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Economia

Investidores de igreja britânica querem mais transparência e segurança na mineração

25 de setembro de 2019 Economia
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Lama atingiu casas e áreas verdes em Brumadinho, Minas Gerais, após rompimento de barragem (Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação)
Brumadinho: rompimento de barragem piorou negócios na mineração (Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação)

Por Nicola Pamplona, da Folhapress

RIO DE JANEIRO-RJ – Após se desfazer das ações que detinha na Vale, a Church of England, que administra o fundo de pensão dos trabalhadores e clérigos da igreja britânica, convocou outros investidores para se juntarem em um esforço para pedir mais transparência e investimentos em segurança no setor de mineração.

As ações ocorreram após o rompimento da barragem de Brumadinho (MG) e mostram como a tragédia que deixou 249 mortos e 21 desaparecidos em janeiro levou a um aperto de investidores institucionais sobre as empresas do setor. Nas últimas semanas, tanto as mineradoras brasileiras reunidas no Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração) quanto os produtores globais de outro lançaram programas de reforço à segurança e relacionamento com comunidades. 

Até novembro, o ICCM (sigla em inglês para Conselho Internacional de Mineração e Metais) lança um novo código de conduta, com padrões mais restritos para a operação de barragens. Para analistas, a pressão de investidores foi fundamental nesse esforço.

Os investidores liderados pela Church of England criaram a Iniciativa de Segurança para Investidores em Mineração e Rejeitos. O grupo reúne investidores que gerem cerca de US$ 1,3 trilhão (R$ 5,4 trilhões) e já pediu a mais de 700 mineradoras detalhes sobre suas operações para avaliar a segurança. 

O diretor de Ética e Engajamento do conselho de pensões da entidade, Adam Matthews, disse nesta terça (24), que trata-se de um processo de ‘intervenção sistêmica’ feito por investidores no setor, o que não ocorreu após o desastre da Samarco, em 2015, que deixou 19 mortos e um rastro de destruição. “Queremos assegurar o uso das melhores práticas internacionais”, afirmou.

Ele participou por telefone do Financial Times Commodities Summit, realizado no Rio, e reforçou a percepção de que a pressão dos donos do dinheiro, tanto por razões de imagem quanto pela possibilidade de perda de dinheiro em caso de acidentes, será um dos motores de mudança no setor.

“Cada vez mais os investidores olham para as mineradoras e analisam os riscos ambientais”, disse a vice-presidente da empresa de classificação de risco Moody’s, Barbara Mattos, em evento promovido pelas mineradoras há duas semanas. “O principal risco para o setor hoje é a exposição ambiental”, concordou, no mesmo painel, o diretor da consultoria especializada CRU, Paul Robinson, relatando que o tema foi mencionado em mais de cem reuniões com investidores que presenciou durante o ano.

A situação da Vale ilustra o motivo das preocupações: considerada boa pagadora de dividendos, a empresa anunciou suspensão da remuneração a acionistas por tempo indeterminado, alegando que precisa focar na remediação dos danos em Brumadinho. “Não é a prioridade. Precisamos focar em mitigação e compensação”, reforçou o diretor financeiro da companhia, Luciano Siani, no evento desta terça no Rio. A empresa está investindo R$ 7 bilhões na descaracterização de barragens semelhantes à que se rompeu em janeiro.

Os investimentos em descaracterização, novas tecnologias de armazenagem de rejeitos e maior apoio a comunidades serão cada vez mais demandados não só por investidores, mas também por autoridades e reguladores.

“Vamos ter que nos acostumar em um mundo em que o investimento é mais alto, porque vamos ter que investir mais em segurança. É o novo normal”, disse a diretora de Estratégia da Sigma Lithium, Ana Cabral. “Primeiro a gente tem que reconhecer o que aconteceu afetou vidas, criou problemas de natureza ambiental, teve efeitos econômicos e sociais”, disse à reportagem o presidente do Ibram, Wilson Brumer. “Mas precisamos olhar para a frente, de uma forma diferente do que a gente vinha fazendo”.

Há duas semanas, o instituto assinou carta compromisso prevendo maior responsabilidade e transparência, acordo para promover práticas de segurança adotadas no Canadá e convênios com prefeituras para buscar melhor relacionamento com as comunidades. 

As mudanças tiveram como base pesquisa que indicou que o rompimento da barragem de Córrego do Feijão derrubou o indicador de reputação do setor mineral brasileiro, que caiu de 55,9 em maio de 2018 para 42,9 em março de 2019. Antes do desastre de Mariana, situava-se em torno dos 60. “Hoje, o setor tem reputação próxima à do setor de construção civil, que foi afetado pela Lava Jato”, diz a diretora do Reputation Institute, Ana Luisa Almeida.

Ela diz que a situação pode ser pior, já que siderúrgicas incluídas na pesquisa puxaram para cima o indicador.  “Empresas que perdem reputação de forma significativa têm mais dificuldades de fazer negócios em geral, o custo de capital fica mais caro, os clientes passam a exigir algumas garantias a mais. Isso quebra a relação de confiança com todos os seus públicos”, concluiu ela.

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Assuntos Brumadinho, mineração, Vale
Cleber Oliveira 25 de setembro de 2019
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