A pandemia do autoritarismo vai se expandindo rapidamente em quase toda parte. Move o pêndulo da história para direções sombrias, devorando as perspectivas democráticas. No Brasil, o autoritarismo assume proporções sociopatas desde as reuniões palacianas ou ministeriais à censura em grupos informais de aplicativos de mensagens instantâneas.
Por mais que se tente minimizar ou confundir o sentido da reunião do colegiado de ministros do dia 22.04.2020, o registro é muito claro: o chefe do executivo não só admite interferir na polícia federal como apresenta a razão que acredita ser a justificativa válida para tanto – o interesse particular próprio, da família e de amigos. É algo, de fato, escandaloso!
A reunião ministerial do dia 22.04.20 parece ter sido uma sessão de delírios autoritários e sociopatas. O presidente esbraveja que a solução para a pandemia é armar a população para enfrentar o isolamento social recomendado pela OMS e adotado por governadores e prefeitos. Se me tivessem dito que isso teria vingado num hospício ou num presídio ainda assim eu teria dificuldade de acreditar. Mas de fato ocorreu e está registrado para todos que quiserem ver e ouvir.
Os ministros da educação, do meio ambiente, da mulher-família-direitos humanos e da economia também proferiram “pérolas” para estudo da moderna psiquiatria e outras ciências.
O primeiro, supostamente da educação, reduz a noção de povo à de Estado e não vê problema algum em produzir o genocídio simbólico de povos indígenas, afro, quilombolas, ciganos… Não tem o menor discernimento do que é povo, nação, Estado e quer impor o mesmo significado para realidades sociológicas e jurídicas distintas. Os que dele discordam são “vagabundos” e devem ser presos, a começar pelo STF. Pois liberdade para ele é isso: fazer o que ele quer, de modo absoluto. O sr ministro já se sabia dono da verdade desde antes de ser governo. Basta atestar a “qualidade” com que o ENEM tem sido realizado.
O segundo, o antiministro do meio ambiente, recomenda aproveitar a desatenção da imprensa, distraída com a pandemia de covid-19, para passar a “boiada” e mudar o regramento, desregulamentando tudo o que interessa aos que praticaram crimes contra o meio ambiente. Um “libera-geral” para deixar os agressores do patrimônio ambiental impunes.
A suposta ministra da mulher-família-direitos humanos está aumentando o “tom” com os que defendem o isolamento, fazem críticas ao governo, dentre outras coisas “inadmissíveis”, e garantiu irá prender até governadores.
O da economia reiterou que quer vender tudo. A bola da vez agora é o banco do Brasil. E informou que já colocou duas granadas no bolso do inimigo. Detalhe: o inimigo são os servidores públicos, que ficarão sem reajustes durante dois anos (2020 e 2021). É o mesmo que disse que as empregadas domésticas tinham de parar de viajar pra Disney.
Se me informassem que esse surto psicótico ou sociopatológico tivesse vindo de um manicômio ou de uma prisão seria menos difícil de crer do que de uma reunião colegiada de ministros. Mas aconteceu mesmo. É esse pessoal, fomentador da cultura do ódio e baseado na ideologia do inimigo, que está governando o país, impondo o obscurantismo, a insegurança e o autoritarismo. O que dizer? Sem palavras. Deve-se reconhecer que alguns participantes do colegiado de ministros estavam visivelmente incomodados com o que estava sendo dito e a forma como as coisas estavam acontecendo, conforme se pode verificar no vídeo da reunião do dia 22.04.2020.
Na sexta-feira passada (22.05.20), o ministro do gabinete de segurança institucional (GSI) divulgou uma nota desproporcional, considerando a natureza protocolar do procedimento do ministro Celso de Mello, ameaçando as instituições e o regime aberto, dizendo que a eventual apreensão do celular do chefe do executivo federal teria “consequências imprevisíveis” para a estabilidade do país. Algo desmedido e sem noção.
No domingo (24.05.20), mais uma vez, o presidente foi ao encontrou e deu causa a aglomerações, expondo a todos num período de quarentena devido à pandemia do novo coronavírus.
Em qualquer tempo, governos eleitos no regime democrático recebem da sociedade os meios, os recursos e a máquina administrativa, tendo o compromisso (contrapartida) de cumprirem as leis fundamentais, efetivarem os direitos nelas previstos, e o programa de governo que se propôs realizar. À sociedade e a cada cidadão cabe fiscalizar o governo eleito, tendo nele votado ou não, pois os recursos e a estrutura estatal foi lhe disponibilizada, e não simplesmente justificar o mesmo. No Brasil, vê-se nitidamente uma inversão do papel de grupos de cidadãos numa democracia, pois ao invés de exercerem a fiscalização e cobrança sobre o governo, passam somente a justificá-lo em qualquer circunstância mesmo naquelas injustificáveis. Isso é totalmente irracional e de alto risco ao regime aberto.
Aproveitando-se dessa irracionalidade obscurantista e mórbida, o governo federal procura mostrar que tem alguma legitimidade junto à população manipulando atos públicos e protestos artificiais, fomentando aglomerações e delas participando num período de pandemia, na qual a principal medida de prevenção é o distanciamento e o isolamento social.
Todos esses fatos evidenciam, muito embora não se admita oficialmente, o quanto as perspectivas de orientação democrática estão ameaçadas no Brasil. Ao mesmo tempo, percebe-se o avanço de posturas autoritárias, do obscurantismo político e científico, e de certa falta de equilíbrio e de sanidade mental por parte de membros significativos do atual governo.
A raiz desse processo decorre, em grande medida, da manipulação da irracionalidade das fakenews, de fatos extremados e da polarização ideológica a que o país submergiu. E a persistente manutenção nesse estado de irracionalidade, com fins pré-eleitorais, causa danos às conquistas do regime aberto à participação, à transparência, ao controle social e interno do Estado (inclusive autonomia de investigações criminais), ou seja, é algo profundamente nocivo às perspectivas democráticas. Parece até que ninguém aprendeu nada com o fascismo, o nazismo, o stalinismo, as ditaduras na América Latina. Isso tudo é muito perigoso e venal! Algumas coisas jamais podem ser esquecidas.
A democracia é um regime aberto ao livre exercício da cidadania, à promoção da dignidade humana, à liberdade econômica e política, à proteção do bem comum e que se importa com o alcance da felicidade geral. Contudo, é um regime frágil, dependente de alianças responsáveis entre os diversos grupos políticos, que está sempre exposto à ataques e golpes de egocratas, sociopatas, cleptocratas e degenerados éticos de toda espécie. Por isso, é essencial estar perenemente atento à defesa das perspectivas da democracia seja com medidas de Estado, de governo seja com iniciativas da própria sociedade e da imprensa livre.
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