”

A Bola de Neve ainda é exceção. A maioria das igrejas vê com maus olhos a incorporação de elementos seculares, externos à religiosidade evangélica, ainda que na melhor das intenções –essa seria usar as armas do inimigo contra ele e expandir ainda mais a evangelização, como propõe o pastor Eric.

Um artigo do pastor e conferencista Renato Vargens no Pleno News, portal conservador acompanhado por crentes, resume bem esse repúdio à ideia de meter Deus no meio da festa pagã.

“Com o intuito de pregar o Evangelho no Carnaval, evangélicos de denominações diferentes criaram blocos e até mesmo escolas de samba cujo objetivo final é pregar aos foliões. Segundo os sambistas de Jesus, essa é uma maneira de evangelizar os perdidos que se encontram absortos em iniquidade e que precisam desesperadamente de Cristo.”

Ledo engano, diz Vargens. “O que me preocupa efetivamente não é o desejo de evangelizar, tampouco a vontade de pregar as Boas Novas da Salvação Eterna aos que se perdem, e sim a forma escolhida para o desenvolvimento dessa missão.”

Por mais nobre que seja o motivo, adotar símbolos carnavalescas “abre portas ao mundanismo, paganismo e à ausência de santidade”, e isso não é bom, argumenta. “A Igreja foi chamada para pregar Cristo e o arrependimento de pecados e não um tipo de evangelho palatável, cujo foco principal é a satisfação humana.”

Fora que, convenhamos: ainda que se diga que o objetivo é a evangelização, o que menos se vê é a pregação do Evangelho, diz o pastor. Deus não aprovaria. “Na minha perspectiva, sair às ruas sambando e rindo fere o mandamento bíblico de usar o nome do Senhor em vão.”

Eric o entende. “Nós também não gostamos de Carnaval evangélico e entendemos na essência o posicionamento das igrejas tradicionais.” Mas o ponto aqui é outro, diz. “O nosso movimento vem para mostrar a alegria de Jesus ao contraponto que é a festa do Carnaval. Não criamos uma festa para os cristãos, mas nos colocamos como estandarte vivo para anunciar o Evangelho.”

A Batucada Abençoada começou em Santos (SP) e hoje faz sua principal caminhada na orla de Copacabana. A deste ano será na segunda (20).

Em 2010, sites religiosos divulgaram com alarde a entrada da Bola de Neve no Guinness Book: ganharam o título de maior bateria do mundo, com 1.010 ritmistas batucando ao mesmo tempo no litoral paulista.

No mesmo ano, eles foram também à favela da Rocinha, no Rio. Eram mais de 600 pessoas tocando, “um desafio muito louco”, lembra mestre Junião. “A Rocinha parou para que a gente pudesse falar do amor de Deus.”

Dois anos antes, a Batucada Abençoada apostou em adaptações evangelizadoras de canções velhas conhecidas do mundo não religioso. Em “Pelados em Santos”, do Mamonas Assassinas, não era a mina do corpão violão quem enlouquecia corações. “Jesus me deixa doidããããão”, dizia o refrão reformulado.

Não são muitas, mas sabem fazer barulho as igrejas dispostas a colocar seus blocos de Deus nas ruas. A Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia, é uma delas. De domingo a terça de Carnaval, o pastor lidera uma conferência sobre livramento. Na sequência, entra em cena uma bateria da igreja com 200 integrantes. Chama-se Reação.

Luis Felipe Alves, 35, diácono ali, faz parte dela. Ele explica como funciona o trabalho, que já se estendeu por cantos cariocas como o Piscinão de Ramos. “Quando nós chegamos para evangelizar, tocamos sempre um samba, e depois o pastor fala uns 20 minutos, faz o apelo, e pessoas aceitam a Jesus no meio da festa de Carnaval.”

Nem sempre a recepção é calorosa. Alguns bêbados, afirma, “às vezes jogam coisas na gente, normal”. Ele mesmo já foi alvo de cerveja e espuma, conta Alves, filho de um compositor da Portela, um católico não praticante que, aliás, já presidiu uma agremiação de samba, a Tupy de Brás de Pina.

Para 2023, o hino da Reação prega em ritmo de samba enredo: “E agora o que está faltando pra tomar uma decisão/ Jesus Cristo está batendo/ Abre a porta do teu coração”.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro já engrossou a turma evangélica que usa a maior festa de rua do país para espalhar sua mensagem cristã. Em 2018, ela saiu na ala de surdos do Cheio de Amor, bloco de sua igreja, a Batista Atitude. Estava lá ajudando a traduzir para Libras toadas carnavalescas de pegada gospel.

No Carnaval seguinte, o pastor da Atitude, Josué Valandro Junior, liderou o cortejo na praia da Barra da Tijuca, pertinho de onde Jair e Michelle Bolsonaro moravam antes de ele virar presidente. O pessoal da igreja distribuiu 10 mil copos de água com um rótulo onde se lia “Jesus: a fonte da vida” e chegou a cruzar com foliões de um bloco vizinho, o Só Te Pegando.

Jesus, segundo Valandro Jr., “ia aonde estavam” os pecadores. Ora, então é obrigação do povo de Deus manter a tradição. “A igreja, no Carnaval, se refugiava em acampamentos, retiros, enquanto a cidade estava entregue à bebedeira, à prostituição, às drogas, à loucura.” Vão deixar barato?

O “timing” de atos evangelizadores incomoda pastor Pedrão, líder da Comunidade Batista do Rio. “Não curto, acho até uma falta de respeito. Temos 11 meses e 3 semanas por ano para evangelizar, tem que ser no dia do Carnaval e imitando o que eles fazem? Abadá, trio elétrico etc.?”

Ele até acha que as missões surtem efeito. “Mas tudo deve ser feito antes, para que a pessoa tenha consciência das consequências que podem advir da festa.”

Afinal, a igreja não precisa tomar a forma do mundo para conquistá-lo. Ele parafraseia Romanos 12:2. “Os limites e liberdades devem ser respeitados. Se, num domingo qualquer, o pessoal chegar com uma bateria na frente da igreja, as pessoas não irão curtir. Assim como tem pessoas que se infiltram no dia de [Nossa Senhora] Aparecida para evangelizar. Acho o momento inoportuno. Penso: será que Jesus faria um bloco para se disfarçar e pregar a palavra?”

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Valmir Lima 19 de fevereiro de 2023
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