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Política

Cancelamento de atos não acalma ânimos de bolsonaristas contra o Congresso

14 de março de 2020 Política
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Depois de estimular, Jair Bolsonaro desencorajou atos contra o Congresso (Foto: Marcelo Camargo/ABr.)

Por Gustavo Uribe e Carolina Linhares, da Folhapress

BRASÍLIA-DF E SÃO PAULO-SP – O cancelamento dos atos pelo país a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por causa da pandemia de coronavírus não acalmou os ânimos de sua militância bolsonarista. Mesmo com o pedido do presidente para que as manifestações sejam adiadas, apoiadores têm insistido em promover protestos neste domingo, 15, e iniciaram um movimento nas redes sociais: #DesculpeJairMasEuVou.

Apesar de terem divulgado o adiamento das manifestações, os movimentos organizadores afirmam não ter controle sobre as ruas e alegam que fizeram sua parte. Desde o recuo, na noite de quinta, 12, os grupos de direita estão sendo atacados e chamados de covardes nas redes sociais. O cancelamento ocorreu após o presidente ter desencorajado os protestos em sua live semanal e em pronunciamento em cadeia nacional na noite de quinta.

Nos bastidores, os grupos esperavam o gesto de Bolsonaro para não terem que cancelar por contra própria e serem enquadrados como traidores. O envolvimento de Bolsonaro também foi visto como necessário porque o próprio presidente convocou a população aos protestos.

Primeiro, ele compartilhou um vídeo pelo WhatsApp com um grupo de amigos e, posteriormente, de forma pública em discurso em Boa Vista (RR). A conta da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) da Presidência da República também chegou a divulgar um chamado para a manifestação.

Como alguns organizadores defendiam bandeiras contra o Legislativo e o Judiciário, a convocação de Bolsonaro acirrou a crise pelo controle de um montante de R$ 30,8 bilhões do orçamento impositivo. Em meio ao desgaste, o Congresso impôs uma derrota ao Planalto e derrubou na quarta, 11, um veto de Bolsonaro à ampliação do BPC (benefício assistencial a idosos carentes e deficientes), o que tem impacto de R$ 20 bilhões ao ano.

A retaliação legislativa gerou ainda mais insatisfação entre os bolsonaristas. Para eles, mesmo com o perigo de contágio pelo coronavírus, é necessário um protesto para demonstrar descontentamento público. O ambiente de conflagração é mais um elemento em um contexto de instabilidade devido à escalada do coronavírus e à redução da previsão de crescimento da atividade econômica para este ano.

Ao pedir o cancelamento dos protestos, Bolsonaro também manteve o tom de crítica ao Legislativo. O presidente afirmou que, mesmo sem ser concretizada, a mobilização já provocou um “tremendo recado” ao Congresso.

No pronunciamento horas depois, Bolsonaro defendeu o presidencialismo. Disse os atos são “espontâneos e legítimos”, “atendem aos interesses da nação” e “demonstram o amadurecimento da nossa democracia presidencialista”.

A estratégia do presidente era tentar explorar a força dos protestos para demonstrar publicamente que ainda conta com apoio popular, mesmo diante de uma alta histórica do dólar e um desempenho fraco do PIB (Produto Interno Bruto) no ano passado. Segundo assessores presidenciais, o monitoramento digital do Palácio do Planalto constatou que os dois temas têm promovido uma desmobilização entre seguidores de direita do presidente.

Ao longos das duas últimas semanas, na tentativa de retomar apoio nas redes sociais, o presidente tentou criar novas polêmicas. Ele criticou a Rede Globo por reportagem do Fantástico sobre presidiárias transsexuais e colocou em dúvida o sistema eleitoral brasileiro.

Segundo o analista Pedro Bruzzi, sócio da empresa de dados Arquimedes, as duas estratégias não tiveram êxito diante da questão econômica. “Ele apresentou dificuldades nas redes sociais e as estratégias de mudar o foco falharam”, avaliou.

Ao longo da quinta-feira, o presidente conversou com deputados bolsonaristas sobre a possibilidade de solicitar o adiamento das manifestações. Um dos argumentos apresentados foi o risco de ocorrerem protestos esvaziados por causa do receio de contágio da doença. O pedido, no entanto, tem sido ignorado por alguns apoiadores, o que gerou preocupação entre assessores presidenciais.

A avaliação é de que manifestações com pouco público podem ter o efeito oposto ao pretendido inicialmente: o de aumentar o desgaste na imagem do governo.

Nessa sexta, 13, Allan dos Santos, do site bolsonarista Terça Livre, seguiu afirmando que irá se manifestar na rua independentemente dos organizadores. Olavo de Carvalho continua a compartilhar convocações. “A interação no meu perfil aumentou 400% com pessoas reclamando que não cancelasse os atos”, afirma a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que era ligada ao movimento NasRuas e segue como interlocutora dos grupos de direita.

“As pessoas continuam indignadas e a maioria está dizendo que vai às ruas no domingo. Quem não vai é porque é mais velho ou tem medo. O que a gente podia fazer de atitude sanitária a gente já fez. Bolsonaro já avisou. A nossa atitude a gente cumpriu. Se quiserem ir assim mesmo, ninguém é dono das ruas”, disse ela.

A própria deputada afirma que fará parte da mobilização em São Paulo caso seu teste para coronavírus dê negativo. E critica o Congresso: “vejo o BPC como uma atitude revanchista, esse centro fisiológico não está preocupado com a voz das ruas, estão buscando alternativas de derrubar o governo”.

Zambelli compartilha da visão da colega Bia Kicis (PSL-DF) de que a manifestação espontânea de domingo pode ter adesão suficiente para exercer nova pressão nos parlamentares. “As pessoas se recusam a não ir. O recado pode ser maior do que se imagina. Vamos esperar domingo para ver”, disse Kicis.

“A hora que acabar o boom do coronavírus, há grande probabilidade de ter uma manifestação maior ainda, com teor um pouco mais agressivo, independentemente das lideranças dos movimentos”, afirma Zambelli.

Ao desconvocarem os protestos, os grupos de direita mobilizaram manifestações online e panelaços. O Avança Brasil, por exemplo, incentivou a hashtag #ForaRodrigoMaia. Edson Salomão, presidente do Movimento Conservador, afirmou que o grupo apoia recomendação de Bolsonaro, mas “não proíbe e nem quer impedir as pessoas de irem as ruas”.

O presidente do Movimento Avança Brasil, Nilton Caccáos, diz que está programando uma manifestação virtual no domingo. “Acreditamos que poderemos fazer a maior manifestação virtual da história”, afirma.

Ele ressaltou ainda que não poderia contribuir para o agravamento da proliferação do vírus, mas que “cada indivíduo deve ter a liberdade de se expressar da forma que acha adequada”. Ele ressaltou que os movimentos são apenas provedores de infra-estrutura “para que o povo se manifeste”.

“Ir às ruas pode ter deixado de ser parte do programa para alguns, mas de nenhuma forma isso arrefeceu os ânimos”, avalia o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP), bolsonarista e ligado ao Avança Brasil.

“Desmobilizar é difícil. Muitos enxergam o Congresso como inimigo. A pressão é positiva pois a base governista é muito pequena e há uma base flutuante que por bom senso vota com o governo. Mas esses dois grupos são inferiores a oposição e ao centrão fisiológico quando se juntam. A população é único freio contra desses últimos dois grupos”, completa.

Marcos Belizza, dos NasRuas, também aposta no poder da mobilização ocorrida ao longo da semana, mesmo com os atos cancelados. “Acreditamos que a Câmara está mais disposta a alinhar para colocar em votação as reformas administrativas e tributárias. Sentiram que o povo está atento ao que ocorre em Brasília”, disse.

O protesto estava previsto desde o início de fevereiro, com o objetivo de colher assinaturas para a Aliança pelo Brasil e demonstrar apoio à prisão em segunda instância.

A pauta mudou e o protesto foi insuflado após o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, ter chamado o Congresso de chantagista na disputa entre Executivo e Legislativo pelo controle do Orçamento deste ano.

Na quarta, a Comissão Mista de Orçamento aprovou dois projetos de lei enviados pelo governo que repartem com o Congresso cerca de R$ 15 bilhões dos R$ 30,8 bilhões. Os dois textos, agora, vão a plenário do Congresso, e a discussão continua.

Durante o Carnaval, Bolsonaro compartilhou em um grupo de aliados um vídeo que convocava a população a ir às ruas para defendê-lo. Na semana seguinte, em discurso, chamou a população a participar do ato, o que mais uma vez irritou as cúpulas do Congresso e do Supremo.

Além de apoiar o presidente, os organizadores da manifestação carregam bandeiras contra o Legislativo e o Judiciário e a favor das Forças Armadas. Nas redes sociais, usuários compartilharam convocações com mensagens autoritárias, pedindo, por exemplo, intervenção militar.

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Assuntos Jair Bolsonaro
Cleber Oliveira 14 de março de 2020
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