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Política

Humor agressivo do fascismo foi estratégia para atacar oponentes

28 de outubro de 2022 Política
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O ditador Benito Mussolini inspecionando tropas (Foto: Divulgação/BrasilEscola)
O ditador Benito Mussolini inspecionando tropas: criador do fascismo (Foto: Divulgação/BrasilEscola)
Selo Eleições 2022
Por Michele Oliveira, da Folhapress

MILÃO – Os atos de tirar sarro de adversários e difundir piadas machistas, sexistas e racistas fizeram parte da estratégia do regime do fascismo italiano para depreciar opositores – fossem políticos ou vozes dissonantes da sociedade – e para construir e manter consenso.

“É uma cumplicidade que leva a um sentimento de pertencimento, uma risada feita por e para homens, que os fazia sentirem-se superiores, viris, puros. Uma forma de reforçar a própria ilusão de identidade coesa”, afirma à reportagem Valentina Pisanty, professora de semiótica da Universidade de Bérgamo.

Esse seria, inclusive, um dos valores de continuidade entre o fascismo instalado em 1922 e o discurso da direita radical contemporânea. “No momento em que um grupo se sente forte, do lado do poder, mira em outro que aparenta fraqueza e tira sarro dessa vítima. Um modo fácil de criar consenso é identificar e construir um inimigo.”

Se antes circulavam em revistas e jornais, atualmente esse pseudo-humor pode ser encontrado nas redes sociais, especialmente no formato de memes, e em espaços tradicionais de mídia, como programas televisivos. Não raro, proferido pelos próprios políticos.

Na Itália, o ex-premiê Silvio Berlusconi tem uma grande lista de comentários machistas. Nos EUA, o ex-presidente Donald Trump era celebrado por eleitores quando fazia piadas racistas.

No Brasil, Jair Bolsonaro, em seu primeiro discurso como presidente, disse que sua vitória representava a libertação do Brasil do “politicamente correto”.

“Ele e outros líderes da extrema direita se colocam como defensores da liberdade de expressão e da liberdade de risada, como desculpa para poderem exercitar o direito de insultar alguém”, avalia Pisanty.

“Com isso, autorizam seus apoiadores a esse tipo de risada, o que lhes dá a sensação de união e superioridade em relação a minorias que viram alvo de escárnio.”

A estratégia tem precedente histórico no fascismo italiano. Especialmente nos anos 1920 e 1930, revistas como Bertoldo, Marc’Aurelio e La Difesa della Razza (a defesa da raça) publicaram séries de cartuns e vinhetas com imagens e frases de escárnio que tinham como personagens militantes da esquerda, negros, mulheres e judeus.

Em uma delas, um soldado italiano, em uma paisagem que remete à África, segura uma mulher negra, amarrada e, diante de um guichê dos correios, diz: “Gostaria de enviar esta lembrança a um amigo meu”.

Em outra, um homem de barba e com uma bandeira vermelha – caricatura de um esquerdista – é golpeado por um fascista, que lhe dá óleo de rícino, com efeitos laxativos, para beber. No desenho, sob a inscrição “efeitos da cura”, a vítima é desenhada com fezes escorrendo pelas pernas, para em seguida empunhar uma bandeira tricolor – referência à Itália fascista.

Era um humor permitido e enraizado no senso comum moderado, o qual o fascismo passa a explorar com o objetivo de encontrar pontos de identificação com parte da população.

“Naquela época, não era algo que provocava escândalo, principalmente os estereótipos africanos e judeus. O efeito de indignação que produz em nós esse pseudo-humorismo é hoje muito mais forte”, diz.

Pesquisadora de temas como humorismo, negacionismo, racismo e discurso político, Pisanty acaba de publicar o ensaio “A risada fascista: quando se ria para restabelecer a ordem”, parte do livro recém-lançado “Fascismo e Storia d’Italia – A un secolo dalla Marcia su Roma”, em ocasião do centenário da Marcha sobre Roma. O evento, ocorrido entre os dias 28 e 31 de outubro de 1922, significou a chegada do ditador Benito Mussolini ao poder.

Em sua pesquisa, Pisanty analisou publicações consideradas independentes para identificar traços do humor de características fascistas em cartuns e vinhetas satíricas. O objetivo, como em outros ensaios do volume, foi encontrar pontos de continuidade entre o fascismo histórico e a ultradireita contemporânea.
Segundo a autora, a risada fascista pode ser definida como resultado de uma engrenagem de humor simples e rudimentar, diferentemente de outras formas de humorismo, que fazem uso de ironia, autorreconhecimento, reflexão, indiretas. “Modos mais sofisticados são aqueles em que há uma espécie de torção irônica que, no fim, não está mais claro de quem se está rindo, se da vítima de uma piada, por exemplo, ou de quem faz a piada”, afirma.
No humorismo que circulava durante o fascismo, a risada era monocórdica, sem surpresas. “É possível distinguir a risada fascista no modo direto com que golpeia a vítima da piada com o objetivo de aniquilá-la e de reduzi-la à impotência”, explica Pisanty. “Usa os estereótipos mais banais, como os sexistas e racistas, não para explorar contradições, mas para confirmá-las.”
O regime de Mussolini, argumenta a autora, incentivava esse tipo de conteúdo de duas maneiras. Permitindo o funcionamento de publicações que aderiram a essa linha de humor em sátiras –enquanto não tolerava outros formatos de comicidade, contra si próprio– e agindo diretamente em contato com as redações, indicando campanhas. “Uma delas foi contra a mulher-crise, uma mulher caricaturada como uma intelectual anoréxica, que não fazia parte da figura de mulher que queriam os fascistas.”
Equivalente a um soco no nariz, como diz a especialista, a risada fascista está sempre ao lado do poder. Serve para delimitar, manter a ordem e desencorajar qualquer forma de desvio. “É uma risada que busca a cumplicidade de uns para marginalizar outros e humilhá-los ao ponto de não serem mais vistos.”

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Assuntos Donald Trump, Eleições 2022, fascismo, Jair Bolsonaro, mussolini, silvio berlusconi
Redação 28 de outubro de 2022
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