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Dia a Dia

Desmatamento também avança no Sul e ameaça pampa gaúcho

5 de junho de 2019 Dia a Dia
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Planícies no pampa gaúcho: desmatamento avança (Foto: Paulo Campos/Folhapress)

Por Paula Sperb, da Folhapress

PORTO ALEGRE-RS – As coxilhas e planícies verdes que compõem o pampa gaúcho estão ameaçadas. Os dados coletados por satélite em estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que, em 2016, 43,7% da vegetação nativa estava suprimida, ou seja, desmatada. O pampa é um dos seis biomas brasileiros e restrito ao Rio Grande do Sul. A pesquisa mostra que apenas 47,3% da vegetação natural está preservada. Os outros 9% são relativos à hidrografia.

O Inpe começou a processar os dados, ano a ano, desde 2004, para saber como evoluiu o desmatamento. Ao final do estudo será possível afirmar se a supressão do pampa efetivamente aumentou ou se alguma área foi regenerada nesse período. Também será feita uma projeção até 2022, segundo Cláudio Almeida, coordenador do programa de monitoramento da Amazônia e demais biomas do Inpe.

O levantamento é possível graças a imagens feitas por dois satélites: o Landsat-8, operado pela Nasa, e o CBERS-4a, montado no Brasil pelo Inpe e lançado pela China.

A vegetação em forma de campo do pampa, composta por mais de 450 espécies de gramíneas, pode parecer simples ao olhar leigo se comparada a uma floresta vistosa, mas ela guarda uma imensa biodiversidade, diz Daniel Hanke, professor da Unipampa (Universidade Federal do Pampa).

No campus da universidade em Dom Pedrito, próxima de Bagé, ele conduz uma pesquisa sobre o tema. “Ao modificar um sistema que estava em equilíbrio, com os organismos trabalham todos juntos, destruindo a vegetação, retira-se o alimento de muitos animais e o refúgio de várias espécies com funções ecológicas específicas”, explica.

Embora o estudo do Inpe ainda não aponte a causa do desmatamento de 43,7% do pampa, Hanke afirma que o que vem ganhando espaço é o plantio de soja, enquanto cultivo de arroz está estabilizado e o de milho decresce. “Quando se suprime a vegetação para introduzir uma monocultura de soja, não se troca só uma planta por outra. O que se troca é um sistema que evoluiu ecologicamente para o equilíbrio por uma única vegetação”, diz Hanke.

No final de 2018, a Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental) autuou seis empreendimentos por transformar áreas do bioma em agrícolas sem autorização, uma delas com operação de tanques de combustíveis.
Pelas imagens do Inpe é possível ver que a maior área intacta pertence à APA (Área de Proteção Ambiental) Ibirapuitã, criada por decreto federal em 1992. Há, porém, outras porções preservadas, sufocadas entre áreas desmatadas.

“Essas ilhas no meio de um mar de soja aumentam a fragilidade do pampa porque a supressão começa pelas bordas. Um campo nativo de 20 hectares é menos resistente à pressão lateral do que um campo nativo de mil hectares”, diz Hanke.

Além disso, o desmatamento para agricultura exige novas estradas entre os campos. As rodas dos caminhões espalham sementes de uma espécie invasora, o capim-annoni, considerado praga.

A vegetação baixa do pampa está relacionada à presença de animais ruminantes. Há 13 mil anos, quem controlava o crescimento dessas plantas era uma megafauna pastadora. Cerca de 8.000 anos depois da extinção desses animais gigantes da pré-história, chegaram os bovinos e equinos trazidos pelos colonizadores, segundo explicam os pesquisadores Rafael Cabral Cruz, da Unipampa, e Demétrio Luis Guadagnin, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) no trabalho ‘Uma Pequena História Ambiental do Pampa’, de 2010.

Bovinos e o pampa convivem em equilíbrio há milhares de anos, explica Hanke. É diferente da Amazônia devastada para criar gado. “No pampa não há efeitos negativos na presença desse animal –pelo contrário, ela é desejável”.

Por isso, a queda do número de cabeças de gado no pampa preocupa. Essa diminuição reforça a percepção de que que o bioma está sendo tomado pela soja e pode ainda impactar a cultura do gaúcho.

O pampa influenciou os hábitos ligados à pecuária, a relação afetiva com o cavalo e até as vestimentas do gaúcho, como se chama o homem do campo que exerce atividade pastoril no Rio Grande do Sul, na Argentina e no Uruguai. “Com o decréscimo das áreas de rebanho do pampa por causa do boom das commodities, podemos ter impactos a longo prazo na cultura gaúcha. Restará um campo sem gente. Se o gaúcho não vive no campo, os CTGs (Centros de Tradição Gaúcha) terão que fazer uma força maior para preservar a cultura para que não seja algo do passado”.

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Assuntos Inpe, pampa gaúcho
Cleber Oliveira 5 de junho de 2019
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