
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Com o colapso na saúde do Amazonas, o poder de negociação dos empresários para reabrir o comércio perde força. Daqui a uma semana será o Dia das Mães, segunda maior data comercial em vendas, ficando atrás apenas do Natal. Com hospitais lotados de pacientes com Covid-19 e o vírus se espalhando pela capital, os lojistas não veem alternativas a não ser permanecer com as lojas fechadas.
“Se nós tivéssemos mil leitos, nós estaríamos fazendo uma pressão para estar aberto”, diz Ralph Baraúna Assayag, presidente da CDL-M (Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus).
Conforme Ralph, economia e saúde não são setores independentes na sociedade. “Olha, é impossível fazer qualquer coisa. Os técnicos [da FVS – Fundação de Vigilância em Saúde] estão dizendo exatamente que quando se der o domingo, Dia das Mães, vai estar no pico da nossa situação com a Covid. Então, nós não podemos fazer nada, infelizmente”, diz.
Ralph Assayag diz que espera ao menos o atendimento à população. “O que a gente pede é que o governo faça pelo menos uma coisa: arrume os hospitais para as pessoas não morrerem”, disse.

Em 2019, a CDL previa um aumento de 3,5% e uma receita bruta de R$ 142 milhões com a data comemorativa. Assayag afirma que antes da pandemia, a previsão era que neste ano as vendas para o Dia das Mães aumentassem de 4% a 5%.
O presidente da CDL não soube informar quanto isto representaria em dinheiro arrecadado pelo comércio, mas diz que com as lojas fechadas, a previsão agora para as vendas é zero. “Ela [a data] estava na segunda [posição], junto com a Black Friday. Esse ano vai ser zero, estão fechadas as lojas, os shoppings estão fechados”, diz.
Para o lojista, o cenário é negativo para o setor. “Então, o Dia das Mães também não pode se comemorar, vai ser a pior queda de todos os tempos. Também, não tem como passar entre família, porque está todo mundo impedido”, lamenta.
Assayag explica que a previsão é que pelo menos 6 ou 7 mil pessoas sejam demitidas no comércio do Amazonas. O número seria de pelo menos 12 mil se não fossem as medidas do governo federal.
“Nós tínhamos a previsão de 12 mil pessoas demitidas. O que aconteceu é que o governo federal fez medidas para que a gente pudesse tomar para evitar a demissão. Botar 60 dias lá as pessoas pagando 50%, nós pagando 30% e 20%, e o funcionário perdendo do seu salário. Então, foram muitas as medidas. Por causa delas houve uma retenção desses funcionários”, afirma.
Consultada, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Amazonas) afirma que ainda está fazendo um levantamento para saber o número de demissões provocadas até o momento pela pandemia. A associação estima que dos 6 milhões de empregados ligados ao setor no Brasil, metade deles podem ser demitidos nos próximos 30 ou 40 dias, caso os estabelecimentos permaneçam fechados.
Reinvenção

Fernanda Belo Ijichi, 37, é gerente de duas lojas de franquia da marca Anacapri, no Manauara e Amazonas Shopping. Os shoppings estão fechados desde o dia 22 de março.
Fernanda relata que no início a possibilidade de os negócios fecharem assustou o setor. “Como é que a gente vai fazer para manter uma loja fechada, vai ter alguma medida do governo, será que a gente vai quebrar? Além do próprio medo de ficar doente”, relata.
A lojista afirma que observando as vendas de Páscoa, varejistas com foco no Dia das Mães como ela foram estimulados a se reinventar. “As franquias de chocolate conseguiram performar bem dentro da atual realidade e, bom, acho que agora é hora de a gente mudar um pouco a nossa forma de pensar”, diz.
A franquia já possuía um canal de integração virtual há um ano, mas nem todos os franqueados investiram na ferramenta, segundo a comerciante. ‘Como a gente está em uma pandemia e temos que ficar em isolamento, e a nossa loja não é essencial, como uma farmácia, supermercado, então temos que entrar na casa das pessoas de alguma forma. A forma é pela interne”, afirma.
Apesar de não ser como a loja física, há um retorno. “A gente percebeu que tem demanda sim. Não é que nem uma loja aberta, com um grande fluxo de shopping, mas percebemos que tinha uma demanda que achávamos que nem tinha”, diz.

Fernanda começou a focar nas vendas online a partir do meio de abril, a princípio sozinha. Com o aumento das vendas, chamou mais pessoas. “Como já aumentou a demanda e a gente acha que vai aumentar por causa do Dia das Mães, a gente já chamou uma funcionária e já está pensando em cancelar a suspensão de uma outra funcionária”, diz.
A gerente explica que até o final de março manteve os 12 funcionários das duas lojas. Com o decreto estadual que prorrogou o fechamento do comércio até o final de abril, parte dos funcionários recebeu férias, os que tinham contrato prestes a vencer não foram renovados e outros tiveram o contrato suspenso. No momento, permanecem oito trabalhadores.
A lojista explica que se conseguir alcançar 40% das vendas de 2019 estará satisfeita. “Nesse Dia das Mães a gente não espera ter lucro, vai ser muito difícil ter lucro. A minha expectativa hoje é conseguir atender o máximo de clientes que eu puder e ver o que vai dar”, diz.
Fernanda diz que nesse momento mais sensível há preocupação de como se dirigir ao cliente. “Como é que a gente vai falar para a cliente, vamos comprar? Uma pessoa da área da saúde, por exemplo, a pessoa está sofrendo um caos interno. Então como é que eu vou me comunicar com essas pessoas, a comunicação também ter que ser diferente, porque é um momento novo. Então eu acho que o varejo vai haver uma transformação pós-pandemia”, afirma.
Desemprego e mortes

Anderson Frota, presidente em exercício da Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas), é mais cético quanto à relação entre a abertura das lojas e disseminação do novo coronavírus. “Abrir poderia ser motivo de contaminações por parte da população. Não abrir não sabemos se esta contaminação que está no ar se depende naturalmente de funcionamento da atividade comercial ou não”, diz.
Frota avalia o desemprego como uma parte dolorosa da crise provocada pela pandemia. “No momento em que as empresas vivem esse momento de dificuldade, perdem a sua estabilidade, na esteira de tudo isso vem exatamente o desemprego, que é a parte dolorosa, que atinge a sociedade”, afirma.
O empresário não sabe dizer quanto tempo levará para que o setor se recupere. “É possível que daqui a dois meses nós tenhamos debelado essa pandemia, mas se nós enfraquecermos a economia e as empresas perderem o equilíbrio e o desemprego vier como consequência, nós não sabemos se dentro de um ano, dois anos, nós vamos reverter esse quadro doloroso que é o desemprego”, diz.
Entretanto, no último dia 11, o até então secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Kleber de Oliveira, já havia alertado para a necessidade de Manaus, Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro manterem o isolamento, justamente como forma de evitar o bloqueio total (lockdown), que seria ainda mais prejudicial à economia.
Alternativas
A alternativa encontrada para aliviar a situação dos lojistas foi a suspensão do pagamento de impostos. O governo estadual chegou a prorrogar o prazo para pagar impostos até o final de abril e anistiou juros e multas de fundos que financiam a UEA, o turismo e ações de combate à pobreza. Mas para Assayag, isso não resolve.
“Prorrogar da forma que ele fez foi um ‘quebra-galho’, mas não tem condições porque como as lojas estavam totalmente fechadas, pagaram o funcionário, deram a manutenção na empresa, mas agora no mês que vem não vão ter dinheiro para pagar os impostos, não é querer, não vão ter dinheiro”, diz.
Anderson Frota diz que a Federação tem buscado diálogo com o Estado para evitar que as empresas percam acesso a créditos nos bancos. “Nós temos desenvolvido um diálogo com o governo, com a Secretaria de Fazenda, com a Secretaria de Planejamento, com o comitê de crise no sentido de que a gente tenha um alívio nesse momento, que as empresas não sejam prejudicadas. Porque no momento em que elas se tornam inadimplentes de algum tributo, esse tributo incide multa e em seguida vai para cartório. A ida desse tributo para cartório vai dificultar o acesso das empresas às linhas de crédito que o sistema bancário está criando em favor das micro e pequenas empresas”, explica.
A preocupação é que o governo perca cada vez mais o poder de recebimento de impostos. “Não sei quanto tempo vai aguentar com a queda da arrecadação, no nosso caso, queda do faturamento, queda do número de pessoas contratadas, lojas que vão fechar e não vão mais abrir”, alerta Assayag.
Consultada, a Sefaz (Secretaria de Fazenda do Amazonas) informou que possui apenas os dados da arrecadação do primeiro trimestre deste ano.
