É lugar comum dizer que o livro O príncipe, de Nicolau Maquiavel, tornou-se uma espécie de “bíblia” para entender como se dão as relações políticas, principalmente quando tratamos de governante/monarca e governados/súditos, como queira o leitor. Para alguns, a leitura da obra do italiano é pré-condição para entender o funcionamento da dinâmica do jogo político.
Entretanto, há outras obras igualmente ricas e importantes para entender o enredo e as personalidades que gravitam em torno do poder e do seu exercício. A obra “O Leão e o Chacal Mergulhador”, traduzida por Mamede Mustafa Jarouche – tradutor de “As mil e uma noites”, é uma delas. Não se trata de um livro de autor – que, aliás, é desconhecido. A tradução foi realizada a partir dos três volumes do manuscrito árabe da Biblioteca Nacional de Paris.
O livro usa linguagem alegórica – exercício da mimese – para explicar as relações estabelecidas e alcançar o convencimento e o enredo é simples: um sábio da comunidade resolve aconselhar o rei, a quem percebe intimamente perturbado. Assim, por amor ao rei, o Chacal espera que seu parecer ajude a resolver as questões importantes que afetam o reino. Provavelmente, a história se passa em Bagdá.
O papel dos sábios na sociedade é um assunto bastante discutido na obra, que também alerta para as relações de maledicências que os sábios despertam entre os mais destacados assessores do reino. Ciúme, inveja e traições são alguns dos obstáculos colocados pelos demais conselheiros do reino diante do Chacal mergulhador, ao perceberem que o sábio ganha a confiança do rei e o faz tomar decisões acertadas.
Valores materiais versus valores divinos também motivam as histórias que se sobrepõem dentro do enredo. O dinheiro, em um trecho do livro, é apresentado como um veículo de afastamento de Deus. Mesmo que seja conseguido de forma lícita, e baseado na verdade, pois o trabalho para mantê-lo e multiplica-lo “afastá-lo-á da adoração de seu senhor”.
Portanto, um livro baseado em manuscritos do século XII, mas ainda assim atual. Impossível deixar de notar a dedicação do Chacal mergulhador ao rei e sua disposição à verdade. Igualmente notáveis e atuais são os estratagemas usados por aqueles que amam mais o poder do que o próprio rei, no objetivo de destruir qualquer um que diga a verdade.
Por fim, uma obra que reafirma os temeridades do poder e as virtudes da verdade, mesmo diante do maior dos riscos: a perda da vida. No enredo, as verdades levam o Chacal Mergulhador a ser odiado pelos demais conselheiros – que armam três ardis para aniquila-lo, a verdade e a intervenção de um amigo o salvam e a verdade o leva de volta ao lugar de meditação e simplicidade, renunciando à corte e sua exuberância.
Talvez a principal lição de “O leão e o Chacal Mergulhador” seja a de que quanto mais próximo do poder, mais os homens estão longe da virtude e próximos da intriga, por isso mesmo, é preciso meditar sempre e buscar a sabedoria e a simplicidade. Seria muito bom que ao contrário de O príncipe, o sábio Chacal fosse a inspiração para os políticos e assessores mais destacados do país. Vale a pena a leitura.
