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Economia

Proposta de reduzir salários altos não é suficiente para bancar o Renda Cidadã

8 de outubro de 2020 Economia
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Corte de supersalários não basta para bancar nova Bolsa Família (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)
Por Thiago Resende e Bernardo Caram, da Folhapress

BRASÍLIA – Proposta de congressistas endossada pelo ministro Paulo Guedes (Economia) de cortar salário acima do teto do funcionalismo (R$ 39,3 mil) é insuficiente para financiar uma ampliação significativa do Bolsa Família.

A medida defendida por membros do governo e líderes enfrenta forte lobby de servidores, especialmente do Judiciário, no Congresso.

Em 2015, o governo Dilma Rousseff (PT) apresentou projeto semelhante, que reduziria o equivalente a R$ 1 bilhão por ano de redução de despesas para a União.

Para bancar o Renda Cidadã, programa que deve substituir o Bolsa Família, a equipe do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) busca cerca de R$ 20 bilhões.

Com essa verba, a ideia é ampliar a cobertura a famílias na linha de pobreza e extrema pobreza e aumentar o valor do benefício mensal.

Embora com peso político e moralizador, o projeto de cortar os supersalários, debatido por governo e congressistas, tem baixo impacto nas contas públicas. O efeito é maior em estados e municípios.

Proposta de regulamentar o teto do funcionalismo chegou a ser aprovada pelo Senado no fim de 2016, quando o então presidente da Casa, Renan Calheiros (MDB-AL), conduzia uma pauta de ataques ao Judiciário, em uma reação ao avanço da Lava Jato.
Foi criada uma comissão para levantar os salários acima do limite constitucional.

Na época, a relatora, senadora Kátia Abreu (PP-TO), chegou a citar que o corte nos supersalários economizaria por ano cerca de R$ 1 bilhão para o Poder Executivo da União.

Na segunda-feira, 5, quando Guedes e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) selaram as pazes em um jantar, Kátia e Renan estavam presentes.

O projeto foi para a Câmara, onde ainda não foi votado no plenário. O texto do Senado se juntou ao de 2015, mas, por falta de acordo e ante o lobby de servidores, os deputados não analisaram o tema.

A ideia é deixar claro, em lei, que “penduricalhos” dos salários de servidores (gratificações, bônus, horas extras, adicional noturno e valores por participação em conselhos de estatais) também estão sujeitos ao teto.

Em 2017, a equipe econômica de Michel Temer (MDB) tentou retomar a discussão. O ex-ministro do Planejamento Dyogo Oliveira foi à Câmara defender a regulamentação do teto salarial. Também disse que o impacto seria, ecorrigido pela inflação, um pouco acima de R$ 1 bilhão.

O relator da proposta na Câmara, deputado Rubens Bueno (Cidadania-PR), disse que está em contato com Maia para destravar a votação do projeto desde abril. A versão atual do texto, segundo ele, pode reduzir as despesas da União em cerca de R$ 1,2 bilhão por ano.

Outro R$ 1,2 bilhão poderia ser economizado com o corte nas férias do Judiciário. Porém, isso está previsto em uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que ainda nem foi analisada pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

Em encontro com Guedes nesta semana, um grupo de congressistas liderado por Renan e Kátia voltou a defender a redução de despesas com salários acima do teto como forma de financiar o Renda Cidadã.

Para destinar mais dinheiro à área de assistência social, o governo precisa cortar em outra parte do Orçamento federal, e não nos gastos de estados e municípios.

O governo enfrenta dificuldades em superar entraves à ampliação do Bolsa Família por causa do teto de gastos. A regra impede crescimento das despesas acima da inflação.

Para 2021, o orçamento do Bolsa Família foi ampliado em relação a anos anteriores, mas ainda é limitado. Estima-se atender 15,2 milhões de famílias com R$ 34,9 bilhões.

Mas a verba não prevê a 13ª parcela prometida por Bolsonaro na campanha presidencial, nem um aumento substancial do benefício, atualmente na faixa de R$ 192 por mês para cada família, em média.

O corte nos supersalários resultaria em um programa ainda longe da renda básica mensal de R$ 300 e ampliação da cobertura no número de famílias que quer Bolsonaro. Auxiliares do presidente já admitem, de forma reservada, que a meta de R$ 300 por mês não deve ser alcançada.

Bolsonaro quer manter o mesmo patamar das parcelas finais do auxílio emergencial, criado para socorrer informais, desempregados e microempreendedores individuais na pandemia da Covid-19. O auxílio fez a popularidade crescer. Procurado o Ministério da Economia, não quis se manifestar sobre a proposta de corte dos supersalários.

Para tentar propor uma ampliação significativa do Bolsa Família, o governo estuda uma série de medidas. Uma delas, como mostrou a Folha de S.Paulo, seria limitar os gastos com abono salarial, em vez de acabar com o programa.

Esse benefício é pago a trabalhadores com carteira assinada e com renda mensal de até dois salários mínimos (R$ 2.090). Técnicos do Ministério da Economia defendem que o critério seja de aproximadamente R$ 1.500. Isso liberaria R$ 8 bilhões.

Outra opção em estudo é extinguir o desconto padrão de 20% concedido automaticamente a contribuintes que optam pela declaração simplificada do Imposto de Renda da Pessoa Física. A medida, revelada pela Folha de S.Paulo, pode atingir mais de 17 milhões de pessoas. Até agora, porém, uma solução não foi apresentada.

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Assuntos corte de salários, governo federal, Renda Cidadã
Redação 8 de outubro de 2020
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