
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Disciplinas escolares não são suficientes e problemas estruturais na educação brasileira não contribuem para que os jovens tenham uma formação completa para participarem da vida política do país, avaliam especialistas na área da Educação e Política ouvidos pelo ATUAL.
Breno Rodrigo de Messias Leite, cientista político e professor de Política Internacional do Diplô Manaus, pontua que ao longo de décadas, o Brasil tem assumido os últimos lugares nos indicadores internacionais de educação.
“A avaliação do Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Alunos], de 2019, aponta que a educação brasileira está nos últimos lugares em Matemática e Ciências, e estagnado em leitura. Tal constatação dificulta o progresso científico e cognitivo dos estudantes para uma vida política produtiva”, disse.
O cientista político Helso Ribeiro entende que apenas a grade curricular das escolas não é o suficiente para preparar o aluno para entender sobre a tomada de decisões do país.
“É claro que, é bom que se tenha consciência. Não tem dez países no mundo que permitem o voto aos 16 anos. O Brasil é um deles. Só que os adolescentes chegam ao ensino médio com pouco conhecimento da realidade do sistema eleitoral. Isso eu estou falando de forma genérica”, afirmou.
Ribeiro destaca que há matérias que estimulam o senso crítico e defende que podem ser incluídas ainda no ensino fundamental, como Filosofia.
“Porque a partir daí você aguça no estudante uma crítica, não importa para qual assunto. E o assunto político evidentemente é um deles. Posteriormente eu diria que noções de Sociologia também seriam interessantes. Junto a isso, o exercício da cidadania é fruto de um caminhar de outros saberes. Então, na aula de História e Geografia, Estudos Sociais, era um momento de saber como é que é a estrutura do Estado brasileiro”, pontuou.
Camila Grejo, diretora pedagógica da TutorMundi, plataforma online de aprendizagem personalizada, afirma que a grade curricular do ensino médio traz disciplinas que estimulam o senso crítico e perpassam pela política, como História, Filosofia e Sociologia. “No entanto, esses conteúdos ainda não são suficientes para proporcionar aos jovens uma formação completa”, complementou.
Isso porque, segundo a especialista, os mais novos vivem em um momento em que há disseminação de informações, sobretudo pelas redes sociais, “o que exige da escola e dos professores uma colaboração cada vez maior para que os jovens estudantes sejam capazes de construir uma atuação política mais consciente e participativa”.
Além da escola

Para Breno Rodrigo, a estrutura do ensino médio anterior à reforma e a atual não contemplam na estrutura curricular temas específicos de formação política para a cidadania.
“As estruturas curriculares de Filosofia, Sociologia, História abordam temas relacionados à política e à cidadania de um modo geral”, disse.
O cientista político entende que a formação política também é responsabilidade da sociedade civil, sobretudo dos partidos que já recebem dinheiro do fundo partidário e, por isso, afirma, devem assumir essa responsabilidade.
“São os partidos que treinam e direcionam a sua militância. Além dos partidos, movimentos sociais são importantes elos de formação política dos jovens. Movimento Brasil Livre (suprapartidário), União da Juventude Socialista (PCdoB) ou Juventude da Social Democracia (PSDB), por exemplo, são canais importantes de socialização dos jovens na política”, exemplificou.
Breno Rodrigo afirma que, como um país ainda jovem, o Brasil necessita da participação e representação da juventude na política.
“A ampliação da quantidade de jovens nos movimentos sociais e na militância dos partidos políticos é uma condição precípua para qualificarmos e educarmos a elite política de amanhã”.
Ele entende que a introdução do ensino jurídico no ensino médio não é uma boa decisão, devido o arranjo jurídico brasileiro ser complicado e ter muitas interpretações.
Porém, sugere alternativas. “Penso que a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] poderia criar iniciativas nesse sentido. Seminários, júris simulados ou palestras podem facilitar a difusão do conhecimento jurídico para jovens e adolescentes”, propôs.
Desencanto
Breno Rodrigo afirma que os problemas educacionais também encontram ecos na baixa qualidade da democracia brasileira.
“O aparente otimismo quanto a melhorias da democracia brasileira esbarrou em alguns retrocessos, como a fragmentação e fracionalização dos rótulos partidários, a insegurança do sistema eleitoral e a hiperativismo do Poder Judiciário no processo político”, afirmou.
Helso Ribeiro destaca que o abstencionismo crescente nas eleições é um indicador do desinteresse pela política pelos mais novos e pelo público em geral.
“O jovem com pouca informação vê que há uma comprovação, o discurso dos políticos muitas vezes destoa da prática deles. Isso gera um desencanto, somado à desinformação, o jovem acaba não indo participar”, disse.

Camila Grejo pontua que a juventude vive um momento de incertezas, mas que há uma parcela significativa que busca opinar ou se engajar politicamente, ainda que de maneira institucionalizada, pela filiação a partidos ou a entidades políticas.
“A facilidade de acesso à informação proporcionada pelos avanços tecnológicos leva os jovens a buscarem conhecer o contexto político e se posicionar diante do cenário vigente”, afirmou.
Mas a especialista salienta que essa “avalanche de informações” deve ser problematizada e questionada. “[…] a fim de que se transforme em conhecimento significativo capaz de promover à juventude uma postura crítica diante das situações políticas atuais, assim como a consciência da importância de sua participação no processo eleitoral e na compreensão do conceito de cidadania”, pontuou.
Ideologias?

Camila Grejo considera a sala de aula um espaço de troca de ideias para a construção do saber, onde alunos e professores têm papeis fundamentais no processo de ensino–aprendizagem.
“Isso significa que os temas políticos como direito constitucional, o funcionamento do Estado, as estruturas de poder, a cidadania no Brasil, dentre vários outros, devem ter lugar a partir de um debate que considere as várias perspectivas e abordagens sem, necessariamente, a necessidade de se escolher uma forma ‘certa’ ou ‘errada’ de se pensar ou agir”, disse.
Breno Rodrigo relata que leciona Ciência Política há mais de dez anos e foram raros os momentos que teve problemas do tipo em sala de aula.
“Logo nas primeiras aulas me esforço em desarmar os alunos das armadilhas ideológicas, pois, do contrário, o estudo da política pode se tornar um problema. A história da teoria política é um grande exemplo de como podemos abordar o fenômeno político com seriedade. As lições de Aristóteles e Platão, Kant e Santo Agostinho ou Hume e Locke demonstram que o exame da política jamais pode ou deve ser feito à luz das paixões do momento”, afirmou.
Helso Ribeiro defende que as ideologias não sejam transformadas em armadilhas para afastar os debates políticos da sala de aula.
“É interessante que no aprendizado dos estudos sociais, ou mesmo anterior, da própria Filosofia, da Sociologia, o jovem aprenda o que é o Capitalismo, Socialismo, quais as mais diferentes vertentes do Socialismo, o que isso representa, quais as formas de Capitalismo são apresentadas, o que os pensadores dessa ideologia pensam, o que é o anarquismo, o que seria o comunismo”, pontuou Ribeiro.
