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Dia a Dia

No Rio, profissionais dizem faltar equipamentos até em hospital de referência

23 de março de 2020 Dia a Dia
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Profissionais de saúde dizem que não recebem equipamentos de segurança (Foto: Warley de Andrade/TV Brasil)
Por Ana Luiza Albuquerque, da Folhapress

RIO DE JANEIRO – A falta de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), indispensáveis diante da disseminação do novo coronavírus, para profissionais de saúde atinge largamente os hospitais no Rio de Janeiro, segundo relatos de médicos e enfermeiros. O problema ocorre até mesmo no hospital federal de Bonsucesso, anunciado na semana passada pelo Ministério da Saúde como referência no tratamento dos pacientes com a doença.

Profissionais que trabalham no hospital disseram à reportagem que não há máscaras cirúrgicas ou do tipo N95 nem aventais, luvas e gorros suficientes para os funcionários. O uso de todos esses equipamentos está indicado no protocolo de manejo clínico para o vírus, produzido pelo próprio Ministério da Saúde.

O médico Júlio Noronha, diretor do Corpo Clínico, parou de ir ao hospital depois que começou a apresentar tosse seca e dor de garganta, no corpo e de cabeça. A unidade já atendeu pacientes com sintomas semelhantes aos do coronavírus.

“Peguei uma gripe, e como sou grupo de risco, acima de 65 anos, e não estamos tendo facilidade para testar, se recomendou que eu ficasse afastado. Muitos funcionários estão gripados no hospital de Bonsucesso, tanto médicos quanto de outras categorias”, diz.

O departamento da saúde do trabalhador está tentando garantir kits de testagem para os profissionais que apresentaram sintomas do vírus. Caso isso não aconteça, Noronha terá que procurar uma unidade particular.

Na segunda-feira (16), o Ministério da Saúde anunciou o que o hospital será referência no tratamento da doença. Um dos blocos começou a ser adaptado para atender esses pacientes que precisarão de internação. Serão reservados de 150 a 200 leitos.

Marco Schiavo, diretor do Sindicato de Enfermeiros e funcionário no hospital de Bonsucesso, afirma que o anúncio aconteceu antes do planejamento e treinamento com os profissionais do hospital.

Segundo Schiavo, a direção afirma que há equipamentos de proteção disponíveis. Na prática, no entanto, profissionais relatam que eles estão em falta em diversos setores. O enfermeiro confirma que há muitos funcionários com sintomas de gripe.

Há, ainda, relatos de falta de equipamentos de proteção no Hupe (Hospital Universitário Pedro Ernesto), da Uerj, no Hospital Getúlio Vargas e no Hospital Federal do Andaraí.

A reportagem também recebeu um vídeo de uma enfermeira do Hospital Federal Cardoso Fontes, Chris Gerardo, no qual reclama que não há máscaras para os profissionais.

“Hoje chegou uma paciente com todas as suspeitas de coronavírus e simplesmente temos poucas máscaras comuns. A colega de trabalho, com criança e idoso em casa, pediu a N95 ao supervisor e foi negado. A outra colega insistiu, porque é do grupo de risco, tem asma. Foi jogada a máscara para ela, como se fosse um favor”, diz na gravação.

Diante desse cenário, a Justiça Federal intimou no fim de semana o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e os secretários estadual e municipal de saúde do Rio a prestarem informações sobre o atendimento aos infectados pelo novo coronavírus no estado.

Eles precisarão explicar, por exemplo, qual a previsão de compras de insumos para o hospital de Bonsucesso e de equipamentos de proteção individual para os profissionais da saúde. Também terão que responder qual a previsão de leitos e o cronograma de instalação nos hospitais.

A decisão ocorreu no contexto de ação civil pública movida pela Defensoria Pública da União contra o governo federal, o estado e o município.

O Sindicato dos Enfermeiros e o Sindicato dos Médicos do estado também entraram com ações judiciais contra os três entes para obrigar as unidades a disponibilizarem equipamentos de proteção na quantidade adequada.

O Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) publicou uma resolução que desobriga os médicos de atenderem pacientes se não tiverem os equipamentos necessários.

O médico Flávio de Sá, diretor do conselho, ressalta que desproteger o profissional de saúde é permitir que ele se torne um vetor da doença. “Cada pessoa contaminada tem o potencial de contaminar mais quatro. Na Europa, 20% dos pacientes são médicos”, diz.

Outro lado

Em nota, a secretaria de estado de Saúde afirmou que providenciou a compra de equipamentos de proteção para atender pacientes em estado grave e profissionais da saúde.

Segundo o texto, foram adquiridos 1,5 milhão de máscaras cirúrgicas, 150 mil máscaras de proteção, 300 mil óculos, 600 mil aventais, além de gorros cirúrgicos e luvas. As entregas serão feitas pelos fornecedores, seguindo solicitação da secretaria.

Também em nota, o Hospital Federal de Bonsucesso afirmou que não há falta de equipamentos de proteção e que o estoque está sendo reforçado para enfrentar a pandemia.

“O HFB adotou todos os protocolos do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o atendimento dos casos de coronavírus na unidade, o que preconiza a adoção de máscaras apenas para pacientes com sintomas ou infectados […] e profissionais de saúde que fazem atendimento a esses pacientes”, diz o texto.

Procurado, o Ministério da Saúde respondeu que tem trabalhado para garantir insumos com fornecedores nacionais e internacionais, a partir de compra emergencial, para reforçar o apoio aos estados e municípios no enfrentamento do vírus.

A pasta disse que irá entregar 60 milhões de unidades entre óculos de proteção, luvas, álcool em gel, sapatilhas e toucas. O ministério também afirmou que assinou contrato de R$ 73 milhões para a compra de máscaras.

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Assuntos coronavírus, rio de janeiro
Redação 23 de março de 2020
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